Um clube que no passado foi sinônimo de organização e título hoje não é nem sombra do que já foi. Como quase sempre acontece, a soberba precedeu a queda — e no São Paulo não foi diferente.
Quando um clube vence, o torcedor tende a achar que ele é imbatível. Mas sucesso não é um resultado que nasce dentro de campo: o título é a consequência de um trabalho feito meses antes, na administração. Foi exatamente aí que o Tricolor começou a errar.
Quando a dívida começou
A raiz da crise não é 2019, nem 2024. É 2011. Naquele ano, Juvenal Juvêncio mudou o estatuto do clube para poder concorrer a um terceiro mandato consecutivo — e o venceu. Sob sua gestão, a dívida líquida deu o primeiro salto relevante da história recente, saindo de ~R$ 220 milhões para ~R$ 400 milhões, puxada por R$ 149 milhões em contratações (R$ 80 milhões a mais que no ano anterior) e mais R$ 40 milhões em direitos de imagem a pagar. Metade da dívida já era com bancos e terceiros. O retorno de Luís Fabiano (R$ 20 milhões) e a contratação midiática de Rivaldo, aos 39 anos, não se traduziram em título: 6º no Brasileirão, eliminado nas semis do Paulistão, quartas da Copa do Brasil e oitavas da Sul-Americana.
O padrão se repetiu nos anos seguintes. Em 2012 veio Ganso, comprado do Santos por valor alto apesar do histórico de lesão — o investimento caro que só seria reconhecido como fracasso quatro anos depois, quando o clube o revendeu ao Sevilla por R$ 34 milhões. Em 2013, elenco caro e instável amargou 14 jogos sem vencer. Em 2014, a troca de Jádson por Alexandre Pato e o empréstimo midiático de Kaká renderam um vice-campeonato brasileiro, mas também quedas constrangedoras no caminho. Em 2017, o clube contratou Rogério Ceni como técnico sem qualquer experiência prévia — demitido em 6 meses, com o time entrando pela primeira vez na zona de rebaixamento.
2019 é o marco que a própria contabilidade do clube reconhece como o início do descontrole crônico: desde então, o São Paulo acumulou R$ 704,6 milhões em déficits, com resultado negativo em 5 dos últimos 6 exercícios. Foi o ano de Dani Alves, Pablo e do retorno de Pato, com 4 técnicos trocados na mesma temporada — e eliminação vexatória na fase preliminar da Libertadores.
Em 2021, Julio Casares assume a presidência já com dívida acima de R$ 500 milhões — início do período hoje sob investigação do Ministério Público por “gestão temerária”. 2024 é o pior balanço da história do clube: déficit de R$ 287,6 milhões, dívida de R$ 968,2 milhões (alta de 45% sobre 2023), meta de venda de jogadores completamente descumprida. O balanço auditado mostra o patrimônio líquido negativo em R$ 595,8 milhões naquele ano. Em 2025 há uma melhora pontual — dívida cai para R$ 858,2 milhões e o patrimônio líquido negativo recua para R$ 536,2 milhões —, mas o Conselho Deliberativo reprovou as contas duas vezes seguidas, por falta de documentação sobre saques em espécie.
A soberba da torcida
Enquanto a dívida crescia, a torcida ainda achava que o clube estava bem. O nome “soberano” ecoava — teve até filme com esse título — e entre um vice aqui e um título ali, o clube seguia competindo. Mas os rivais agiam diferente: pensavam a longo prazo, não no título da vez. Foi nessa mesma época que rolou a icônica cena das bananas, retrato de uma coisa que o são-paulino nunca conseguiu fazer: descer do salto. Enquanto o Palmeiras colocava um teto financeiro no que pagaria a um jogador, o São Paulo fazia o oposto — afinal, imagem é tudo, e se o jogador queria mais, o clube dava. No final das contas, Alan Kardec foi só um dos fiascos dessa lógica.
A torcida se dizia soberana. Na prática, o time se enrolava cada vez mais, até que a dívida bateu R$ 704 milhões em 2019 — e “soberano” ganhou outra conotação na boca dos rivais: o clube do só beira o título, só beira a contratação, só beira a Série B.
O estádio que deixou de ser vantagem
Em 4 de fevereiro de 1990, o Morumbi sediou o festival Hollywood Rock e o São Paulo teve que mandar sua estreia no Paulistão daquele ano, contra a Juventus, para o Canindé. Foi o marco inicial de uma prática que, décadas depois, viraria problema: o estádio emprestado para show, o time jogando em outro lugar.
Naquela década, porém, isso era vantagem: por anos o Morumbi foi praticamente monopolista no mercado de grandes eventos de São Paulo, e o aluguel funcionava como receita extra quase certa. O problema é que essa vantagem competitiva nunca foi tratada como um ativo a se defender. Enquanto o São Paulo mantinha o Morumbi como estava, os rivais fizeram o dever de casa: o Palmeiras reformou o Palestra Itália e entregou o Allianz Parque (atual Nubank Parque), hoje com mais de 90% de ocupação em seus 160 camarotes e programação de shows o ano inteiro; o Corinthians ganhou a Neo Química Arena. De estádio sem concorrência, o Morumbi virou só mais uma opção na praça — e, não por acaso, é a mesma WTorre que modernizou o Allianz Parque (atual Nubank Parque) quem negocia, há anos e sem sair do papel, a reforma do Morumbi.
O resultado aparece no preço: hoje um show no Nubank Parque e um no MorumBIS custam praticamente o mesmo para o produtor, cerca de R$ 1 milhão. Não existe mais o prêmio que o Morumbi cobrava quando era a única opção de peso na cidade. Exatamente quando o clube mais precisava dessa receita extraordinária para equilibrar as contas, ela perdeu a exclusividade que a sustentava — corroída pela concorrência que o próprio clube deixou nascer sem reagir.
E o contrato que deveria resolver isso só aprofundou o problema. Em 2023, Casares assinou exclusividade com a Live Nation até 2028; em junho de 2025, renovou até 2031. Desde 2023 já foram quase 20 shows esgotados no estádio — Coldplay, Bruno Mars, Shakira, The Weeknd, RBD, e a agenda segue com Linkin Park, Dua Lipa, Oasis e Imagine Dragons. É esse volume que empurrou o time para jogar cada vez mais fora de casa. A torcida e a imprensa batizaram a renovação de “Game Over para a Reforma”: nenhum clube tranca a agenda do próprio estádio por seis anos se realmente pretende fechá-lo para uma obra estrutural. O São Paulo trocou a chance de se modernizar por um fluxo de caixa de curto prazo — o mesmo fluxo que, como vimos, já não vale o que valia.
Radiografia da crise (2025-2026)
No primeiro semestre de 2026, o clube projetou R$ 44,5 milhões em bilheteria e arrecadou R$ 20,2 milhões — menos da metade. O motivo: 3 dos 16 jogos como mandante foram disputados fora do Morumbi (Bragança Paulista, Campinas, Canindé), com públicos irrisórios — o jogo em Bragança teve 6.487 pagantes e renda de R$ 345 mil. É justo dizer, porém, que os shows também trazem receita própria (projeção de R$ 120 milhões até 2031), só que ela entra numa linha orçamentária diferente da bilheteria de jogo — por isso o clube nunca divulga um saldo líquido único somando as duas pontas.
No campo institucional, a lista de escândalos é longa: impeachment de Julio Casares em janeiro de 2026; Polícia Civil investigando 35 saques em espécie somando R$ 11 milhões entre 2021 e 2025; suspeita de esquema de venda ilegal de camarotes envolvendo a ex-mulher de Casares; o presidente do Conselho Deliberativo indiciado por falsificação de documentos; e um inquérito do Ministério Público apurando gestão temerária. Do lado comercial, o patrocínio máster com a Superbet (até 2030) rende cerca de R$ 113 milhões por ano — com teto de R$ 1 bilhão em bônus que exigiria vencer quase tudo nos próximos cinco anos.
A crise não tem solução — pelo menos não agora
A crise do São Paulo não começou em 2019: começou em 2011, quando a alta cúpula mudou o próprio estatuto para seguir no poder. O clube trocou sua identidade vitoriosa pela soberba, e a torcida aplaudiu de pé. Quando você vai a um jogo do São Paulo e ouve aquela música — “não alugo estádio, nunca fui rebaixado” — é esse o retrato que a torcida aplaudiu.
Hoje não há solução simples por um motivo simples: é preciso descer do salto para renovar, e nem o clube nem parte da torcida parecem dispostos a isso. A prova está no debate sobre grama sintética no Morumbi: uma discussão movida mais pela política interna do que por qualquer evidência técnica — a ponto de o clube ter ido consultar a troca de grama da Arena Pacaembu de sintética para natural. O mais absurdo é que há jogador do elenco atual que se recusa a jogar no sintético, ganha salário alto e também não entra em campo no natural. Lucas ainda assim segue no clube, porém sem renovação e agora que falta menos de 6 meses de contrato, ele pode assinar com qualquer clube, já pensou se ele assinar com um rival de sintético pela metade do preço?
Mudar precisa partir de dentro. Minha receita seria: rescindir com quem se recusa a jogar onde for escalado — é trabalho, não escolha; ou, se ficar, que o salário seja proporcional aos jogos disputados. Descer do salto e negociar um estádio mais próximo e mais barato — a Arena Barueri é uma alternativa real; os rivais vão zoar, mas o objetivo é se salvar, e quem só ouve os outros acaba afogado no próprio ego. E, acima de tudo, definir um negócio: o São Paulo precisa escolher entre revelar atletas, shows ou futebol de elite como foco principal — não dá para ser bom em tudo ao mesmo tempo. Eu apostaria na base. Mas quem já pesquisou sabe: o novo Endrick acabou de sair da base do São Paulo para o Palmeiras porque alguém resolveu dispensar.
Então concluo, a crise não tem solução, pelo menos agora.
Olha que nem falamos do 1 milhão no cartão do clube.
Felipe Araujo
Diretor de Estratégia M&A e FP&A no Futebol. Especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva.



