A discussão sobre os campeonatos estaduais vem de longe. Quase trinta anos atrás, o jornalista Juca Kfouri já indagava “por que continuar disputando torneios que havia muito tinham perdido a razão de ser” (Folha de S. Paulo, 14/03/1998).
A preocupação era com o nosso calendário. Até que a consciência se espalhou e os torcedores dos grandes clubes passaram a enxergar os estaduais como um estorvo. Daí os estádios vazios, a audiência em queda e a indiferença até diante do título — quando muito, comemora-se a estreia de um Pedro Lima ou Zé Lucas.
A resposta da CBF foi apertar os estaduais. Basicamente, reduziu o número de partidas e permitiu que o Brasileirão e a Copa do Brasil começassem mais cedo.
Isso explica por que o último Pernambucano teve só oito clubes e, como outro lado da mesma moeda, por que clubes tradicionais como Central, Petrolina e Salgueiro ficaram de fora.
O Sport jogou só 11 partidas para ser campeão, o que significou menos chances para quem vive do futebol, sobretudo no interior — sim, estou falando do ambulante que vende cerveja, do catador de latinha, do senhorzinho do amendoim.
Seria possível dar novo fôlego ao Estadual sem bagunçar o calendário? A Federação Pernambucana parece ter uma resposta, ao menos pela repercussão positiva do anúncio do próximo Pernambucano.
Do menor campeonato de sua história, em 2026, o Pernambucano salta para o maior de seus 113 anos. Serão 31 clubes, com início em outubro e término em março de 2027.
Serão dois turnos. O primeiro começa ainda neste ano, com 24 clubes que não disputaram o último Pernambucano (a exceção é o lanterna Jaguar). Estão aí Afogados, América-PE, Central, Íbis, Petrolina, Porto, Salgueiro. Na prática, é a velha Segundona de cara nova.
Os 24 clubes serão separados em quatro grupos, conforme a região de cada um: Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Ninguém precisa mais atravessar o estado para jogar e as rivalidades entre vizinhos darão mais tempero às disputas.
Dentro de cada grupo, todos jogam contra todos e os dois melhores avançam às oitavas, depois às quartas e, por fim, quatro clubes disputarão o quadrangular final. Os três primeiros garantirão vaga no 2º turno, onde se juntam aos sete melhores do último Pernambucano: Sport, Náutico, Santa Cruz, Retrô, Maguary, Decisão e Vitória.
Daí em diante, teremos dez clubes, divididos em dois grupos de cinco. Os três melhores de cada grupo avançam ao mata-mata, com os líderes saltando direto às semis e os confrontos disputados em ida e volta. Na prática, Sport, Náutico ou Santa Cruz pode levantar a taça disputando apenas nove partidas.
Um Pernambuco raiz, com os principais clubes do Estado, rivalidades locais e muito mais apelo comercial. Tudo isso sem espremer ainda mais o calendário dos grandes clubes.
Se tudo der certo, há boas chances de a CBF importar o modelo para outros estados. Eu vi o mundo… ele começava em Pernambuco.
Rodrigo de Abreu Pinto
Advogado, filósofo e professor. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Formado em Direito das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF) pela CBF Academy. Presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Presidente da Comissão de Inovação e Mercado de Capitais da Associação Brasileira de Advogados de Direito Imobiliário (ABAMI). Presidente da Comissão de Estudos da Sociedade Anônima de Futebol da OAB-PE. Vice-Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal de Pernambuco. Membro do Conselho Curador da Fundação Gilberto Freyre. Membro da Comissão de Direito Societário e Mercado de Capitais do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (IBRADEMP). Membro da Comissão de Inovação e Tecnologia do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário (IBRADIM). Membro da Comissão de Direito Empresarial do Instituto dos Advogados de Pernambuco (IAP-PE). Membro da Comissão de Mercado Financeiro e de Capitais da Ordem dos Advogados de Pernambuco (OAB-PE).



