O Ocupa Palestra, grupo de conselheiros da oposição à atual gestão do Palmeiras, divulgou nesta sexta-feira (25) uma nota em que pede a saída de José Roberto Lamacchia — marido da presidente Leila Pereira — do Conselho Deliberativo do clube. O posicionamento ocorre horas depois da Almirante Participações, empresa de Marcos Lamacchia, filho de José Roberto e enteado de Leila Pereira, vencer o leilão pela compra de 90% da SAF do Vasco, da qual era a única concorrente. A aquisição ainda precisa ser aprovada pelo Conselho Deliberativo do Vasco e por uma Assembleia Geral Extraordinária.
Na nota, os conselheiros demonstram preocupação com uma possível compra da SAF vascaína por empresas ligadas a José Roberto Lamacchia e condenam que o Palmeiras possa ser usado para financiar ou favorecer rivais. O grupo afirma que questionou oficialmente os órgãos do clube sobre os conflitos de interesse que a aquisição poderia gerar, mas teve os pedidos de esclarecimento negados — contando, segundo o texto, “inclusive com a complacência de quem deveria fiscalizar”. “É indispensável separar os negócios privados de dirigentes dos cargos ocupados temporariamente na administração do Palmeiras, preservando a imagem institucional da nossa associação”, diz trecho do comunicado. “Acima da nossa atuação política no Conselho, somos torcedores da Sociedade Esportiva Palmeiras. Aqui nascemos e morreremos, atuando com firmeza para defender, unicamente, os interesses do clube que amamos.”
As três exigências da oposição
A lista de pedidos do grupo tem três pontos centrais. O principal é o desligamento voluntário de Lamacchia do Conselho Deliberativo caso a aquisição do Vasco se concretize. Para fundamentar a cobrança, a oposição cita o artigo 33, inciso XIII, do estatuto do Palmeiras, que prevê que “é infração proceder contra os interesses do clube, tornando incompatível a condição de avalista ou financiador de uma equipe rival com o exercício de mandato” no Conselho. Lamacchia foi reeleito conselheiro em fevereiro de 2025, com 176 votos.
O segundo ponto é a interrupção de benefícios diretos ou indiretos “do ecossistema da presidente a equipes adversárias” — os conselheiros citam, como exemplo, o eventual uso da aeronave de Leila Pereira por um clube rival, o que caracterizaria, na visão do grupo, “um evidente e indissociável benefício direto a um adversário”. Por fim, o grupo pede proteção institucional: que os órgãos de fiscalização do clube, em especial o Conselho Deliberativo e o Conselho de Orientação e Fiscalização (COF), estabeleçam barreiras de reforço para proteger os dados operacionais e o conhecimento interno do Palmeiras.
O avalista de R$ 2 bilhões e o escrutínio da Anresf
O coração da polêmica está no papel de José Roberto Lamacchia na operação do Vasco: ele é avalista — ou seja, quem responde financeiramente pelo compromisso do filho — na compra da SAF vascaína. Em junho, em entrevista ao ge, ele confirmou o papel: “Já está firmado esse acordo, já está formado. Mas nós só vamos ficar, quando eu digo nós, é o meu filho, Marcos Faria Lamacchia. Nós só vamos ficar se o presidente for o Pedrinho. Eu sou o avalista da operação, por isso que estou me metendo. Eu estou avalizando R$ 2 bilhões do meu filho. Se bem que ele não precisa, porque ele tem esse dinheiro. Meu filho é uma pessoa limpa e independente”, afirmou à época, quando Pedrinho, presidente do Vasco, havia sido afastado do comando da SAF por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
A operação está sob escrutínio da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), órgão da CBF que fiscaliza a saúde financeira dos clubes e as regras de governança do futebol brasileiro. A agência apura se o fato de Marcos Lamacchia ser enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, caracteriza conflito de interesse na venda da SAF de um clube para um empresário relacionado a outro — e o chefe da Anresf afirmou que a venda será analisada com “rigor”.
Na prática, o episódio abre um novo capítulo na tensão política interna do Palmeiras: a oposição usa o movimento do filho da presidente no Vasco para pressionar a gestão em um tema sensível — a fronteira entre os negócios privados da família de Leila Pereira e os interesses do clube alviverde. Com a Anresf apurando o caso e a aprovação da compra ainda pendente nos órgãos do Vasco, a resposta de Lamacchia ao pedido de desligamento e o desfecho da análise regulatória definirão os próximos passos dessa disputa.
Leia a nota na íntegra
NOTA OFICIAL DO OCUPA PALESTRA SOBRE A AQUISIÇÃO DA SAF DO VASCO DA GAMA
Em defesa da Sociedade Esportiva Palmeiras
Nós, conselheiros, conselheiras e integrantes do grupo Ocupa Palestra, acompanhamos com atenção e preocupação as recentes movimentações envolvendo a aquisição do clube Vasco da Gama por empresas ligadas ao Sr. José Roberto Lamacchia, marido da atual presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras e conselheiro do clube.
Sempre alertamos para a necessidade de eliminação dos conflitos de interesse que envolvem a gestão e os negócios privados de seus dirigentes. Levamos esses questionamentos de forma oficial aos órgãos do clube diversas vezes, cobrando esclarecimentos que, muitas vezes, foram negados, contando inclusive com a complacência de quem deveria fiscalizar.
É indispensável separar os negócios privados de dirigentes dos cargos ocupados temporariamente na administração do Palmeiras, preservando a imagem institucional da nossa associação. As empresas da mandatária não podem, sob qualquer hipótese, financiar ou favorecer nossos rivais diretos em campo.
Diante desse cenário e em estrito respeito às diretrizes do nosso Estatuto Social, solicitamos:
1) Desligamento voluntário do Conselho Deliberativo: Caso a aquisição do Vasco da Gama se concretize, sugerimos que parta do próprio conselheiro José Roberto Lamacchia o pedido de desligamento de suas funções no Conselho Deliberativo (CD). O art. 33, inciso XIII, do Estatuto prevê que é infração proceder contra os interesses do clube, tornando incompatível a condição de avalista ou financiador de uma equipe rival com o exercício de mandato no CD.
2) Interrupção de benefícios diretos ou indiretos: Ressaltamos a necessidade de cessar qualquer tipo de benefício, facilidade ou cessão de insumos do ecossistema da presidente a equipes adversárias. A utilização de estrutura privada, como por exemplo o eventual uso de sua aeronave pelo clube rival, caracteriza um evidente e indissociável benefício direto a um adversário.
3) Proteção institucional: Solicitamos que os órgãos de fiscalização do clube, em especial o Conselho Deliberativo (CD) e o Conselho de Orientação e Fiscalização (COF), no uso de suas atribuições, estabeleçam barreiras de reforço à proteção dos dados operacionais e know-how da nossa instituição, cujo patamar de excelência foi alcançado pelo contínuo trabalho de diferentes dirigentes há mais de uma década.
Acima da nossa atuação política no Conselho, somos torcedores da Sociedade Esportiva Palmeiras. Aqui nascemos e morreremos, atuando com firmeza para defender, unicamente, os interesses do clube que amamos.
Ocupa Palestra



