Em meio à contagem regressiva para a Copa do Mundo de 2026, o futebol brasileiro cruzou o Atlântico para apresentar aos investidores internacionais uma tese que vem ganhando corpo nos últimos anos: a de que o País reúne as condições para transformar seu esporte mais popular em um ativo financeiro de primeira linha. O palco foi o Itaú BBA Sports Summit, realizado em Nova York, onde executivos de clubes, banqueiros, advogados e investidores discutiram o abismo entre o potencial econômico do futebol nacional e a receita que ele efetivamente gera.
A percepção dominante entre os participantes é a de que o Brasil vive um momento raro de convergência entre capital disponível, estrutura regulatória emergente e uma demanda que sempre existiu, mas nunca foi devidamente monetizada. “Temos o ativo mais importante de todos, que é a demanda. Agora precisamos transformar isso em produto”, afirmou Luiz Ribeiro, managing director e co-head da General Atlantic. “O esporte virou um tema muito quente porque é uma indústria protegida contra a IA”, complementou. Os números ilustram o tamanho do desafio: os direitos de transmissão do futebol brasileiro movimentam cerca de US$ 600 milhões por ano, enquanto a Premier League inglesa supera US$ 2 bilhões anuais apenas com broadcasting. Enquanto a liga inglesa gera aproximadamente US$ 12 por habitante em receitas de mídia, o Brasil monetiza cerca de US$ 2 per capita. “Quando você olha os comparáveis internacionais, existe potencial para esse mercado ser três ou quatro vezes maior”, calculou Guilherme Ávila, head of sports, media and entertainment do Itaú BBA.
Os pilares da transformação e a urgência de uma liga unificada
O diagnóstico é que o problema histórico do futebol brasileiro nunca foi a falta de consumidores. O País reúne mais de 100 milhões de torcedores, possui uma das marcas esportivas mais reconhecidas do planeta e segue como o maior exportador de jogadores do mundo. O gargalo sempre esteve na organização do produto. “Durante muito tempo, o mercado olhava para o jogador brasileiro, não para o produto futebol brasileiro. O desafio agora é transformar o campeonato em um produto exportável”, disse Marcos Motta, vice-presidente do Flamengo e advogado especializado no setor esportivo.
A criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) deu o pontapé inicial para a entrada de investidores privados, atraindo grupos como Red Bull, City Football Group e fundos de private equity. Mas a SAF é apenas uma parte do que se projeta como necessário. Pedro Daniel, CEO do Atlético-MG, sustenta que o novo ciclo depende de três pilares: profissionalização, fair play financeiro e centralização dos direitos comerciais. A criação de uma liga unificada aparece como o ponto central do debate. Atualmente, o futebol brasileiro depende quase que exclusivamente do mercado doméstico — apenas 1% das receitas vêm do exterior, contra 40% a 50% na Premier League. “Precisamos parar de exportar apenas jogadores e começar a exportar o campeonato”, resumiu Gabriel Lima, CEO da Futebol Forte União (FFU).
O otimismo, no entanto, vem acompanhado de um senso de urgência. Desde 2021, o mercado discute a criação de uma liga estruturada no País. O processo avançou, atraiu investidores e elevou o grau de profissionalização, mas também produziu desgaste. “Tem investidores que já estão cansados de ouvir a mesma história. E tem outros que entendem que o mercado hoje é muito melhor do que era há quatro anos e não querem perder o momento de entrar antes desse rerating”, afirmou Ávila. A aposta é que, se conseguir resolver seus entraves de governança e estruturar uma liga forte, o Brasil poderá transformar um produto historicamente submonetizado em uma das plataformas esportivas mais valiosas do mundo emergente.
Fonte: Neofeed.



