Janeiro, para quem vive o futebol fora das quatro linhas, não tem cara de recomeço: é o auge do mercado de transferências, com viagens, reuniões e um ritmo que beira o frenesi. Nesse ambiente, duas gigantes do agenciamento — Roc Nation Sports e P&P Sport Management — abriram suas portas e mostraram como o trabalho com atletas de alto nível vai muito além de intermediar uma venda.
O bastidor descrito por executivos que lidam com carreiras como as de Vinícius Júnior, Endrick, Lucas Paquetá e Vitor Reis derruba o estereótipo do “empresário de luxo”. Há, sim, estruturas em áreas nobres e operações de grande magnitude, mas a rotina é definida por acompanhamento diário, gestão de detalhes e uma rede de profissionais que cuida do jogador como atleta e como pessoa física — antes, durante e depois de qualquer transferência.
Não é só negociação: departamentos, relatórios e um suporte que dura o ano inteiro
O agenciamento de elite funciona como uma empresa com setores especializados que se conectam o tempo todo. Entre os exemplos citados, aparecem:
- Análise individual, com profissionais que assistem aos jogos dos clientes, produzem relatórios e levam esse retorno diretamente aos atletas.
- Análise de mercado, com analistas próprios que mapeiam oportunidades, identificam demandas de clubes ao redor do mundo e ajudam a direcionar possíveis movimentos.
- Departamentos clássicos, como jurídico, comunicação e comercial, que dão sustentação à operação.
O dia a dia não termina quando um contrato é assinado. O CEO da P&P no Brasil, Claudio Fiorito, descreve um trabalho de acompanhamento praticamente integral, que pode incluir desde conselhos de investimento até apoio para resolver questões pessoais — como ajudar um jogador de um grande clube brasileiro a tirar passaporte americano. Em muitos casos, a relação vira uma espécie de amizade construída no longo prazo.
Outra quebra de percepção envolve quem é o empresário. Na P&P, Claudio é apontado como o agente principal de Vitor Reis, conduzindo contato com o Manchester City e negociando com Leila Pereira a transferência do jovem do Palmeiras para a Inglaterra. Mas esse trabalho não é feito sozinho: o setor comercial tem outros gestores que também cuidam de trajetórias e decisões dos atletas.

Na Roc Nation, existe até uma função com nome e missão próprios: o player service, descrito pelo COO no Brasil, Thiago Freitas, como uma espécie de suporte permanente ao jogador — alguém que nem sempre negocia contratos, mas acompanha as demandas do dia a dia. Entre as tarefas citadas estão ajudar o atleta a:
- encontrar uma nova casa ao mudar de cidade ou país;
- se adaptar a serviços e rotina (compras, lazer);
- ser um contato inicial com o clube atual para tratar de questões operacionais.
Esse profissional pode crescer dentro da empresa e, no futuro, virar um agente principal com sua própria carteira. A lógica interna também distribui responsabilidades: quem cuida de uma operação envolvendo Endrick, por exemplo, não necessariamente negocia diretamente a de Vinícius Júnior, embora exista comunicação constante entre os agentes.

Dieta, sono, redes sociais e mudança de casa: a formação do atleta começa cedo
O crescimento de jogadores cada vez mais jovens no cenário profissional ampliou o tempo de trabalho dos agentes. A captação por grandes empresas ocorre, em geral, entre 13 e 14 anos, fase descrita como decisiva para moldar maturidade e mentalidade. A leitura do CEO da P&P é direta: com 13 anos já é possível perceber quem vai virar profissional, e o diferencial central está “na cabeça”.
Esse acompanhamento precoce aparece com força no exemplo de Vitor Reis, tratado como principal case recente da P&P. Ele é descrito como um atleta “moldado desde os 14 anos”, com uma rotina orientada para alimentação, sono, escolhas de lazer e disciplina. O nível de gestão é detalhado: a empresa ajuda a definir o que o jogador faz no tempo livre, enquanto nutricionista, personal e outros profissionais conduzem o plano físico e alimentar. A brincadeira de Claudio resume o grau de controle: “hoje, o Vitor não decide nada na vida dele”.
A operação também inclui imagem e comunicação. Na P&P, há uma equipe dedicada a organizar o calendário de publicações dos atletas nas redes sociais: definição de foto, arte, legenda, timing e até quando entra conteúdo de família, treino ou jogo. A resposta para o incômodo com a falta de liberdade é objetiva: seria “o preço” de ser um atleta de alto nível — e, como muitos entram cedo nessa dinâmica, isso se torna parte do normal.
Em transferências, a logística vira missão. No caso de Vitor Reis rumo ao Manchester City, uma equipe da P&P ficou 10 dias em Manchester para resolver moradia e estrutura — inclusive providenciando casa para o personal trainer — antes de retornar ao Brasil.
E um ponto que ajuda a entender por que janeiro não nasce do nada: as negociações são trabalhadas bem antes da janela abrir. A rotina, segundo Claudio, não muda tanto com a janela aberta; o que muda é que, em janeiro, ele “vai almoçar com clubes para fechar”, mas o debate vinha de antes. Thiago descreve a filosofia da Roc Nation em quatro pilares — identificação, prospecção, acompanhamento e negociação — que rodam diariamente. Há relatórios trimestrais para avaliar quem está em alta e quem está em baixa, além de análise constante com dados, vídeos e desempenho.
No fim, o mercado de agentes é um mundo de informação sensível, decisões rápidas e trabalho invisível para o torcedor — mas que alimenta as grandes transferências e, depois, vira combustível para discussões que atravessam arquibancadas e redes sociais.
Fonte: Trivela.



