O Conselho Deliberativo do Santa Cruz aprovou, em reunião extraordinária realizada na quinta-feira (10), o repasse das ações da SAF do clube. A operação transfere o grupo de investimento da Cobra Coral Participações S.A para a Matix Capital, que assume a administração do futebol profissional. A aprovação consolida a transição iniciada com a assinatura do contrato e confirma a entrada de investidores estrangeiros no projeto — cerca de 20 meses após o anúncio do grupo original, formado por empresários mineiros.
A reunião foi conduzida pelo presidente executivo Bruno Rodrigues e pelo advogado do clube, Lucas Cavalcanti. Alguns conselheiros chegaram a pedir que a Comissão Fiscal observasse a proposta da Matix por mais tempo, mas a sugestão foi superada em votação no local. O aporte imediato era um dos condicionadores para o acerto com o novo grupo: segundo informações divulgadas pelo presidente, R$ 11 milhões serão repassados ainda em 2026 para a quitação de débitos e reformas mais urgentes no estádio do Arruda.
Novos donos e a conexão internacional
O comando da nova SAF terá Thairo Arruda como CEO — executivo que exerceu a mesma função no Botafogo no período das conquistas do Brasileirão e da Libertadores, sob o comando do investidor norte-americano John Textor, e deixou o clube carioca em fevereiro deste ano. Ao lado dele está Danilo Caixeiro, sócio-administrador da Matix, também com passagem pela SAF do Botafogo na mesma época.
A estrutura do grupo, porém, vai além dos dois executivos. Na reunião, foi apresentado Paraj Tyle, investidor estrangeiro que representou o irmão Sheel Tyle, norte-americano que é um dos co-proprietários do Portland Trail Blazers, tradicional equipe da NBA, a principal liga de basquete dos Estados Unidos. Formado em Economia e com pós-graduação pela Universidade de Yale, Paraj atua como CEO da PTA Ventures LLP, empresa de investimentos sediada na Índia. Informações dão conta de que financiadores da Itália e da Alemanha também participarão do projeto. As ações seriam divididas entre os integrantes, sem a existência de um “super investidor” — alguém que detivesse a maior porção do todo.
Aporte, dívidas e os próximos passos
O repasse mantém o contrato original firmado com a Cobra Coral em janeiro do ano passado: a Matix assumiu a totalidade dos direitos e obrigações do acordo, que prevê uma receita total de R$ 1 bilhão em até 15 anos — considerando as receitas geradas pelo próprio Santa Cruz, como bilheteria, sócios, patrocínios e cotas de transmissão, somadas aos aportes dos novos investidores. O modelo também mantém garantias mínimas de faturamento a cada temporada, dependendo da divisão do Brasileirão: em 2026, num ano na Série C, os 12 meses deveriam gerar ao menos R$ 36 milhões.
Caso a SAF seja finalmente implementada, a atividade dos novos gestores deve começar ainda nesta temporada. Os investidores poderão aportar cerca de R$ 11 milhões ainda em 2026, sendo R$ 6 milhões para quitar débitos com o elenco profissional e R$ 5 milhões para obras emergenciais no Arruda — com o objetivo de reabrir o estádio no Campeonato Pernambucano de 2027, a partir de janeiro. Na prática, a implementação da SAF está atrelada à entrada do dinheiro, algo pendente há tempos. As obrigações financeiras ligadas à Recuperação Judicial passam a ser responsabilidade da nova SAF, e a diretoria pretende reunir uma Assembleia Geral de Credores entre outubro e novembro para apresentar um plano de quitação dos débitos, que ainda precisará da aprovação da maioria dos credores. Depois dessa etapa, está previsto o leilão da Unidade Produtiva Isolada (UPI), procedimento que faz parte do processo de Recuperação Judicial e deverá ocorrer ainda neste ano.

A transição, porém, não ocorreu sem ruído. Um dos quatro empresários ligados ao primeiro grupo de investidores da SAF, Iran Barbosa, que foi porta-voz do projeto em 2025, notificou Thairo Arruda sobre a discordância em relação à cessão das ações. No pedido, Iran Barbosa, que é sócio majoritário da Cobra Coral, ou seja, detém 51% das ações, questiona vários pontos da negociação entre o repasse do grupo para a Matix Capital, como a falta de transparência, ausência de avaliação financeira e inexistência da cessão formalizada para o repasse.
Procurado pelo ge, Iran Barbosa se limitou a dizer que quer o cumprimento do contrato, que está em vigor. A reportagem tentou contato para um novo posicionamento, mas não obteve retorno até o momento. Na quinta-feira (10), em entrevista coletiva, o advogado Lucas Cavalcanti, que representa o Santa Cruz na negociação, falou sobre a ação e tratou com tranquilidade, afirmando que o clube não é parte do processo.
Apesar da notificação extrajudicial, o Conselho Deliberativo ratificou o repasse. Com o caminho aprovado, o Santa Cruz — que voltou à Série C em 2026, avançou entre os oito melhores da primeira fase e segue no quadrangular decisivo — agora aguarda a entrada do aporte para iniciar uma nova fase institucional, com a promessa de reorganizar as finanças e devolver ao clube o protagonismo que marcou sua história no futebol pernambucano e nordestino.
De acordo com o presidente Bruno Rodrigues, a expectativa era de que este dinheiro estivesse em posse do clube na próxima segunda-feira, mas a ação judicial de Iran Barbosa pode atrasar o processo, já que a troca de investidores não estaria confirmada no papel.
Este valor de R$ 6 milhões chegaria aos cofres do Santa Cruz por meio de um financiamento DIP (uma modalidade de empréstimo concedida a empresas que estão em processo de recuperação judicial). Por isso, o clube e os investidores buscam o maior respaldo para evitar qualquer possível insegurança jurídica.
Fonte: Folha de Pernambuco; Cássio Zirpoli; ge.Globo.



