O cenário administrativo da Sociedade Anônima do Futebol do Vasco da Gama sofreu uma reviravolta significativa. A 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro acatou um pedido formulado pela 777 Carioca e determinou o afastamento de Pedrinho e de outros dois integrantes do Conselho de Administração da SAF. A decisão, proferida pela juíza Caroline Fonseca, fundamentou-se em constatações graves feitas pelo Conselho Fiscal da empresa. Pedrinho segue como presidente do clube associativo, mas perdeu o poder sobre a gestão da SAF.
Além do presidente do clube, foram afastados os conselheiros Christiano Stockler Campos e Felipe Elias. Para ocupar o vácuo de comando, a advogada e ex-diretora jurídica da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Samantha Longo foi nomeada como interventora judicial. De acordo com o documento, ela assume a gestão e precisa adotar, no prazo de 60 dias, as providências necessárias ao restabelecimento da regularidade dos processos de governança, da transparência, da prestação de contas e da circulação de informações entre os órgãos sociais da companhia. Samantha Longo também deverá apresentar relatórios a cada 15 dias para supervisão do juízo.
Falhas de governança e denúncias de práticas coercitivas
A decisão da magistrada se baseou em um parecer emitido pelo Conselho Fiscal da SAF em 30 de abril de 2026, referente às demonstrações financeiras do exercício de 2025. O relatório identificou graves falhas de governança corporativa, deficiência de controles internos, limitações ao exercício da atividade fiscalizatória e ausência de aprovação formal de atos societários relevantes. A situação financeira também é crítica: mesmo após a recuperação judicial, a SAF acumula um patrimônio líquido negativo de R$ 647 milhões, tendo gasto R$ 100 milhões em contratações de jogadores em 2026.
Outro elemento de peso na fundamentação judicial foi o episódio envolvendo denúncias do atacante chileno Jean David, que deixou o Vasco no fim de 2025. O jogador afirmou que, durante sua passagem pelo clube carioca, pessoas ligadas à diretoria exigiram o pagamento de comissões da própria transferência do Toluca para o Vasco sob ameaça de não ter oportunidades em campo. A transferência ocorreu em agosto de 2024. Jean David relatou que outros atletas do elenco vascaíno confirmaram ter sofrido pressões semelhantes. Ao ser questionado sobre o caso, o clube negou qualquer irregularidade e informou ter aberto uma investigação interna.
Contexto da disputa entre Vasco e 777
A relação entre o Vasco e a 777 Partners, que teve início com a venda de 70% da SAF em 2022, transformou-se em uma disputa judicial prolongada. Em maio de 2024, a Justiça concedeu uma liminar que retirou o controle da SAF das mãos da empresa norte-americana e o devolveu ao clube associativo, colocando Pedrinho no comando. Desde então, as partes travam uma batalha jurídica e arbitral para definir o futuro da SAF. Enquanto o Vasco busca alternativas para atrair novos investidores e sustenta que a participação da 777 foi reduzida, a empresa norte-americana reivindica seus direitos societários e contesta negociações conduzidas sem sua anuência. O afastamento de Pedrinho e a nomeação de uma interventora adicionam mais um capítulo a essa complexa novela administrativa.



