Bruno Vicintin conhece o futebol por dentro dos dois lados do balcão. Foi superintendente da base e vice-presidente de futebol do Cruzeiro entre 2012 e 2017, período em que o clube conquistou os títulos brasileiros de 2013 e 2014 e a Copa do Brasil de 2017 — e em que a dívida começou a subir. Hoje, é dono do Santa Clara, de Portugal, e assiste de fora o time do coração operar como clube-empresa. A experiência nos dois modelos, porém, não o transformou em pregador da SAF nem em defensor do associativo.
“O modelo associativo faliu. Grandes dirigentes são raros como grandes atletas. Em clubes associativos, uma gestão competente pode ser desmontada no mandato seguinte por divergências políticas. A SAF foi a salvação para aquela crise [do Cruzeiro], mas não é garantia absoluta para ninguém”, afirmou ao Sport Insider.
A trajetória entre dois mundos
Vicintin entrou no Cruzeiro em 2012, quando o clube trocou de comando após 17 anos sob a mesma ala política — os irmãos Zezé e Alvimar Perrella se alternaram na presidência nesse período, e a sucessão coube a Gilvan de Pinho Tavares. O empresário começou como assistente da vice-presidência, cargo criado especialmente para abrigá-lo, e no fim daquele ano assumiu a superintendência da base, com responsabilidade estatutária. Ficou na base até 2016 e assumiu a vice-presidência de futebol no ano seguinte, quando passou a ter mais poder.
O trabalho, segundo ele, foi movido por amor ao clube. “Em todos os cargos que exerci no Cruzeiro, nunca fui remunerado. Pelo contrário, pagava bicho [premiação ao elenco] do meu bolso, pagava viagem do meu bolso. Trabalhei seis anos no Cruzeiro sem receber nada, por amor mesmo”, conta. Ao tentar se candidatar à presidência, porém, esbarrou no estatuto: o regulamento exigia mais tempo de mandato no Conselho Deliberativo do que os nove anos que ele acumulava. Impedido de concorrer, deixou o clube e se tornou, de certa forma, oposição aos sucessores — em 2018, Wagner Pires de Sá assumiu a presidência com Itair Machado como principal aliado.
A vivência na política interna do clube deixou marcas. “Quando analisei a política interna do Cruzeiro, o futebol tinha apenas três votos no conselho; a ala da bocha, esporte tradicional do clube social, somava 18 votos. A bocha tinha seis vezes mais peso eleitoral do que o futebol profissional”, relembra.
Depois da passagem pelo Cruzeiro, Vicintin convenceu o pai, Ricardo, a comprar o Alverca, então na quarta divisão portuguesa. Em seis anos, o clube chegou à elite do futebol de Portugal — momento em que a família precisou vender a participação societária para evitar conflito de interesses, em transação a um grupo de empresários ligados a Vinicius Júnior. Isso porque, no meio do processo de reestruturação, Bruno adquiriu outro clube, o Santa Clara. Apesar de disputar a primeira divisão, o clube estava “quase falido”, na avaliação do empresário. O primeiro ano foi de rebaixamento; no segundo, veio o título e o retorno à elite. No terceiro, quinto lugar na Primeira Liga e vaga na Conference League — melhor campanha da história.

O interesse pelo futebol português nasceu ainda no Cruzeiro: a Traffic, de J. Hawilla, era dona do Estoril Praia, período em que Bruno pôde se aproximar e estudar a administração do clube. Ele passou a enviar para lá garotos da base cruzeirense que não tinham espaço imediato no time profissional — foi o caminho de Léo Bonatini e Sebá, que se valorizaram no Estoril e, mais tarde, foram vendidos a Wolverhampton e Al-Hilal. “Na Europa, o futebol brasileiro costuma ser visto apenas como fornecedor de matéria-prima, os jogadores. Hoje o mercado português me enxerga como um par, um dirigente local. Sou delegado da Federação Portuguesa de Futebol e fui eleito diretor da Liga Portuguesa”, conta.
Os riscos do modelo empresarial
Portugal criou sua própria estrutura societária para atividades esportivas em 1997: a Sociedade Anónima Desportiva (SAD), que tem semelhanças com a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), criada no Brasil em 2021. Em solo português, a percepção sobre o clube-empresa é mais cautelosa, porque vários projetos deram errado nessas quase três décadas. “O Belenenses implodiu por um litígio interno entre o clube associativo e a SAD. O Boavista enfrenta graves problemas financeiros. Casos semelhantes atingiram Vitória de Setúbal e Académica de Coimbra”, explica o empresário.
Para Vicintin, o modelo empresarial, por si só, não basta para determinar o sucesso esportivo ou administrativo de um clube — isso depende de quem assume o controle. Ele cita dois exemplos brasileiros que, na sua avaliação, funcionam: em Minas Gerais, tanto a SAF do Atlético, com a família Menin, quanto a do Cruzeiro, com Pedro Lourenço, operam bem porque são empresários bilionários, locais e apaixonados, que aportam patrimônio próprio com responsabilidade. E outros dois exemplos para mostrar o que dá errado: o John Textor no Botafogo e a 777 Partners no Vasco.
A conclusão que fica é dupla: se o associativo sofre com a instabilidade política e a descontinuidade das gestões, o clube-empresa carrega o risco de depender da qualidade e do compromisso de quem está no comando.
Fonte: Sport Insider.



