Aqui é Felipe Araujo. Ajuste o nó da gravata, mas não se engane com a vista para o mar e a brisa de Jurerê: o chão desse vestiário está pesado, a prancha quebrou e a conta do resort chegou.
Antes de falarmos de Valuation e Cap Table, feche os olhos e sinta o peso dessa camisa azurra. Estamos falando do Leão da Ilha. Estamos falando da genialidade cerebral de Marquinhos Santos (M10), da maestria de Zenon, daquele acesso mágico de 2008 sob a batuta de Silas e do saudoso João Nilson Zunino. Como diz o hino: “Na ilha formosa, cheia de graça…”. O problema é que, na última década, o clube achou que dava para administrar o futebol no mesmo ritmo de quem pega onda na Joaquina.
A camisa que já vestiu ídolos imortais hoje veste um balanço contábil que tomou um caldo financeiro. A euforia da Ressacada existe na memória afetiva, mas o Cash Flow conta uma história de terror corporativo. Hoje vamos dissecar o Turnaround do clube que precisa entender de uma vez por todas: Surf não ganha Brasileirão, e o mercado financeiro não perdoa empresa Ioiô.
Contexto institucional (A ponte: Glória vs Balanço)
Senhores, se o Avaí fosse uma ação negociada na B3, os analistas chamariam seu gráfico de “Eletrocardiograma de Taquicardia” ou, como bem define a arquibancada, o “Efeito Ioiô”. Sobe num ano, despenca no outro.
O clube viveu lampejos de grandeza, como a memorável campanha na Série A de 2009 (6º lugar, flertando com a Libertadores) e a semifinal da Copa do Brasil de 2011. Mas a conta da gestão populista chegou. O clube passou os últimos 10 anos gastando receitas futuras para cobrir o buraco do presente. O resultado? O Leão da Ilha caiu repetidas vezes e viu sua dívida estourar a casa dos R$ 110 milhões.
A tese: O Avaí saiu do hospício administrativo direto para a UTI da Recuperação Judicial (RJ). Deixou de ser um clube que joga dinheiro pela janela para se tornar um Distressed Asset (Ativo Estressado) em fase de saneamento. A ordem começou a ser instalada, mas o paciente ainda engole água.
O dono/investidor (Governança)
O Avaí vive o purgatório corporativo: não é mais a bagunça de ontem, mas ainda não é a máquina de amanhã.
- Quem manda: O clube opera no formato Associativo, sob a batuta do presidente Bernardo Pessi, eleito para comandar o clube até o fim de 2029.
- Cap Table: A associação detém 100% do negócio, mas preparou o terreno estatutário para virar uma SAF. Estão com o Pitch Deck debaixo do braço procurando um “Dono” no mercado que assuma o controle.
- Green Flags (Profissionalismo): O choque de governança. A diretoria aprovou a Recuperação Judicial (RJ) em 2024, estancando execuções, negociando deságios massivos com credores e trazendo a dívida para a realidade. Eles limparam a vitrine.
- Red Flags (Burocracia): O Timing. O mercado de SAFs teve sua “Série A” de investidores (City, Textor). Quem chega atrasado para vender o controle, pega o capital mais arisco e exigente. A demora em fechar um Deal mantém o clube operando no limite da asfixia.
Posicionamento e divisão (Market cap)
Na prateleira do futebol, a disparidade de Market Cap é evidente.
- A realidade: O Avaí é um Distressed Asset de luxo. Tem estrutura física de Série A, mas orçamento operacional e calendário de Série B.
- O comparativo: Enquanto o Athletico-PR opera como uma multinacional blindada e o Bahia surfa na onda real do Funding do Grupo City, o Avaí é a Startup que validou o produto em uma capital riquíssima (Florianópolis), mas precisa vender cotas para não fechar o mês no vermelho. Tem orçamento de meio de tabela, mas a torcida cobra futebol de G4.
A liderança (Quem tem a caneta)
Quem tem a caneta hoje não é um cartola folclórico de charuto, mas executivos de terno apagando incêndios.
- A mente por trás: O presidente é Bernardo Pessi e, com a posse da nova diretoria em janeiro de 2026, o foco está na reestruturação financeira e redução da folha salarial para a temporada 2026. Pedro Costa assumiu como Diretor de Futebol em dezembro de 2025.
- Patrocínios e receitas: Com cotas de TV espremidas na Série B (contrato Brax injetando cerca de R$ 11 a R$ 12 milhões/ano), o clube sofre. O patrocínio máster atual e as placas não cobrem o custo de uma folha robusta.
- Sócio torcedor: O clube orbita a faixa de 8 mil a 10 mil sócios adimplentes. Isso movimenta cerca de R$ 8 milhões a R$ 10 milhões anuais. É o oxigênio B2C que mantém as portas da Ressacada abertas.
Decisões estratégicas (Erro vs Correção)
Aqui reside o erro estratégico de Cash Flow e a correção forçada pela lona.
- A fase do erro: Onde queimaram caixa? Contratando “Grife” para passar férias na ilha. O ano de 2022 trouxe Paolo Guerrero (custo mensal altíssimo). Em 2024, trouxeram Vagner Love. O clube pagou preço Premium por ativos que entregaram ROI esportivo pífio e zero valor de revenda (Player Trading). Transformaram o clube num resort de veteranos. Foi o All-in da vaidade.
- A fase da correção: A ficha caiu com a RJ. Pararam de contratar medalhão de aeroporto para apostar na renegociação de dívidas e cortes operacionais.
- Citação histórica: Como diria o pragmático Muricy Ramalho: “Aqui é trabalho, meu filho”. Futebol de Série B não aceita estrela que não transpira; exige operário que bate meta.
Resultado recente (Análise técnica)
- O fracasso: A incapacidade de sair do “Ioiô” e estabilizar o acesso nas últimas tentativas.
- Análise técnica: O fracasso recente é reflexo do desequilíbrio entre nome e intensidade. A Série B atual é o campeonato do GPS. O sucesso vem da Intensidade Física, e o Avaí tentou surfar a onda com um futebol de posse de bola lento com jogadores veteranos.
- Fator casa: A Ressacada com vento sul sempre foi um inferno para os visitantes. Mas o torcedor perdeu a paciência. Quando o time não corre, o Fator Casa vira uma panela de pressão contra o próprio elenco.
- Tese: Gestão arruma a conta de luz, mas intensidade e “bumbum no chão” na dividida é o que garante o acesso.
Construção de elenco (Scouting)
- Perfil: O clube está transitando, a duras penas, da “Grife” de resort para o “Pé de obra” (fome, salário base baixo, gatilhos de produtividade).
- Coerência: O time ainda é um Frankenstein. Mescla jovens da base jogados aos leões com apostas do interior paulista. Falta um eixo central.
- A polêmica: A torcida cobra um “Camisa 10” clássico, nostálgica pelos tempos de Marquinhos. A diretoria responde com planilhas de limite de Budget. É a briga eterna entre a emoção da arquibancada e a frieza da Faria Lima.
Diagnóstico crítico
- Acertos estruturais: A coragem de pedir a RJ. Ao fazer isso, o Avaí separou o passado irresponsável do futuro viável. Estancou penhoras de bilheteria e direitos de TV que paralisavam o clube semanalmente.
- Erros de planejamento: O erro no Scouting. A gestão executiva no escritório (Banco de Reservas da diretoria) tem nota 8, mas o Core Business (futebol) falhou sucessivamente na montagem do elenco. Sem o Opex (Capital operacional) inflado, errar contratação na Série B é o mesmo que afundar a prancha na arrebentação: você não volta para a superfície.
Valor do clube e ativos (Valuation)
Se eu fizesse o Valuation hoje, o número seria chocante para os puristas: o Avaí vale mais pelo cimento do que pela bola.
- Real estate (O pulo do bilhão): A Ressacada e o CFA (Centro de Formação de Atletas) estão situados no Carianos, a poucos minutos do Aeroporto Internacional Hercílio Luz. Trata-se de um Landbank (banco de terrenos) espetacular. O estádio é um Ativo imobiliário invejável.
- Valuation da marca e clube: Considerando a assunção de dívida (RJ) e a necessidade de Capex para competir, o Enterprise Value de uma futura SAF do Avaí giraria na casa dos R$ 250 milhões a R$ 300 milhões no cenário atual. É comprar barato um monopólio de torcida na cidade com um dos maiores IDHs do país.
Engajamento e finanças
- Torcida: É um cliente altamente exigente. O “Manezinho” consome, paga Sócio, compra a camisa da Volt, mas exige Customer Experience (vitórias).
- Finanças: Fluxo de caixa asfixiado. Sem o Broadcast (TV) gordo da Série A, o Avaí vive de vender o almoço para pagar a janta, dependendo das luvas da Liga Forte União (LFU) e vendas pontuais da base (Mecanismo de Solidariedade de crias como Raphinha e Gabriel Magalhães) para manter o fôlego.
Conclusão: A visão do gestor (O que Felipe Araujo faria)
Se eu sentasse na cadeira de CEO do Avaí hoje, decretaria o fim imediato da cultura do Surf. A Ilha da Magia é linda para quem visita, mas para quem trabalha lá dentro, a régua tem que ser de indústria alemã.
Sustentabilidade: O clube não vai quebrar (a RJ salvou o CNPJ), mas pode virar refém eterno da mediocridade do “Ioiô” se não fechar a venda do controle para quem tem Smart Money.
3 sugestões práticas (2027-2030):
- Joint venture do “real estate”: Não venda apenas o time de futebol para a SAF; monetize o terreno. Transforme o entorno da Ressacada num polo comercial de apoio ao aeroporto (Hotéis, Hub de Logística). O clube se paga com o tijolo e investe no campo.
- Hub exportador da base: Florianópolis é um atrativo natural para morar. O Avaí tem que monopolizar o Sul do Brasil na captação de jovens. A meta financeira não deve ser cota de TV, mas gerar € 10 milhões/ano em Player Trading (venda de talentos). O Avaí tem que ser a principal esteira de exportação da região.
- Extinção do “clube resort”: O filtro de contratação passa a ser rígido: menos de 28 anos, minutagem alta e índice de intensidade física (GPS) europeu. Quem quiser vir a Floripa a passeio, que alugue um Airbnb. No clube, só “Pé de obra”. Fome > Nome.
A grande ideia (Inovação): Posicionar o Avaí como a primeira “Lifestyle Brand” de alto padrão do futebol sul-americano. Unir o apelo paradisíaco de Floripa com a cultura do clube. Criar collabs agressivas de moda Streetwear/Premium, vendendo a marca não só para quem vai à arquibancada, mas para o turista com alto Ticket Médio que visita Jurerê Internacional. Transformar a camisa em grife casual B2C e abrir uma linha de receitas totalmente descorrelacionada do resultado de campo.
O PITCH FINAL: “Investidor, o Avaí é a assimetria perfeita do mercado. A dívida já foi cortada na carne via RJ. O risco de falência passou. Você compra hoje um clube com infraestrutura completa, numa capital rica, sem concorrência local de elite, pagando preço de terreno descontado. O Break-even (Ponto de Equilíbrio) vem no minuto em que o time pisa e se firma na Série A. Compre na baixa, instaure a ditadura da governança, acabe com a cultura do ioiô e revenda com um Multiplier absurdo em 5 anos.”
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



