A Lei da SAF (Lei Nº 14.191 de 2021) completa 5 anos em agosto de 2026. De lá pra cá, temos mais de 130 SAFs por todo o Brasil. Desse número, apenas duas estão no Rio Grande do Sul.
Entre os vizinhos do sul, de acordo com último levantamento da IBESAF (Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento da Sociedade Anônima do Futebol), realizado em dezembro de 2025, temos 11 clubes em Santa Catarina constituídos como SAF, além de 15 no Paraná.
O cenário tímido das SAFs no Rio Grande do Sul é marcado pela existência do Clube Futebol com Vida SAF e do Grêmio Esportivo Brasil (Brasil de Pelotas).
O Futvida foi fundado em 2022 e já nasceu sendo uma Sociedade Anônima de Futebol. O projeto, com sede em Viamão e Três Passos, é focado no treinamento e na formação de atletas de futebol, motivo pelo qual conta com categorias de base, futebol feminino e também profissional. Em 2026, o elenco profissional disputará a Terceirona Gaúcha, após o abandono do Futebol com Vida no campeonato Gaúcho A2 de 2025 que resultou em seu rebaixamento.
O Brasil de Pelotas, por outro lado, é um clube centenário que teve sua transformação para SAF (cisão do departamento de futebol) aprovada em outubro de 2025, mediante votação em Assembleia Geral dos sócios. A proposta previa a aquisição de 90% do capital da futura SAF, mantendo 10% ao clube associativo. Tudo isso ocorria em meio a uma Recuperação Judicial que já estava aprovada pela Justiça.
Atualmente, apesar da criação da SAF e do acordo de aquisição de 90% das ações pelo Consórcio Xavante, liderado pelo ex-atleta e empresário Emerson Ferreira da Rosa, o clube ainda enfrenta entraves jurídicos, diante da necessidade de aval judicial em razão do seu processo de Recuperação Judicial.
No resto do Estado, temos um cenário extremamente embrionário ou não favorável para a transformação em SAF. O Grêmio está com nova Direção e Conselho Deliberativo, que já demonstraram publicamente seu interesse em manter o modelo associativo. O Internacional, em agosto de 2025, anunciou uma comissão especial para estudar e avaliar o modelo da SAF, todavia, não realizou grandes avanços.
O Juventude realizou negociações em 2024, com o grupo de investimento espanhol Five Eleven Capital, em que o jogador Sérgio Ramos é integrante. Na época, notícias do Globo Esporte informaram que a proposta girava em torno de 400 milhões de reais e visava a aquisição de 90% das ações de uma futura SAF. A negociação não andou e o clube segue sendo associativo até hoje.
O Caxias, recentemente, anunciou a contratação de uma consultoria especializada que ficará responsável pela condução técnica e jurídica de toda a constituição de sua SAF. Os trâmites ocorrem após aprovação da viabilidade da SAF pelo seu Conselho Deliberativo, de outubro de 2024, e será através da cisão do departamento de futebol, sem ceder seus bens patrimoniais.
Sem a intenção de esgotar todos os retrospectos envolvendo o subtipo societário da SAF no Estado, percebemos um ambiente acanhado e ainda sem grandes discussões.
Nesse sentido, por amor ao debate, podemos levantar alguns questionamentos para análise desse cenário tímido de SAFs no RS: Há um desinteresse dos investidores no mercado do futebol gaúcho? A estrutura jurídica e as alterações trazidas com a Lei Nº 14.191 de 2021 não são atrativas para os clubes gaúchos? De alguma forma a gestão e o posicionamento dos grandes clubes do Estado sobre o assunto impactam o restante?
Essas são algumas das indagações que podemos realizar ao tratar do assunto. De toda sorte, a legislação está sofrendo alterações, com isso, novas regras de governança, transparência e proteção a investidores podem fomentar o debate e possibilitar análise de um cenário diferente no futuro.
Lucca Gavião
Advogado com atuação na área do futebol. Pós-graduação em Direito Desportivo e atualmente está como advogado do Sport Clube Gaúcho, clube associativo do interior do RS, na cidade de Passo Fundo. Nesta coluna aborda temas sobre questões contratuais, trabalhistas e disciplinares do futebol, bem como assuntos pertinentes à gestão esportiva e SAFS.



