O Internacional foi punido nesta quinta-feira (8) com um bloqueio preventivo de registro de atletas pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), órgão independente criado pela CBF para aplicar as regras do fair play financeiro no futebol brasileiro. A sanção é uma espécie de transfer ban em âmbito nacional, mas com uma diferença importante: em tese, o clube gaúcho não estaria impedido de registrar jogadores — novas contratações, porém, ficariam condicionadas a uma autorização prévia da agência.
A origem da punição está no chamado Evento de Insolvência. Em 4 de setembro de 2026, o Inter apresentou à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) um plano de pagamento coletivo de credores, e a apresentação desse pedido acionou automaticamente a trava regulatória. O bloqueio preventivo funciona como uma trava no sistema de registro de atletas da CBF — que já foi comunicada da decisão — e permanece válido independentemente de a janela de transferências estar aberta ou fechada. Em agosto deste ano, o Grêmio sofreu punição idêntica, no primeiro caso de aplicação da Seção 8 do Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira, em vigor desde 1º de janeiro.
Por que a punição não muda, por ora, o dia a dia do clube
Na prática, a medida não tem nenhum efeito imediato. O Inter já está proibido de inscrever novos atletas por causa de dois transfer bans da Fifa, aplicados por dívidas nas aquisições do zagueiro Juninho e do lateral-esquerdo Ramon — pendências com o Midtjylland, da Dinamarca, e o Olympiakos, da Grécia. Ramon nem está mais no Beira-Rio: foi emprestado ao Vitória. O quadro, aliás, pode piorar — o clube projeta receber mais cinco transfer bans e acumula R$ 117 milhões em débitos ligados a transferências desde 2021.
Pouco depois da manifestação da Anresf, o Inter divulgou um comunicado oficial. “Na busca constante de soluções, e ciente das dificuldades financeiras enfrentadas, o Sport Club Internacional informa que, no começo do mês de setembro ingressou com pedido de Plano de Parcelamento Coletivo perante à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), medida considerada de fundamental importância para a reestruturação do passivo do Clube”, iniciou a nota. “O mecanismo é previsto na regulamentação do futebol brasileiro e utilizado por outros clubes do país. O plano permitirá o reparcelamento das dívidas desportivas para que se encaixem na capacidade real de pagamento da instituição. O programa abrange, inicialmente, R$ 31 milhões em dívidas, podendo seu alcance ser ampliado conforme a adesão de novos credores desportivos à CNRD.”
As condições para voltar ao mercado
O plano apresentado à CNRD busca reparcelar as dívidas desportivas para que se encaixem na capacidade real de pagamento do clube, dando continuidade ao processo de reestruturação já em andamento. Segundo a nota, em decorrência da apresentação do plano, e em cumprimento às novas regras do Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF, o Internacional realizou as comunicações previstas à Anresf e seguirá os procedimentos estabelecidos. “Ao fim de ambos os processos, com a aprovação do Plano de Parcelamento Coletivo e celebração de Acordo de Reestruturação com a ANRESF, o Clube terá a sua dívida desportiva reestruturada e iniciará o cumprimento do acordo”, completou o comunicado.
Enquanto o bloqueio prevalecer, a liberação de novas contratações dependerá de dois fatores: que o clube acumule saldo positivo com receitas de transferências de jogadores na janela vigente, e que os gastos com taxas e comissões da nova contratação — somados aos já realizados no período — permaneçam iguais ou inferiores ao total arrecadado. A agência também verifica se a contratação mantém a folha de pagamento de jogadores e da comissão técnica dentro do teto mensal fixado pelo regulamento: a remuneração não pode superar a média dos seis meses anteriores ao Evento de Insolvência.
Na prática, o caso do Inter ilustra a nova era regulatória do futebol brasileiro: a simples apresentação de um plano de parcelamento coletivo já dispara um bloqueio preventivo de registros, mesmo antes de qualquer julgamento de mérito. Para o clube, o caminho de saída passa por duas frentes simultâneas — a aprovação do plano na CNRD e a celebração do acordo de reestruturação com a Anresf — enquanto os transfer bans da Fifa seguem como obstáculo mais imediato a qualquer movimentação no mercado.



