O futebol profissional português alcançou um marco histórico com a aprovação da chave de distribuição das receitas provenientes da comercialização centralizada dos direitos televisivos. Em Assembleia Geral extraordinária realizada no Porto, as sociedades desportivas da primeira e segunda divisões validaram a proposta apresentada pela Liga Centralização com 80% dos votos favoráveis. O novo modelo, que entrará em vigor a partir da temporada 2028/29, encerra a era das negociações individuais e estabelece critérios unificados para a partilha dos recursos audiovisuais, estimados em aproximadamente 250 milhões de euros anuais.
A decisão consolida o processo determinado pelo Governo em 2021, após entendimento entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal. Com a nova regra, grandes clubes deixarão de negociar contratos separadamente, como ocorreu recentemente com o Benfica, que renovou seu vínculo individual até 2028. A proposta aprovada define que 90% do montante total será destinado aos clubes da elite do futebol nacional, enquanto os 10% restantes serão alocados às equipes da segunda divisão. Durante a votação, o clube Nacional chegou a apresentar um recurso para uma proposta alternativa que defendia uma divisão mais igualitária, mas a iniciativa foi rejeitada pela maioria dos votantes.
Critérios de partilha priorizam mérito esportivo e infraestrutura
A estrutura de repartição das verbas foi desenhada sobre cinco pilares fundamentais que buscam equilibrar competitividade e sustentabilidade. A maior fatia da receita, correspondente a 57,5% do valor total, será distribuída com base no desempenho desportivo, levando em conta a posição final no campeonato, o histórico de classificações e a contribuição de cada clube para o ranking da UEFA. Outros 20% serão repartidos de forma igualitária entre todos os participantes, garantindo uma base financeira mínima para as operações das equipes.
Os critérios restantes focam na dimensão social e na qualidade do espetáculo entregue ao público. A audiência televisiva e a média de público nos estádios responderão por 17,5% da distribuição. Além disso, o modelo incentiva a modernização das arenas: 3% do valor será destinado a clubes que ofereçam melhores condições para as transmissões audiovisuais e 2% serão entregues com base na qualidade dos gramados, da iluminação e das instalações para a imprensa. Essa configuração visa não apenas recompensar o sucesso em campo, mas também promover a valorização do produto futebol para o mercado internacional.

A visão da CFO da Liga Portugal: Um novo paradigma focado em sustentabilidade e Fair Play Financeiro
Para Sónia Costa Cunha, Chief Financial Officer (CFO) da Liga Portugal, a aprovação deste mecanismo representa a formalização de um novo paradigma onde a receita audiovisual passa a ser compreendida como um bem coletivo do sistema. Segundo a executiva, a arquitetura do modelo não é neutra, pois articula o incentivo competitivo à coesão financeira, garantindo a viabilidade das sociedades desportivas. Essa estrutura é considerada um passo essencial para a implementação de um regime de Fair Play Financeiro robusto, uma vez que a previsibilidade das receitas permite estabelecer limites e obrigações de equilíbrio financeiro muito mais críveis e eficazes.
Outro ponto central na visão da CFO é a mudança na percepção sobre o torcedor, que deixa de ser um espectador passivo para se tornar o destinatário de um investimento estratégico coletivo. A centralização pressupõe que a melhoria na experiência do fã e na qualidade do conteúdo audiovisual gera valor para todo o sistema, e não apenas para clubes isolados. Com o reforço da infraestrutura regulatória e comercial, o futebol português busca alinhar-se às melhores práticas das grandes ligas europeias, promovendo uma valorização sustentada das competições profissionais.
Fonte: A Bola; CNN Portugal; Jornal de Notícias.



