O Corinthians atravessou esta terça-feira (20) com as duas frentes de sua crise expostas ao mesmo tempo. No campo financeiro, o clube voltou a atrasar o pagamento do plano coletivo acertado pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) — o órgão da CBF que media as cobranças entre clubes, jogadores e empresários — na parcela que vencia no último dia 17 de outubro. Com isso, são dois pagamentos em aberto, que somam cerca de R$ 16 milhões. No futebol, o presidente Osmar Stabile decidiu pela saída do executivo Marcelo Paz, em reunião realizada nesta terça, após os seguidos maus resultados da equipe na temporada e a pressão da torcida, sobretudo da Gaviões da Fiel.
Duas parcelas em aberto e o plano que o Cuiabá quer derrubar
O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, afirmou que, além de pedir a extensão da proibição de registro de novos atletas para a primeira janela de transferências de 2027, o clube mato-grossense acionará a CNRD pelo fim do plano coletivo de pagamento. “Esse pedido de extensão [do transfer ban] foi o primeiro que a gente fez, há uns 20 dias. Agora a gente vai fazer outro pedido de cancelamento do plano. Para mim, o plano fracassou. Não atingiu o objetivo. Duas parcelas atrasadas, plano de pagamento sem juros. Então é um plano fracassado”, disse o dirigente. Outros credores também avaliam acionar a CNRD pelo fim do plano de pagamentos aprovado pelo órgão. Entre eles está o empresário André Cury, um dos maiores credores do Timão: quatro dívidas com a Link Assessoria, agência do agente, somadas, ficam próximas de R$ 19 milhões. O plano prevê ainda a quitação de um débito de R$ 13 milhões com o ex-meia Jadson, e o zagueiro Balbuena tem R$ 4,2 milhões a receber. A Think Ball, do empresário Marcelo Robalinho, cobra R$ 3,5 milhões, seguida pelo agente José Parrales, com R$ 2,5 milhões. Também aparecem na relação o Criciúma, com R$ 1 milhão; o Grêmio Osasco, com R$ 1,6 milhão; o ABC, com cerca de R$ 250 mil; o União Suzano, com R$ 42 mil; e a Sociedade Esportiva Palmeirinha, com R$ 48 mil.
O risco não se limita ao bloqueio de receitas. “O escritório RA Law, que representa diversos credores, já requereu o bloqueio dos valores que o Sport Club Corinthians Paulista tem a receber da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), como medida para viabilizar a satisfação dos créditos em aberto. Caso o Corinthians não tenha crédito a receber, o escritório poderá pleitear a aplicação de sanções desportivas, incluindo a perda de pontos do clube, conforme os mecanismos cabíveis”, afirmou Robalinho. Procurado, o Corinthians informou que está ciente da situação envolvendo o acordo firmado junto à CNRD e que segue trabalhando para regularizar a questão. “O Clube tem se empenhado na busca de soluções que permitam o cumprimento de suas obrigações financeiras, dentro do processo de reestruturação atualmente conduzido pela direção. O Corinthians reforça que o tema é tratado como prioridade e que continuará adotando todas as medidas necessárias para solucioná-lo”, diz a nota.
Marcelo Paz deixa o futebol do clube após nove jogos sem vitória
A demissão de Marcelo Paz foi definida em reunião nesta terça-feira, quando o presidente Osmar Stabile optou pela saída do executivo. Ao longo das últimas semanas — período que coincidiu com a sequência de nove jogos sem vitória do Corinthians no Campeonato Brasileiro —, o presidente recebeu a diretoria da Gaviões da Fiel no Parque São Jorge e ouviu o pedido pela demissão do dirigente. O executivo e sua esposa, vice-governadora do estado do Ceará, vinham sofrendo ameaças nas redes sociais: os maus resultados, aliados ao clima de insegurança, foram determinantes para a decisão da diretoria pelo encerramento do contrato. Paz foi contratado em dezembro do ano passado com a missão de reestruturar o departamento de futebol do clube, mesmo com um orçamento enxuto e sem a possibilidade de grandes investimentos devido aos seguidos transfer bans e à crise financeira. Durante sua passagem pelo CT Joaquim Grava, trabalhou com Dorival Júnior, Fernando Diniz e, mais recentemente, Clarence Seedorf — participou da chegada do último e, dias depois, foi demitido. O executivo também foi determinante na renovação do contrato do atacante Memphis Depay, alegando que o atacante era peça essencial no grupo. Em nota, o Corinthians agradeceu a passagem do profissional: “O Sport Club Corinthians Paulista informa que, após reunião realizada entre o presidente Osmar Stabile e o Executivo de Futebol Marcelo Paz, as partes decidiram, em comum acordo, pelo fim do ciclo de trabalho do profissional junto ao Clube. O Corinthians agradece os serviços prestados e deseja sucesso na sequência de sua trajetória profissional.”
Na prática, os dois episódios se alimentam. O próprio trabalho de Paz foi limitado pelos transfer bans e pela crise financeira que agora voltam à mesa na CNRD — e a pressão que derrubou o executivo nasce, em boa parte, de um time que não vence há nove rodadas. O Corinthians encerra o dia com dois pagamentos em aberto, credores organizados para pedir o fim do plano coletivo e a possibilidade concreta de sanções que vão do bloqueio de receitas da CBF à perda de pontos, enquanto o departamento de futebol fica sem seu principal executivo a poucas rodadas do fim da temporada.



