Pronto. Encontraram o culpado pela dificuldade do futebol brasileiro em revelar jogadores: o estrangeiro. Deve ser um alívio descobrir que o problema veio de avião.
O atleta não chega pronto ao profissional, a formação não entrega o que deveria e a solução é conferir o passaporte de quem está jogando. Convenhamos: é muito mais confortável contar estrangeiros do que admitir os próprios erros.
Primeiro, abriram a porteira. Agora, querem fechá-la e apresentar o cadeado como projeto de formação.
Eu gostaria de saber em que momento vamos discutir o que estamos fazendo com os nossos jogadores. Porque tirar um estrangeiro da súmula é fácil. Difícil é explicar por que o país que ensinou o mundo a improvisar anda formando jogadores com medo de tentar.
A redução do limite de estrangeiros pode abrir vagas. Não tenho dúvida. Minha dúvida é quem vai ocupá-las e com qual preparação. Uma cadeira vazia não produz um jogador. E uma mudança de regulamento não corrige, por milagre, anos de formação mal conduzida.
Falo como ex-jogador que passou por diferentes países e como dirigente que hoje precisa tomar decisões. Conhecer outras culturas me ensinou a respeitar maneiras diferentes de jogar. Também me ensinou que copiar um método sem compreender as pessoas que vão executá-lo é uma excelente maneira de fazer tudo errado com aparência de competência.
O futebol brasileiro construiu uma identidade reconhecida pela técnica, pelo drible, pela capacidade de encontrar soluções inesperadas. Não somos os únicos capazes disso. Mas fizemos dessa criatividade uma marca.
Essa característica tem relação com a nossa cultura. O brasileiro vive resolvendo o que deveria ter sido resolvido ontem. Improvisa, adapta, encontra uma saída. O imediatismo atrapalha o planejamento, evidentemente. Mas a capacidade de reagir ao imprevisto também pode ser uma qualidade.
Dentro de campo, ela virou drible, mudança de direção, passe que ninguém enxergou.
Pois parte dos nossos “estudiosos” parece ter concluído que, para modernizar o jogador brasileiro, era necessário retirar dele justamente aquilo que o tornava diferente.
O atleta precisa ocupar o espaço determinado, executar o movimento combinado, escolher a solução autorizada. Recebe tanta instrução que, daqui a pouco, vai pedir autorização ao auxiliar para dar uma caneta.
Depois, na entrevista, ouvimos que faltou ousadia.
Mas como? Passaram a semana inteira ensinando o jogador a não ousar.
Não estou defendendo desorganização. Joguei futebol profissional por tempo suficiente para saber que talento sem compromisso também acaba no banco. Estou questionando uma formação que confunde disciplina com obediência cega e trata a iniciativa como defeito a ser corrigido.
Aprender com a Europa é necessário. Copiar tudo, sem considerar a nossa realidade, é preguiça com sotaque.
Aliás, nem existe uma Europa que jogue toda da mesma maneira. Há escolas, culturas e características diferentes. Nós é que, às vezes, colocamos tudo dentro de uma pasta chamada “futebol moderno” e acreditamos que o assunto está resolvido.
Quando tentamos formar jogadores brasileiros apenas para reproduzir comportamentos de quem cresceu em outro ambiente, criamos uma contradição. Depois, os clubes contratam atletas acostumados àquele modelo e nós ficamos indignados porque eles encontram espaço por aqui.
Ora, se o modelo exige determinadas respostas, o treinador vai procurar quem as entrega.
E o nosso jogador? Ficou no meio do caminho: perdeu liberdade para desenvolver sua criatividade e ainda não domina aquilo que estão exigindo dele.
A discussão precisa começar muito antes da escalação do profissional.
Precisa começar na infância.
Na minha lembrança, a bola cabia em qualquer intervalo do dia. Havia a quadra, o campinho, a rua, a partida que só terminava quando alguém precisava ir embora levando a bola. Ninguém perguntava qual era o modelo de jogo. Era preciso achar um jeito de ganhar.
Hoje, preocupa-me quanto dessa experiência depende de matrícula, mensalidade, transporte e disponibilidade dos pais. O futsal precisa voltar a ser uma possibilidade próxima e acessível para muito mais crianças.
O talento não pode passar primeiro por uma análise de crédito.
Na quadra, o espaço aperta. O adversário chega. É preciso dominar, proteger, enxergar e decidir. A criança participa o tempo inteiro. Erra e recebe outra bola. Tenta de novo. Descobre uma solução que nenhum adulto precisou desenhar.
Nos jogos reduzidos, acontece algo semelhante. Menos espaço, mais participação, mais problemas para resolver. É ali que podemos estimular a autonomia que depois cobramos no estádio lotado.
Também vale olhar para o trabalho de formação em países africanos. Experiências como a Right to Dream, em Gana, combinam futebol, educação e desenvolvimento pessoal. Há organização e investimento por trás dos talentos que chegam ao mercado internacional. Não basta resumir o sucesso desses jogadores à força física ou ao lugar onde nasceram.
O talento precisa de oportunidade, contato com a bola e um caminho para se desenvolver.
Por aqui, às vezes parece que estamos esperando o próximo atleta capaz de pagar todas as contas.
Um Endrick. Um Estêvão. Uma transferência extraordinária. São jogadores que merecem reconhecimento, assim como quem participou da formação deles. Mas uma exceção não pode servir de desculpa para deixar de avaliar o restante do trabalho.
Por que discutimos tanto a venda de um jogador por 50 milhões de euros e tão pouco a formação de dez capazes de valer 10 milhões cada?
Os números são uma provocação, não uma promessa de negócio. O ponto é saber se estamos construindo uma produção consistente de bons jogadores ou apostando todas as fichas no aparecimento de um fenômeno.
Há clube tratando a base como lotérica. Com a diferença de que o bilhete faz treino em dois turnos.
Defendo que, até os 13, 14 anos, a formação dê muito espaço ao futsal, aos jogos reduzidos e à experimentação. Com orientação, evidentemente, mas também com liberdade para que a criança encontre respostas próprias.
Quando falo em recuperar o campinho “esburacado”, refiro-me à necessidade de adaptação que aquele ambiente impunha. Podemos recriar desafios com segurança, mudando espaços, regras e situações. Ninguém precisa fabricar buracos para fabricar jogadores.
A partir dos 15 anos, vejo espaço para ampliar progressivamente as exigências do alto rendimento, respeitando a maturação de cada atleta. Intensidade, responsabilidade, preparação e compreensão coletiva devem organizar o repertório que ele construiu.
E depois é preciso deixá-lo jogar.
Porque defender a base no microfone e condenar um atleta na primeira bola perdida é outra especialidade nacional. O dirigente pede oportunidade, o treinador coloca, a torcida vaia, o dirigente se assusta e o treinador tira. Na segunda-feira, todos voltam a perguntar por que a base não revela ninguém.
É uma reunião de inocentes com um culpado de 18 anos.
Reduzir estrangeiros pode fazer parte de uma política. Sozinho, porém, o limite não melhora um treino, não recupera uma quadra e não prepara um jogador para decidir uma partida.
Podemos mudar a quantidade de passaportes no vestiário. Se continuarmos formando do mesmo jeito, a dificuldade permanecerá.
Mas, quando isso acontecer, quem sabe encontrem outro culpado.
O brasileiro, por exemplo.
Vitor Hugo Manique de Jesus
Presidente, proprietário e CEO do Monsoon FC.
Empresário, ex-jogador profissional, com cerca de 15 anos de carreira como atleta e experiência em diferentes mercados internacionais, construiu posteriormente sua trajetória na gestão e nos negócios do futebol. Fundador da plataforma YouPro, atua no desenvolvimento de um clube-empresa, formação e valorização de atletas, infraestrutura esportiva, geração de receitas, investimentos e novos modelos de gestão para o futebol brasileiro.
Na Sou SAF, compartilha uma visão prática sobre os desafios de administrar um clube no Brasil, formação e negociação de atletas, sustentabilidade financeira, captação de investimentos, profissionalização da gestão e transformação do futebol em um negócio capaz de gerar valor esportivo, econômico e social.



