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As SAFs estão mudando o futebol brasileiro. Mas há um problema que não pode ficar para trás

O crescimento das SAFs está mudando o futebol brasileiro.

E muitos dos problemas que estão sendo atacados precisavam, efetivamente, ser atacados.

Novos investidores estão entrando. Clubes historicamente endividados começam a ter acesso a capital. Estruturas de gestão tornam-se mais profissionais. Há investimento em infraestrutura, marketing, comunicação, tecnologia e formação. Processos que durante décadas dependeram excessivamente de pessoas começam, em alguns casos, a se transformar em processos institucionais.

E existe ainda algo muito mais básico: salários pagos em dia.

É estranho que isso de “salários em dia” tenha de ser apresentado como sinal de modernização no futebol profissional, mas a realidade brasileira nos obriga a reconhecer a sua importância.

Tudo isso representa progresso.

Mas, no meio desta transformação, existe um problema estrutural do futebol brasileiro que me parece receber muito menos atenção.

Estamos também mudando a forma como os clubes constroem o seu projeto de futebol?

Porque podemos mudar a propriedade de um clube, profissionalizar a governança, melhorar o marketing, construir um centro de treinamento e contratar excelentes profissionais.

Mas se, dentro do futebol, continuarmos a reconstruir o projeto a cada troca de treinador, um dos problemas mais profundos continuará praticamente intacto.

O treinador muda. E o que mais muda com ele?

A instabilidade dos treinadores é uma característica particularmente visível do futebol brasileiro.

Poucos maus resultados são frequentemente suficientes para colocar um trabalho em xeque. A pressão aumenta, o treinador sai e começa um novo ciclo.

Não pretendo discutir aqui se os clubes brasileiros demitem demais ou se determinada demissão é ou não justificada. Existem treinadores que devem sair. Existem momentos em que uma mudança é necessária.

O problema que me interessa é outro.

O que acontece ao clube quando o treinador sai?

Se muda apenas o treinador, existe uma alteração importante.

Se muda também a forma de jogar, o problema aumenta.

Se, com a forma de jogar, mudam os perfis necessários para cada posição, aumenta novamente.

Se isso obriga a alterar o recrutamento, o desenvolvimento individual, a utilização dos jogadores da base e até os indicadores através dos quais o departamento de futebol avalia a equipe, então já não estamos simplesmente trocando de treinador.

Estamos reconstruindo o projeto de futebol.

E quando isso acontece repetidamente, os custos se acumulam.

 

O ciclo da reconstrução permanente

Já escrevi anteriormente sobre aquilo a que chamo o ciclo da reconstrução constante.

A sequência é relativamente simples.

Chega um treinador com uma determinada ideia.

Muda o modelo de jogo.

Mudam as exigências das posições.

Mudam os treinamentos.

Mudam os perfis considerados adequados.

Jogadores importantes deixam de encaixar.

O clube volta ao mercado.

Alguns precisam sair precisamente quando o mercado percebe que o clube quer vendê-los.

Outros chegam com urgência para responder às necessidades do novo treinador.

O novo modelo precisa de tempo para ser implementado justamente quando a pressão por resultados está aumentando.

E, se os resultados não aparecem rapidamente, chegamos novamente ao início.

Novo treinador.

Novo modelo.

Novo treinamento.

Novos perfis.

Novo mercado.

O jogador não perdeu necessariamente qualidade. O clube mudou a pergunta.

Um lateral pode ser excelente para uma equipe e inadequado para outra. Um zagueiro pode render protegendo a profundidade de determinada forma e sofrer quando passa a defender enormes espaços. Um meio-campista fundamental num jogo de transição pode perder influência num modelo de maior circulação e controle.

A questão não é apenas: “este jogador é bom?”

É: bom para fazer o quê, em que função, dentro de que modelo e em que contexto?

Quando o clube não consegue responder a essas perguntas independentemente do treinador, passa a depender excessivamente de quem naquele momento ocupa o banco.

Isto não é teoria. Acontece dentro dos clubes.

Ao longo da minha experiência profissional, acompanhei de muito perto situações em clubes brasileiros que mostram exatamente este problema.

Num caso de Série A, tive acesso próximo ao trabalho que estava sendo desenvolvido entre equipe técnica, análise de desempenho e dados.

O treinador atribuía grande importância à análise e queria que a informação fosse organizada de determinada forma. Existiam indicadores associados àquilo que a equipe pretendia fazer, relatórios preparados regularmente e os dados faziam parte do processo utilizado para analisar o desempenho.

O treinador saiu.

O seguinte tinha uma abordagem completamente diferente. Baseava muito mais as suas decisões na observação e na experiência e atribuía pouca importância à utilização dos dados.

Nenhuma dessas opções torna automaticamente um treinador melhor ou pior.

Esse não é o ponto.

O problema é institucional.

Para aquele clube, afinal, os dados eram importantes ou não?

Um departamento não pode ser estrutural numa segunda-feira e praticamente irrelevante na terça-feira porque mudou o treinador.

Se o clube acredita que análise e dados fazem parte do seu processo de decisão, essa escolha deveria pertencer ao clube. O treinador pode utilizá-los de maneira diferente, pedir informação diferente e até questionar a sua utilização.

Mas a existência e a função dessa área não deveriam depender exclusivamente de quem está temporariamente no comando da equipe.

 

Quando muda o treinador e muda o futebol inteiro

Vi algo semelhante noutro contexto.

Uma equipe vinha trabalhando uma forma de jogar baseada em maior controle da posse, construção organizada e progressão mais paciente.

Mudou o treinador.

O novo treinador tinha ideias diferentes: maior verticalidade, chegada mais rápida à área adversária, pressão mais agressiva e busca por recuperações em zonas altas.

Novamente: não existe aqui uma ideia certa e outra errada.

Existem duas formas legítimas de interpretar o jogo.

O problema é o que acontece à organização quando se passa de uma para a outra praticamente de um dia para o outro.

Mudam as referências de pressão.

Mudam os espaços ocupados.

Mudam as responsabilidades dos jogadores.

Mudam os perfis necessários.

Mudam os indicadores utilizados para perceber se a equipe está evoluindo.

E tudo isso pode acontecer durante a mesma temporada, com praticamente o mesmo elenco.

Aquilo que ontem era considerado progresso pode deixar de ser relevante amanhã.

E jogadores contratados para executar determinadas funções passam a ser avaliados segundo exigências para as quais nunca foram escolhidos.

É difícil construir valor dessa maneira.

 

Às vezes nem é preciso trocar de treinador

Existe ainda outra versão do mesmo problema, e talvez seja ainda mais reveladora.

Acompanhei uma situação em que uma equipe procurava implementar um jogo mais vertical, com pressão alta e recuperação rápida da bola.

Os resultados ainda não correspondiam ao desejado, mas vários indicadores relacionados com aquilo que a equipe pretendia fazer estavam evoluindo na direção definida.

O processo começava a mostrar sinais.

Entretanto apareceu uma oportunidade de mercado.

Um jogador de grande nome, reconhecido e com peso evidente no futebol brasileiro ficou disponível.

A direção decidiu contratá-lo.

Individualmente, era um jogador de qualidade.

Mas tinha características completamente diferentes das exigidas pelo modelo que estava sendo desenvolvido. Era muito influente com bola, mas oferecia pouco nos momentos sem bola.

E, pelo estatuto e pelo investimento realizado, naturalmente precisava jogar.

De repente, uma equipe construída sobre a ideia de que todos participariam na pressão e na recuperação rápida da bola tinha uma peça central que não conseguia responder à mesma exigência.

Quem tinha de mudar?

O jogador?

O treinador?

O modelo?

Toda a equipe ao redor dele?

Mais uma vez, o problema não estava necessariamente na qualidade do jogador ou na competência do treinador.

Estava na ausência de uma referência suficientemente forte acima de ambos.

A oportunidade de mercado tinha se sobreposto à lógica do projeto.

 

É aqui que a discussão sobre SAFs se torna importante

Uma SAF tem capacidade para profissionalizar áreas que durante décadas foram frágeis no futebol brasileiro.

E essa profissionalização é necessária.

Capital, governança, infraestrutura, processos, tecnologia e melhores condições de trabalho resolvem problemas reais.

Mas essa transformação precisa também chegar ao coração do departamento de futebol.

A estrutura de futebol também precisa de institucionalização.

E isso começa por algo que muitas vezes parece abstrato: identidade.

Não identidade no sentido romântico.

Não estou falando apenas de história, cores, torcida ou de dizer que determinado clube “sempre jogou para frente”.

Estou falando de identidade como instrumento de gestão.

Quem somos?

Que futebol queremos construir?

Em que contexto competitivo estamos inseridos?

Que comportamentos queremos reconhecer nas nossas equipes?

Que características queremos nos nossos jogadores?

Como recrutamos?

Como desenvolvemos?

Que relação queremos entre base e equipe principal?

Que papel terão análise, scouting e dados nas nossas decisões?

E, só depois disso:

que treinador é adequado para desenvolver este projeto?

A ordem importa.

 

Identidade não significa rigidez

Existe um risco evidente nesta discussão: imaginar que definir uma identidade significa obrigar todos os treinadores a jogar exatamente da mesma maneira.

Não significa.

O treinador continua sendo absolutamente fundamental.

É ele que trabalha diariamente com os jogadores, interpreta adversários, adapta a equipe, gerencia o vestiário e transforma princípios em comportamento competitivo.

Treinadores diferentes encontrarão soluções diferentes.

E devem encontrar.

O treinador deve interpretar a identidade do clube, não receber um manual de instruções.

O que não deveria acontecer é cada treinador precisar inventar novamente aquilo que o clube é.

Uma organização madura deveria conseguir distinguir aquilo que é princípio daquilo que é interpretação.

A identidade pertence ao clube.

A interpretação pertence ao treinador.

E o contexto?

Há ainda uma dimensão particularmente relevante para as SAFs brasileiras.

Identidade sem contexto também pode se transformar num exercício teórico.

Não basta decidir que queremos determinado futebol porque parece moderno ou porque funcionou num clube europeu.

Uma equipe que pretende subir da Série D enfrenta um contexto competitivo diferente de uma equipe de Série A, B ou mesmo da C.

Um estadual curto cria exigências diferentes de uma competição longa.

Os recursos disponíveis, as viagens, os gramados, o calendário, o mercado regional, a capacidade de retenção de jogadores e a pressão por resultados fazem parte do problema.

Por isso, definir uma identidade também exige estudar: o que historicamente funciona para atingir o nosso objetivo dentro da competição em que estamos?

Não para copiar.

Para compreender.

Que características aparecem nas equipes que sobem?

Como constroem os elencos?

Que perfis utilizam?

Como atacam e defendem?

Onde recrutam?

Qual é a experiência média dos jogadores?

Que características se repetem e quais dependem apenas daquele contexto específico?

A identidade de um clube deve se encontrar com a realidade da competição.

É nesse encontro que começa a nascer um modelo de futebol realmente útil.

 

O custo de não fazer isto

Quando cada treinador redefine o projeto, o custo não aparece apenas na classificação.

É esportivo.

Automatismos desaparecem. Jogadores precisam aprender novas funções. Tempo competitivo é utilizado para reconstruir comportamentos.

É financeiro.

Contrata-se por necessidade e vende-se por fraqueza. O mercado sabe quais jogadores deixaram de servir. Salários permanecem. Novas contratações se acumulam.

É humano.

Jogadores que eram importantes perdem estatuto sem necessariamente terem perdido qualidade. Outros chegam carregando imediatamente a responsabilidade de representar “o novo projeto”.

É organizacional.

Departamentos ganham ou perdem importância conforme as preferências do treinador. Conhecimento produzido durante meses deixa de ser utilizado.

É também cultural.

A torcida vê mais uma reconstrução, mais uma promessa de novo ciclo, mais jogadores chegando e saindo e mais uma equipe tentando descobrir novamente aquilo que pretende ser.

Não há estrutura que suporte indefinidamente esse processo sem pagar um preço.

 

E o treinador é, muitas vezes, uma das principais vítimas

É importante deixar isto claro: nada do que escrevo aqui pretende responsabilizar os treinadores por esse problema.

Na realidade, muitas vezes acontece exatamente o contrário.

O treinador é uma das principais vítimas deste ciclo.

Implementar uma ideia de jogo leva tempo. Não acontece de um dia para o outro.

 

Talvez a SAF tenha uma oportunidade maior do que simplesmente investir

É precisamente por isso que vejo na transformação atual do futebol brasileiro uma oportunidade extraordinária.

O capital é importante.

Governança é importante.

Infraestrutura é importante.

Marketing, comunicação, tecnologia, formação e profissionalização são importantes.

Tudo isso precisava melhorar e continuará precisando.

Mas existe uma transformação menos visível que não pode ser esquecida: retirar o projeto de futebol da dependência permanente das pessoas e transformá-lo em conhecimento institucional do clube.

O treinador continuará mudando.

Os jogadores continuarão mudando.

Diretores também mudarão.

Isso faz parte do futebol.

A questão é saber o que permanece.

Porque talvez um dos sinais mais importantes da profissionalização de um clube não seja apenas aquilo que acontece quando chegam novas pessoas.

Talvez seja aquilo que consegue sobreviver quando elas saem.

E por isso, no meio de toda a transformação provocada pelas SAFs, há uma pergunta que considero essencial: se o treinador sair amanhã, o que continua a orientar o futebol do clube?

Se a resposta for “quase nada”, então este é um dos problemas que a transformação do futebol brasileiro ainda precisa resolver.

Pedro Batista

Executivo de futebol luso-brasileiro com experiência na Europa, África e América do Sul. Com base profissional
construída no Sporting CP, liderou projetos na Nigéria e no Egito, desenvolvendo uma ampla rede no futebol africano. Na MyGamePlan, trabalhou com clubes das principais divisões da Europa, Ásia e Américas nas áreas de estratégia, scouting, recrutamento e desenvolvimento. É também cofundador e CEO da MindStats e defende uma gestão que combine resultados, inovação, sustentabilidade e responsabilidade social.

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