O modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) completou alguns anos de existência no Brasil com experiências que vão do sucesso ao colapso financeiro. Para especialistas que participaram da constituição de diferentes SAFs no país, o instrumento é uma ferramenta importante dentro de um processo maior de reorganização do futebol, mas não pode ser tratado como uma fórmula mágica capaz de resolver todos os problemas estruturais dos clubes. O tema foi debatido em painel da São Paulo Innovation Week (SPIW), realizado no Pacaembu, com a presença de Rodolfo Kussarev, ex-CEO do Red Bull Bragantino, Moisés Assayag, sócio-diretor da Channel Associados, e Patrick Lopes, managing director da Alvarez & Marsal.
Kussarev foi direto ao apontar um dos maiores entraves para a evolução do mercado. Para ele, a expectativa criada em torno do valor dos clubes distorce a realidade das negociações. “Expectativa fictícia faz com que o processo de venda seja mentiroso. O clube pede bilhões, o investidor sabe que não vale e tenta convencer o clube. Talvez com um pouco mais de tempo e as coisas ficando mais claras, os clubes comecem a perceber que precisam fazer due diligence dos dois lados. Quando você é muito transparente, causa uma frustração absurda”, afirmou. O ex-dirigente também destacou o caso do Bahia como um exemplo de processo bem conduzido, com cuidado em cada etapa para atrair um parceiro de peso como o Grupo City.

Os desafios do aprendizado e os casos que deram certo
Moisés Assayag contextualizou a origem do problema ao afirmar que a SAF sofre do excesso de expectativa criado quando a lei foi aprovada, vendendo a ideia de que o modelo seria transformador a ponto de resolver todos os problemas do futebol nacional. “A SAF é parte do processo de resolução dos problemas do futebol brasileiro. A SAF não é a bala de prata, não é a panaceia, é parte da solução”, ponderou. Para ele, tanto os exemplos ruins quanto os bons fazem parte de um amadurecimento natural do mercado.
Patrick Lopes, que participou da constituição da SAF do Vasco e do projeto do Cruzeiro, defendeu que o modelo ainda está em estágio inicial de desenvolvimento. “A gente está engatinhando ainda. É um processo contínuo e constante de aprendizado. Conheço bastante a Lei de Recuperação Judicial, tem 21 anos e passou por uma reforma mais estrutural. A lei da SAF, a gente ainda vai ter um bom tempo de aprendizado e reformulações”, disse. Lopes apontou o Cruzeiro como um dos bons exemplos, não apenas pela reestruturação promovida por Ronaldo Fenômeno, mas pela possibilidade de saída do investidor com a venda para Pedrinho Lourenço. “Foi uma das poucas SAFs que teve sucesso na saída. O investidor se pergunta: como vou rentabilizar o negócio do futebol se não em uma saída? Foi feliz em ter o Pedrinho como investidor dando uma saída para ele”, concluiu.
Fonte: Estadão.



