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Disputas por direitos de transmissão e crises de governança redesenham o cenário do futebol brasileiro

O ecossistema do futebol brasileiro atravessa um período de intensas transformações e conflitos de interesse que envolvem desde a publicidade de casas de apostas até a formação de blocos comerciais para a venda de direitos de transmissão. O cenário atual é marcado por uma fragmentação entre os clubes, investigações de órgãos reguladores e uma disputa de poder que coloca em xeque a autonomia das agremiações diante de grandes grupos de investimento e empresas de mídia.

No centro das atenções está a CazéTV, plataforma digital controlada pela LiveMode, que vem batendo recordes de audiência na Copa do Mundo de 2026. Apesar do sucesso de público, o canal tornou-se alvo de uma investigação do Ministério da Justiça por “publicidade abusiva” relacionada às casas de apostas, conhecidas como bets. Durante as transmissões, narradores e comentaristas citavam as probabilidades de ganho (odds) e avaliavam as possibilidades de eventos ocorrerem, o que motivou uma recomendação do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) para a suspensão desses conteúdos. Em resposta, a emissora modificou o formato de suas ativações para um modelo tradicional de publicidade.

A LiveMode, fundada por ex-executivos do Esporte Interativo, expandiu sua atuação globalmente, adquirindo 100% das ações da CazéTV e estabelecendo parcerias com entidades como FIFA e COI. No entanto, a empresa enfrenta questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse, uma vez que atua simultaneamente como negociadora de direitos de transmissão para blocos de clubes e como proprietária de um canal que adquire parte desses mesmos direitos.

Em meio a negociações para a venda dos direitos de transmissão da Copa de 2030, Romy Gai, diretor da Fifa, afirmou ao Estadão não ver potencial conflito de interesses pela compra dos direitos de transmissão dos jogos das últimos dois Mundiais pela LiveMode e exibição das partidas na CazéTV.

 

Exclusão da CazéTV da concorrência pela Copa do Brasil

A pressão sobre o modelo de negócios da plataforma se intensificou com a decisão da CBF de excluir a CazéTV da disputa pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil para o ciclo de 2027 a 2030. A entidade informou que a plataforma não atendeu aos critérios técnicos e financeiros exigidos para participar da concorrência, sem detalhar os pontos específicos que motivaram a exclusão.

A decisão tira do processo uma das principais plataformas digitais de transmissão esportiva do país, que vinha ampliando sua presença na disputa por direitos relevantes do futebol e de grandes eventos ao vivo. A exclusão ocorre em um momento delicado para a emissora, que já enfrentava questionamentos de órgãos de controle sobre suas práticas comerciais durante a Copa do Mundo de 2026.

 

O racha das ligas e a ofensiva jurídica contra contratos de longo prazo

A tentativa de criação de uma liga unificada para organizar o Campeonato Brasileiro resultou em um racha que dividiu os clubes em dois blocos comerciais: a Futebol Forte União (FFU) e a Libra. Essa separação foi impulsionada pela “Lei do Mandante”, em vigor desde 2021, que permite ao clube mandante negociar os direitos de transmissão de seus jogos de forma isolada. A FFU, que conta com o assessoramento da XP e da LiveMode, atraiu diversos clubes com propostas de antecipação de receitas viabilizadas pela Sports Media Entertainment (SME), investidora que adquiriu 20% dos direitos comerciais de seus membros por um período de 50 anos, em uma operação de R$ 2,2 bilhões.

Essa estrutura contratual de longa duração, que vincula os clubes até 2074, tornou-se o principal ponto de conflito jurídico. Recentemente, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) expediu uma decisão liminar impedindo que a SME crie obstáculos para a saída de clubes do bloco, sob pena de multa diária de R$ 250 mil. A decisão motivou reações imediatas de clubes como Corinthians, Botafogo, Cruzeiro e Goiás, que notificaram a FFU exigindo mudanças nas regras para se enquadrarem nas normas antitruste, ameaçando deixar o grupo caso não sejam atendidos. O Operário-PR já oficializou sua retirada definitiva, citando preocupações com a concentração de poder nas mãos da investidora e supostos conflitos de interesse na escolha da LiveMode como negociadora.

Entidades como o Sinafut (Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional e suas Entidades Estaduais de Administração e Liga), a Anaf (Associação Nacional dos Árbitros de Futebol) e a Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) ingressaram no processo do Cade como terceiras interessadas, defendendo a ampliação das medidas preventivas. Elas argumentam que a arquitetura do Condomínio Forte União subordina a vontade coletiva dos clubes aos interesses econômicos dos investidores. Entre as principais críticas estão a cessão exclusiva de direitos por cinco décadas — prazo dez vezes superior ao normalmente admitido em cláusulas de não concorrência — e a existência de uma “janela de saída” em 30 de junho de 2026 que seria praticamente inexequível devido a requisitos contratuais complexos. As entidades pedem a suspensão das cláusulas de exclusividade e a paralisação dos prazos de saída até que a análise definitiva do ato de concentração seja concluída. Elas são representadas pelo escritório Mamede Advocacia e clicando aqui é possível ler a petição
Processo 08700.003201/2026-21.

 

Instabilidade na CBF e o desmoronamento da Libra

Enquanto os blocos comerciais enfrentam batalhas jurídicas, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tenta retomar o protagonismo ao liderar a criação de uma liga única sob sua tutela. A entidade pretende manter o controle sobre a arbitragem, o calendário e as regras do fair play financeiro. Contudo, a gestão de Samir Xaud, presidente da CBF, enfrenta turbulências internas devido a denúncias sobre o uso de recursos da entidade para fins pessoais, o que gerou movimentações de oposição entre dirigentes de federações estaduais.

O cenário político na CBF é dividido entre os dirigentes de federações e um grupo com forte influência em Brasília, ligado ao IDP. Nesse contexto, figuras como Francisco Mendes ganham protagonismo nos bastidores, sinalizando planos futuros para o comando da confederação. A instabilidade também atinge a Libra, o outro bloco comercial de clubes. O grupo sofreu um abalo significativo após a revelação de um acordo que garantiu ao Flamengo R$ 150 milhões adicionais em direitos de TV, além de uma bonificação de R$ 24 milhões ao Grêmio pelo apoio ao pleito rubro-negro. A ação provocou a saída do Palmeiras do bloco, deixando a Libra com apenas nove membros na Série A e evidenciando a fragilidade das alianças no futebol nacional.

 

Fonte: Estadão; Conjur; Times Brasil.

 

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