Quando Bruno Rodrigues assumiu a presidência do Santa Cruz, em 20 de novembro de 2023, o cenário era desolador: o clube estava sem calendário nacional, disputando a Série D e cercado de incertezas sobre o futuro da SAF. Quase três anos depois, perto do fim do seu triênio como mandatário, ele entrega o Tricolor do Arruda com dois acessos conquistados e com a Sociedade Anônima do Futebol encaminhada. O segundo deles foi sacramentado no sábado, no empate por 1 a 1 com o Maringá, na Arena de Pernambuco, que garantiu o retorno do clube à Série B depois de nove anos de espera. “Nosso torcedor merece. A partir daí, nunca mais olhar para trás: é daqui para a Série A. É um dia histórico. Só tenho a agradecer a Deus, à nossa imensa torcida, ao elenco, à comissão técnica e aos funcionários. Estou muito feliz e realizado”, disse o presidente logo após o acesso.
A caminhada começou pela reconstrução no Campeonato Pernambucano de 2024, enquanto, nos bastidores, Bruno dava os primeiros passos para a criação da SAF. Foi através do Estadual daquele ano que o Santa Cruz garantiu a classificação para a Série D de 2025, ao alcançar a semifinal — quando foi eliminado pelo rival Sport nos pênaltis. O desafio, no entanto, seria pagar as contas mesmo sem calendário nacional: depois da eliminação para o Leão da Ilha, o Tricolor encerraria, em 16 de março, seus compromissos de partidas oficiais do ano. Uma das soluções foi, entre outras coisas, emprestar jogadores e até mesmo o então treinador, Itamar Schulle, que acabou conquistando o acesso da Série D para a C com outro time do estado, o Retrô.
Da Série D à C: o recomeço no gramado
Em 2025, a Cobra Coral finalmente conseguiu sair da Série D — divisão em que estava desde 2022 — com uma campanha de altos e baixos comandada pelo treinador Marcelo Cabo. O último desafio para retornar à Terceira Divisão depois de quatro anos foi contra o América-RN. Dessa vez, o Tricolor fez o dever de casa e levou vantagem para o jogo de volta: no dia 7 de setembro de 2025, com o empate na Arena das Dunas, o clube confirmou o acesso à Série C de 2026, dando mais um passo decisivo no ressurgimento no cenário do futebol nacional. Além do desempenho em campo, 2025 se tornava um ano importante pelos processos internos para que o Santa Cruz finalmente se tornasse uma SAF.
O bom momento, porém, não se perpetuou para a temporada seguinte. O técnico Marcelo Cabo passou a sofrer com instabilidade no cargo, e o time conviveu com uma campanha de pouco sucesso no Campeonato Pernambucano, encerrando com duas derrotas nas semifinais para o Náutico. Para voltar a jogar uma Série C depois de anos no ostracismo, Bruno Rodrigues promoveu uma reformulação no futebol do clube: Claudinei Oliveira foi o nome escolhido para a comissão técnica, enquanto Alex Brasil chegou para o cargo de executivo. As oscilações voltaram a permear o time dentro de campo, culminando em outra troca no comando técnico. A virada de chave veio após a contratação de Cristian de Souza como novo treinador, mudando os rumos corais na competição.
Paralelamente ao desempenho dentro das quatro linhas, o Santa Cruz voltou a enfrentar dificuldades fora delas. O clube conviveu com salários atrasados durante toda a campanha, acentuados pelo imbróglio envolvendo o grupo de investidores que assumiria a SAF. Em março, o grupo de investidores mineiros que tinha ações na Cobra Coral Participações S.A — formado por Iran Barbosa, Alexandre Kubitstcheck, Marcus Bittar e Fernando Vieira Alves — desistiu do projeto. O ambiente externo de incertezas foi, no entanto, ofuscado pelos resultados conquistados: antes pensando na permanência como principal objetivo em meio às turbulências, o Santa Cruz se tornou um dos grandes favoritos para subir de divisão.
A virada na fase decisiva e o novo capítulo da SAF
Com sustos, o time de Cristian de Souza conseguiu a classificação para o quadrangular de acesso, na 8ª e última colocação possível. A expectativa pela fase decisiva veio juntamente com um momento importante nas questões extracampo: já durante a disputa do acesso, o presidente Bruno Rodrigues apresentou ao Conselho Deliberativo o novo grupo de investidores da SAF do Santa Cruz, a Matix Capital. Comandado por Thairo Arruda — empresário que teve passagem pela SAF do Botafogo, onde foi CEO —, o grupo será o responsável pela operação nos próximos 15 anos. Diferente do antigo grupo de investidores, Thairo prega por uma gestão “sustentável” no Arruda.
Depois da classificação para o quadrangular final, uma chave virou dentro do elenco. A campanha na primeira fase deixou o Santa Cruz no limite, mas, na etapa decisiva da competição, o time engatou quatro jogos de invencibilidade, conquistando três vitórias. Com a boa sequência, o time comandado por Cristian de Souza chegou para o dia 3 de outubro de 2026 podendo fazer história, com uma Arena de Pernambuco lotada, diante do Maringá. E não poderia ser diferente: precisando de apenas um empate, o Santa Cruz conseguiu, depois de nove anos de espera, retornar à Série B do Campeonato Brasileiro.
Na prática, a trajetória de Bruno Rodrigues resume um ciclo completo de reconstrução: o clube que ele encontrou no fundo do poço do futebol nacional — sem calendário, na quarta divisão e com a SAF indefinida — chega ao fim do seu triênio com dois acessos seguidos, o time de volta à Série B e um novo grupo de investidores apresentado para conduzir a operação da SAF pelos próximos 15 anos. Uma guerra de reestruturação que, como o próprio desfecho mostrou, não poderia ter tido um final melhor.
Fonte: Diario de Pernambuco.



