A transformação promovida pelas SAFs passa pela profissionalização da gestão, mas não deve subestimar as regras escritas e não escritas daqueles que construíram a história do futebol brasileiro até aqui.
A transformação promovida pelas SAFs trouxe ao futebol brasileiro uma nova geração de profissionais. Eles estão vindo do mercado financeiro, da indústria, da tecnologia, da governança corporativa e da gestão estratégica e passaram a ocupar espaços que, por décadas, foram dominados por dirigentes formados dentro do próprio ambiente esportivo.
Essa renovação é positiva? Sim. É necessária? Inclusive.
O futebol brasileiro precisava incorporar novas práticas de gestão, processos mais eficientes, responsabilidade financeira, planejamento de longo prazo e uma visão empresarial capaz de sustentar seu crescimento.
Mas existe um ponto que merece atenção e reflexão.
Ao assumir o desafio de reconstruir um clube, muitos profissionais descobrem rapidamente que o futebol não é apenas uma operação corporativa. Ele é um ecossistema complexo, formado por relações históricas, tradições, rivalidades, interesses, costumes (alguns vícios dentre eles) e dinâmicas que não estão descritas em manuais de governança nem em apresentações para investidores.
Uma SAF não herda apenas ativos, passivos, contratos e indicadores financeiros. Ela herda uma história.
Herda a relação do clube com a sua torcida. Herda suas rivalidades. Herda sua reputação. Herda suas alianças institucionais. Herda conflitos antigos, expectativas acumuladas e uma série de códigos não escritos que influenciam diretamente o ambiente em que passará a atuar.
É comum que executivos recém-chegados ao futebol tentem aplicar modelos corporativos já consolidados em outros setores. Muitas vezes esses modelos funcionam. Outras vezes encontram resistência. Não necessariamente porque estão errados, mas porque o futebol possui características próprias que exigem adaptação.
Existem regras formais e informais.
Existem estatutos e cultura.
Existem regulamentos e relações construídas ao longo de décadas.
Compreender essa diferença não significa aceitar práticas ultrapassadas ou perpetuar vícios históricos. Significa apenas reconhecer que transformar um ambiente exige, antes de tudo, entendê-lo e que isso seja praticado com muita, mas muita resiliência.
Esse aprendizado também se aplica à relação com federações, confederações e demais entidades que compõem a estrutura do futebol brasileiro. Independentemente das críticas ou elogios que possam existir, são instituições que possuem cultura própria, formas específicas de funcionamento e lideranças que carregam trajetórias construídas ao longo de muitos anos.
Quem pretende influenciar esse ambiente precisa, primeiro, compreendê-lo.
Da mesma forma, os rivais não são apenas adversários esportivos. Em muitos estados, eles representam forças políticas, econômicas e institucionais que ajudam a moldar o contexto em que decisões relevantes são tomadas. Ignorar essa realidade é abrir mão de entender parte importante do tabuleiro.
Talvez o maior erro seja acreditar que a modernização do futebol depende da substituição completa do antigo pelo novo.
Na prática, os projetos mais sólidos costumam nascer justamente da combinação entre esses dois mundos.
De um lado, a capacidade técnica, a disciplina de gestão e a visão estratégica trazidas pela geração SAF. Do outro, o conhecimento acumulado por quem vive o futebol há décadas e compreende suas nuances, seus atores e suas particularidades.
As SAFs podem representar uma nova era, mas nenhuma nova era se sustenta quando escolhe ignorar a história que a tornou possível.
Mauro Cesar Pereira
CEO do Grupo Dataclick, grupo especializado em plataformas de relacionamento com fãs, ticketing, controle de acesso e inteligência de dados para o esporte e o entretenimento. Lidera as operações da Torcedor de Vantagens, Ingresso de Vantagens e Clicker Sports, onde tem atuação junto a clubes, SAFs e produtores na construção de receitas recorrentes, experiência do torcedor e crescimento estruturado. Na Sou SAF, assina colunas sobre gestão e comportamento, tecnologia e inovação, mercado e transformação do futebol brasileiro.



