Quais motivos justificariam que um clube nos anos de 2021 e 2022, ocupava a primeira metade da tabela do Campeonato Brasileiro da Série A, classificou-se para a Copa Libertadores e para a Copa Sul-Americana, além de realizar boas campanhas na Copa do Brasil, estivesse, em 2025, lutando até as últimas rodadas contra o rebaixamento para a Série C e, em 2026, ao término do primeiro turno da Série B, praticamente rebaixado a disputar a terceira divisão do futebol brasileiro?
Esse é o atual cenário do América Futebol Clube.
No início desta década, o clube acumulou resultados esportivos inéditos em sua história, alimentando a expectativa de que finalmente tivesse alcançado a tão sonhada mudança de patamar institucional, entretanto, poucos anos depois, passou a enfrentar uma das maiores crises esportivas e financeiras de sua trajetória.
Para compreender como o América chegou a essa situação, é necessário retroceder ao início do século XXI.
Em 2000 e 2001, o clube conquistou, respectivamente, a Copa Sul-Minas e o Campeonato Mineiro, mas, spesar dessas conquistas, acabou rebaixado para a Série B em 2001, competição que disputou em 2002, quando realizou uma boa campanha, chegando às quartas de final.
As dificuldades começaram a aparecer em 2003. Naquele ano, o América terminou o Campeonato Brasileiro apenas uma posição acima da zona de rebaixamento e não conseguiu evitar a queda na temporada seguinte.
Em 2004, ano lembrado pelo folclórico “Jogo do Emprego”, onde diversas oportunidades de trabalho foram sorteadas em um jogo da reta final da Série B, o clube foi rebaixado para a Série C, até então o último nível do futebol nacional.
A passagem pela terceira divisão esteve longe de ser breve, o retorno só ocorreria em 2009, após anos marcados por frustrações e sucessivos obstáculos.
Em 2005, primeira temporada após o rebaixamento, o América sequer conseguiu avançar da primeira fase da Série C, restava ao clube realizar uma boa campanha no Campeonato Mineiro de 2006 para garantir vaga na competição nacional.
O primeiro objetivo foi alcançado e o Coelho chegou às semifinais do Estadual de 2006 e, posteriormente, alcançou a terceira das quatro fases da Série C.
A frustração pela eliminação em 2006, quando o acesso esteve próximo, rapidamente deu lugar ao desespero, em 2007, o América terminou na última colocação do Campeonato Mineiro, sendo rebaixado pela primeira vez no âmbito estadual, e sem vaga na Série C, parecia o fundo do poço.
Sem divisão nacional naquele ano, restava ao clube disputar a Taça Minas Gerais em busca de uma vaga para a Série C de 2008, a equipe terminou apenas na terceira colocação, naquela altura, nada parecia dar certo.
Entretanto, mesmo diante desse cenário de terra arrasada, a maré começaria a mudar em 2008, quando o América conquistou o Módulo II do Campeonato Mineiro e, graças a uma improvável combinação de resultados, garantiu vaga na Série C daquele mesmo ano.
Uma boa campanha na Série C de 2008 possuía importância fora do comum, pois em 2009 seria criada a Série D, e terminar a competição entre os vinte melhores colocados asseguraria ao clube uma vaga na terceira divisão da temporada seguinte, evitando uma nova perda de nível.
Mais uma vez, porém, a classificação foi conquistada de forma dramática, para se confirmar na Série C de 2009 era preciso avançar à terceira fase da competição, havia ainda vagas destinadas aos quatro rebaixados da Série B e aos quatro melhores clubes eliminados na segunda fase da Série C.
E foi justamente nesse último grupo que o América conseguiu se encaixar, beneficiado por uma combinação de resultados favoráveis que evitou mais um rebaixamento.
Todo esse contexto é importante porque marca uma profunda transformação na estrutura administrativa do clube, o rebaixamento estadual, a falta de calendário nacional e o risco real de ir parar na quarta divisão abalaram as estruturas administrativas americanas.
Foi nesse período que o América abandonou o tradicional modelo presidencialista e adotou um sistema de gestão colegiada, por meio da criação do Conselho Gestor, atualmente denominado Conselho de Administração pelo novo estatuto.
A percepção era de que concentrar a condução da instituição nas mãos de um único dirigente tornava o clube excessivamente vulnerável a crises políticas e decisões isoladas, o que teria sido um dos fatores da derrocada.
Em resposta, foi promovida uma ampla reforma estatutária, descentralizando o poder para um colegiado composto inicialmente por nove conselheiros, responsáveis por deliberar conjuntamente sobre as principais decisões da instituição.
A solução para os problemas parecia ter sido encontrada, pois o reflexo esportivo foi imediato, e já em 2009 o América venceria a Série C, e em sequência ficaria no G-4 da Série B de 2010, retornando a Série A para a edição de 2011, após 10 anos longe da elite.
O Conselho Gestor representa um modelo de governança distinto daquele tradicionalmente adotado pela maioria dos clubes brasileiros, em vez de concentrar as decisões na figura de um único presidente, o América passou a adotar, ao menos em tese, uma gestão estritamente colegiada, na qual as deliberações mais relevantes, desde contratações até investimentos em infraestrutura, dependem da aprovação da maioria de seus conselheiros.
Com essa nova estrutura organizacional, a década seguinte mostrou-se significativamente menos turbulenta, o principal desafio do clube deixou de ser a reconstrução institucional e passou a ser a consolidação de sua permanência na Série A.
Após conquistar o acesso em 2010, o América voltou à elite do futebol brasileiro em 2011, e nos anos seguintes, viria a conquistar o acesso em 2015, sagrou-se campeão mineiro em 2016 e venceu a Série B em 2017.
Apesar desses resultados expressivos, o clube ainda não conseguia se estabelecer de forma definitiva na primeira divisão, sendo frequentemente rebaixado na temporada seguinte.
Foi justamente nesse período que o América consolidou a fama de “time ioiô”, essa característica decorreu, sobretudo, do enorme desequilíbrio financeiro existente entre as Séries A e B.
Com um orçamento bastante restrito, o clube via-se obrigado a negociar seus principais jogadores ao término de cada temporada, dificultando a manutenção da base do elenco
Assim, o time que conquistava o acesso pela Série B raramente era o mesmo que disputava a Série A, e sem recursos suficientes para reforçar adequadamente o elenco, o América tinha dificuldades para competir em igualdade de condições com clubes de maior capacidade financeira, o que explicava a curta duração de suas passagens pela elite do futebol nacional.
Entretanto, a temporada de 2020 marcou uma verdadeira mudança de paradigma.
Além de conquistar mais um acesso à Série A, o América alcançou as semifinais da Copa do Brasil, obtendo uma premiação inédita e extremamente significativa para sua realidade financeira, os valores recebidos pela campanha representaram um importante reforço de caixa e permitiram ao clube iniciar um novo ciclo esportivo.
Pela primeira vez em muitos anos, tornou-se possível manter a espinha dorsal da equipe que havia conquistado o acesso e a manutenção do elenco, aliada à contratação de bons reforços ao longo da temporada, possibilitou a formação de uma equipe mais competitiva.
Os resultados apareceram rapidamente.
Na Série A de 2021, o América realizou a melhor campanha de sua história na era dos pontos corridos até então, terminando a competição na oitava colocação e conquistou uma classificação inédita para a Copa Libertadores da América, um marco histórico para o clube.
Nos anos seguintes, o clube alcançou feitos inéditos ao disputar a Copa Libertadores, em 2022, e a Copa Sul-Americana, em 2023. As participações nas competições organizadas pela CONMEBOL passaram a gerar novas receitas por meio de cotas de participação e premiações por desempenho.
Somadas às receitas provenientes dos direitos de transmissão da Série A, dos contratos de patrocínio, da comercialização de ingressos e das demais premiações esportivas, essas receitas fizeram com que o América atingisse, em 2023, uma receita operacional bruta próxima de R$ 187,8 milhões, o maior faturamento de sua história.
O excelente momento financeiro também foi impulsionado pela valorização dos atletas formados nas categorias de base e desenvolvidos no Centro de Treinamento Lanna Drumond.
A negociação de jogadores transformou-se em uma das principais fontes de receita do clube, transferências relevantes, como a venda do lateral Arthur ao Bayer Leverkusen, além dos valores recebidos em negociações envolvendo atletas como Vitor Roque, demonstraram a capacidade do América de revelar talentos e convertê-los em importantes ativos financeiros.
Ao mesmo tempo, o fortalecimento institucional da marca América ampliou as receitas de patrocínio, permitindo que o clube mantivesse seus compromissos financeiros em dia e administrasse seu endividamento dentro de um patamar compatível com sua realidade econômica.
Até aquele momento, tudo indicava que o clube havia encontrado um modelo sustentável de crescimento.
O ciclo vivido entre 2020 e 2023 representou, sob diversos aspectos, o período de maior crescimento esportivo e financeiro da história recente do América Futebol Clube.
Contudo, seria justamente no auge desse processo que começariam a surgir os primeiros sinais da crise que, poucos anos depois, culminaria em um dos momentos mais delicados da história da instituição.
Justamente quando o América alcançava o melhor momento financeiro de sua história, os resultados esportivos passaram a seguir direção oposta.
Apesar da arrecadação recorde, da participação em competições internacionais e da expressiva valorização de seus ativos, o clube não conseguiu transformar esse cenário favorável em estabilidade esportiva.
O rebaixamento para a Série B, ao final de 2023, evidencia que o elevado volume de receitas obtido naquele período não foi suficiente para consolidar uma equipe capaz de permanecer entre os principais clubes do país.
Esse talvez seja o principal ponto de reflexão sobre a administração do América, não se pode afirmar que faltaram recursos financeiros e ao contrário, durante aquele ciclo, o clube alcançou um patamar de arrecadação jamais registrado em sua história, o desafio esteve justamente na incapacidade de converter essa disponibilidade financeira em um projeto esportivo sustentável e duradouro.
As próprias demonstrações financeiras, disponíveis no site oficial do clube, evidenciam essa contradição.
Embora o América tenha registrado receita operacional próxima de R$ 188 milhões em 2023, encerrou o exercício com déficit superior a R$ 22 milhões, revelando que o crescimento das receitas foi acompanhado por um aumento ainda mais expressivo dos custos e das despesas operacionais.
Em outras palavras, arrecadou-se muito, mas também se gastou muito e mais grave, esse aumento das despesas não foi acompanhado de resultados esportivos compatíveis com o investimento realizado.
O rebaixamento agravou imediatamente essa situação.
Com a queda para a Série B, o clube perdeu as cotas de televisão da primeira divisão, reduziu significativamente sua exposição nacional e internacional, deixou de disputar competições que proporcionavam premiações elevadas e viu sua capacidade de geração de receitas diminuir de forma abrupta.
Em 2024, a receita operacional sofreu forte retração, enquanto parte significativa da estrutura de custos ainda refletia o padrão mantido durante o período em que o clube disputava a Série A.
Como consequência, o exercício foi encerrado com déficit aproximado de R$ 58,4 milhões, acompanhado do agravamento da situação patrimonial da instituição.
É verdade que a diretoria promoveu medidas para reduzir despesas, especialmente por meio da diminuição da folha salarial e dos custos do departamento de futebol, buscando adequar o orçamento à nova realidade financeira.
Essas medidas demonstram uma reação diante da perda de receitas, entretanto, também revelam que os ajustes ocorreram apenas após o rebaixamento, quando a situação econômica já havia se deteriorado significativamente.
Nesse contexto, a crise vivida pelo América não pode ser explicada exclusivamente pelo rebaixamento para a Série B, o rebaixamento foi, antes de tudo, a consequência mais visível de um processo que já vinha sendo construído ao longo dos anos anteriores.
Afinal, se o clube conseguiu arrecadar valores históricos, disputar competições internacionais, revelar atletas altamente valorizados e ampliar de maneira significativa suas receitas, por que não conseguiu estruturar um projeto esportivo capaz de evitar o retorno à segunda divisão?
Essa talvez seja a principal indagação levantada pelas próprias demonstrações financeiras.
Os números sugerem que o problema não estava na capacidade de arrecadação, mas na eficiência com que esses recursos foram administrados.
Mesmo diante do agravamento da situação financeira e esportiva, chamou atenção a postura adotada por uma das principais lideranças do clube.
Em entrevista concedida ao portal No Ataque, ainda em 2024, Marcus Salum afirmou que o América “não é obrigado a subir todo ano”, sustentando que a administração deveria ser avaliada pelo histórico de trabalho desenvolvido ao longo dos anos e pelas conquistas recentes, como a semifinal da Copa do Brasil e a inédita participação na Copa Libertadores.
Na mesma oportunidade, o dirigente declarou não sentir vergonha dos resultados obtidos, atribuindo o insucesso esportivo principalmente aos acontecimentos ocorridos dentro de campo e às limitações financeiras enfrentadas pelo clube.
Embora tais argumentos encontrem respaldo nas dificuldades inerentes ao futebol, também é possível observar outra perspectiva.
O próprio rebaixamento representou um dos principais fatores responsáveis pela deterioração da situação econômica do América, assim, separar completamente o desempenho esportivo da realidade financeira parece desconsiderar a forte relação existente entre essas duas dimensões, especialmente em clubes cujo orçamento depende diretamente da permanência na elite do futebol brasileiro.
A análise da crise vivida pelo América também exige uma reflexão sobre o modelo de governança adotado pelo clube, que em um momento foi um dos principais fatores de crescimento financeiro e esportivo.
Há décadas, a instituição permanece sob a influência do mesmo grupo político, evidentemente, a permanência de um mesmo grupo no comando não representa, por si só, um indicativo de má gestão, existem inúmeros exemplos, no futebol brasileiro e internacional, de clubes que alcançaram elevado grau de sucesso justamente em razão da estabilidade administrativa.
Entretanto, quando essa continuidade passa a coexistir com sucessivos resultados esportivos insatisfatórios, déficits financeiros recorrentes e dificuldades para promover mudanças estruturais, torna-se legítimo questionar se a ausência de renovação administrativa passou a limitar a capacidade de evolução da instituição.
A permanência prolongada das mesmas lideranças pode dificultar a incorporação de novas práticas de gestão, reduzir a diversidade de ideias e tornar o processo decisório menos aberto a soluções inovadoras.
O futebol brasileiro transformou-se profundamente nos últimos anos, e a profissionalização da gestão, a adoção de mecanismos modernos de governança e a busca por planejamento estratégico de longo prazo deixaram de ser diferenciais e passaram a constituir requisitos para a competitividade.
Diversos clubes que promoveram mudanças estruturais conseguiram atrair investidores, profissionalizar seus departamentos e ampliar significativamente sua capacidade de investimento.
Nesse contexto, a manutenção de um mesmo modelo administrativo durante décadas pode representar uma dificuldade de adaptação às novas exigências impostas pelo mercado do futebol.
Essa percepção torna-se ainda mais relevante quando se analisa a trajetória da Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
O América esteve entre os primeiros clubes brasileiros a adotar esse modelo, em 2022, justamente com o propósito de profissionalizar ainda mais sua estrutura administrativa e criar condições para a entrada de investidores privados.
O próprio estatuto da SAF prevê mecanismos destinados à emissão de ações e à participação de investidores externos, demonstrando que a captação de capital privado sempre integrou a estratégia institucional do clube.
Entretanto, passados vários anos desde sua constituição, a SAF do América ainda não conseguiu concretizar a entrada de um investidor.
Durante esse período, foram realizadas negociações com diferentes grupos empresariais, inclusive investidores estrangeiros, mas apesar do interesse demonstrado, nenhuma das tratativas resultou em acordo definitivo.
Segundo a própria administração, as propostas apresentadas continham cláusulas consideradas incompatíveis com os interesses do clube, especialmente pela insuficiência de garantias financeiras, pelas limitações impostas à gestão dos ativos e por previsões que poderiam comprometer o patrimônio da instituição, incluindo discussões envolvendo o Centro de Treinamento.
Sob a ótica da diretoria, a rejeição dessas propostas representou uma medida de proteção ao patrimônio do América.
Sob outra perspectiva, contudo, permanece um dado objetivo: a SAF ainda não conseguiu alcançar um de seus principais propósitos, que era justamente atrair um investidor capaz de fortalecer financeiramente o projeto esportivo do clube.
Naturalmente, isso não significa que qualquer proposta devesse ser aceita. A preservação do patrimônio institucional é um dever dos administradores.
Por outro lado, a inexistência de um investidor após anos de negociações evidencia que o modelo adotado ainda não produziu um de seus resultados mais esperados: a ampliação da capacidade de investimento por meio da entrada de capital privado.
Esse aspecto ganha maior relevância justamente porque diversos clubes brasileiros utilizaram a SAF como instrumento para acelerar seu processo de reestruturação financeira e esportiva.
No caso do América, entretanto, a estrutura societária foi criada, mas ainda não se converteu em uma ferramenta efetiva de transformação econômica.
Quando todos esses elementos são analisados em conjunto, percebe-se que a crise vivida pelo América dificilmente pode ser atribuída à simples falta de recursos financeiros.
Entre 2020 e 2023, o clube experimentou o período de maior crescimento esportivo e econômico de sua história recente, disputou as principais competições do continente, alcançou receitas inéditas, valorizou atletas formados em suas categorias de base, fortaleceu sua marca e passou a ocupar um espaço de destaque no cenário nacional.
Poucos anos antes, esse cenário parecia inimaginável.
Entretanto, o aumento da arrecadação não foi acompanhado pela consolidação de um projeto esportivo capaz de assegurar estabilidade dentro de campo, o clube acabou rebaixado para a Série B, perdeu grande parte de sua capacidade de geração de receitas, passou a acumular déficits expressivos e viu sua situação patrimonial tornar-se mais delicada.
Ao mesmo tempo, a SAF, concebida como um importante instrumento de modernização administrativa e de atração de investimentos privados, ainda não conseguiu concretizar a entrada de um investidor estratégico que pudesse impulsionar uma nova etapa de crescimento institucional.
Esse conjunto de circunstâncias sugere que o principal desafio enfrentado pelo América nunca esteve, propriamente, na capacidade de arrecadar recursos, mas na dificuldade de transformá-los em um projeto esportivo sustentável e duradouro.
Naturalmente, nenhuma administração está imune a erros, nem se pode afirmar que o modelo de governança adotado pelo clube seja, por si só, responsável pela crise atual. O futebol é uma atividade sujeita a inúmeras variáveis, muitas delas imprevisíveis, e reduzir um processo tão complexo a uma única causa seria uma simplificação inadequada.
Ainda assim, a sucessão dos acontecimentos permite algumas reflexões.
A permanência do mesmo grupo dirigente durante décadas proporcionou estabilidade institucional e esteve diretamente associada ao período mais vitorioso da história recente do América.
Entretanto, esse mesmo grupo também conduziu o clube durante o processo que culminou no rebaixamento, na deterioração dos indicadores financeiros e na dificuldade de transformar a SAF em um mecanismo efetivo de fortalecimento econômico.
Essa constatação, por si só, não autoriza concluir que a continuidade administrativa seja a causa da crise, contudo, torna legítimo questionar se o atual modelo de governança ainda representa a melhor alternativa para enfrentar os desafios do futebol contemporâneo.
Em organizações de qualquer natureza, a alternância de lideranças costuma favorecer a renovação de ideias, estimular a inovação e permitir a revisão de estratégias. Da mesma forma, a estabilidade administrativa pode representar uma virtude quando acompanhada de capacidade de adaptação às novas exigências do ambiente em que a instituição está inserida.
No futebol brasileiro, marcado por crescente profissionalização, pela intensificação da concorrência e pela necessidade de investimentos cada vez maiores, a capacidade de adaptação tornou-se um dos principais diferenciais competitivos.
Talvez seja justamente esse o maior desafio do América.
Mais do que aumentar receitas ou reduzir despesas, o clube precisa refletir sobre seu modelo de governança, sua capacidade de planejamento estratégico e os mecanismos pelos quais transforma oportunidades econômicas em resultados esportivos permanentes.
A história recente demonstra que o América foi capaz de se reconstruir após momentos extremamente difíceis.
A criação do Conselho Gestor, em 2008, representou uma profunda transformação institucional e inaugurou o período mais bem-sucedido de sua trajetória, e talvez o momento atual exija uma reflexão semelhante.
Não necessariamente para romper com tudo aquilo que foi construído, mas para avaliar se o modelo que foi extremamente eficiente para reconstruir o clube continua sendo o mais adequado para conduzi-lo aos desafios do futuro.
O verdadeiro legado de uma administração não se mede apenas pelas conquistas obtidas durante sua gestão, mas também pela capacidade de preparar a instituição para permanecer competitiva quando as circunstâncias deixam de ser favoráveis.
O futuro do América dependerá, em grande medida, da resposta que seus dirigentes, conselheiros, associados e torcedores forem capazes de oferecer a essa questão.
Rafael Inácio da Silva Caldas
Advogado especialista em Direito Desportivo e Negócios no Esporte.



