O futebol brasileiro é apaixonante. Revela talentos, forma ídolos e movimenta multidões. Mas, muitas vezes, a forma como os clubes são administrados ainda parece distante do profissionalismo exigido pelo futebol moderno. O recente caso envolvendo o volante André, do Corinthians, e o interesse do Milan, da Itália, escancara exatamente esse problema — e abre um debate importante sobre a necessidade de estruturas mais profissionais, como a Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Recentemente, o Milan apresentou uma proposta ao Corinthians para contratar o jovem volante formado nas categorias de base do clube. A oferta poderia chegar a 17 milhões de euros (cerca de R$ 103 milhões) por 70% dos direitos econômicos do atleta, incluindo valores fixos e bônus por desempenho.
As negociações avançaram. Representantes do jogador abriram mão de parte de seus direitos para facilitar o acordo, documentos foram trocados entre os clubes e até o departamento jurídico do Corinthians participou das tratativas. Segundo informações divulgadas pela imprensa, houve mais de 30 trocas de e-mails até que os termos fossem alinhados.
Tudo indicava que a transferência estava encaminhada.
Porém, após uma coletiva do técnico do Corinthians destacando que o jogador poderia render ainda mais ao clube e que seu valor poderia ser maior, o presidente do clube, Osmar Stabile, mudou de posição e decidiu não assinar o acordo final.
A partir daí, o que parecia uma negociação comum passou a se transformar em um possível conflito internacional.
Segundo fontes ligadas ao Milan e ao staff do jogador, todos os termos já estavam acertados e assinados por representantes do atleta e membros do clube brasileiro. A alegação é de que a falta da assinatura do presidente não seria suficiente para invalidar o acordo, podendo inclusive levar o caso à FIFA para que a transferência seja efetivada.
Ou seja: uma negociação que poderia ser conduzida de forma estratégica e planejada acabou se transformando em uma situação de insegurança jurídica e institucional.
E é exatamente nesse ponto que surge uma reflexão importante para o futebol brasileiro.
A grande questão não é apenas se o Corinthians deveria vender ou não o jogador. Clubes têm todo o direito de decidir manter seus talentos, valorizá-los ou negociá-los no momento que considerarem adequado.
O problema está na forma como essas decisões são tomadas.
Quando negociações milionárias dependem de mudanças de opinião de última hora, pressões momentâneas ou reações após entrevistas e repercussões externas, o clube deixa de agir como uma instituição estratégica e passa a agir como um ambiente improvisado.
No futebol moderno, negociações internacionais envolvem contratos complexos, departamentos jurídicos especializados, planejamento financeiro e gestão de ativos esportivos.
E é exatamente nesse cenário que o modelo de Sociedade Anônima do Futebol surge como uma alternativa relevante.
Quando um clube se transforma em SAF, ele passa a funcionar com uma lógica empresarial. Há investidores, planejamento de longo prazo, governança corporativa e gestores profissionais responsáveis por proteger o patrimônio esportivo e financeiro da instituição.
Quem investe milhões ou bilhões em um clube não pode se dar ao luxo de tomar decisões impulsivas. O objetivo passa a ser claro: valorizar ativos, fortalecer a marca, gerar receitas e construir um projeto esportivo sustentável.
Isso muda completamente a forma de pensar o futebol.
Um clube bem organizado financeiramente não precisa vender um jovem talento às pressas para fechar as contas do mês. Ele pode escolher o momento certo para negociar, ou até mesmo manter o jogador por mais tempo para fortalecer o time e aumentar seu valor de mercado.
Mais do que isso: um clube estruturado consegue montar elencos fortes e manter seus principais jogadores por períodos maiores.
É exatamente assim que surgem ciclos vencedores.
Grandes potências do futebol mundial construíram hegemonias justamente porque possuem estabilidade financeira e gestão profissional. Esses clubes conseguem manter uma base competitiva, investir em novos talentos e planejar temporadas com antecedência.
No Brasil, muitas vezes acontece o contrário.
Um time conquista um título e, poucos meses depois, precisa vender metade do elenco para equilibrar as contas. O resultado é um ciclo constante de reconstrução que impede a consolidação de projetos vencedores de longo prazo.
Por isso, o debate sobre a profissionalização da gestão no futebol brasileiro é tão importante.
Não se trata apenas de atrair investidores ou aumentar receitas. Trata-se de criar estruturas capazes de proteger o patrimônio esportivo dos clubes, valorizar seus talentos e construir projetos que durem décadas — e não apenas uma temporada.
Torcer por um time não deveria significar apenas comemorar um título isolado.
O verdadeiro sonho de qualquer torcida é ver seu clube forte por muitos anos, disputando títulos de forma constante, revelando grandes jogadores e mantendo uma identidade vencedora.
Para que isso aconteça, paixão e tradição continuam sendo fundamentais. Mas, no futebol moderno, elas precisam caminhar lado a lado com gestão profissional, planejamento e responsabilidade financeira.
O caso do volante André é apenas um episódio.
Mas ele revela uma discussão muito maior: o futebol brasileiro precisa decidir se continuará sendo guiado pelo improviso ou se finalmente adotará estruturas capazes de transformá-lo em uma potência sustentável por décadas.
E essa decisão pode definir o futuro dos nossos clubes.
Fernando Araujo
Advogado, graduado em Direito pela UNIMESP – Universidade Metropolitana de Guarulhos (antiga FIG). Pós Graduado em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade Legale. Pós Graduado em Direito e Processo Previdenciário pela Faculdade Damásio. Sócio da LDVC Advogados. Criador de conteúdo digital jurídico. Participou de inúmeros cursos promovidos pela OAB, Legale, ESA (escola Superior da Advocacia), IBIJUS, Sebrae.



