O futebol brasileiro não quebrou por falta de talento. Quebrou por falta de gestão.
Durante décadas, naturalizamos o improviso. Presidentes sem formação empresarial. Conselhos capturados por vaidades. Dívidas tratadas como detalhe contábil.
E, enquanto isso, elencos milionários convivendo com salários atrasados, execuções fiscais e bloqueios judiciais.
A criação da Sociedade Anônima do Futebol, por meio da Lei nº 14.193/2021, não surgiu por acaso. Ela é resposta a um colapso estrutural.
Mas é aqui que começa o ponto central desta coluna:
SAF não é milagre. SAF é método.
A lei permite que clubes se reorganizem sob lógica empresarial, com governança, conselho de administração, responsabilidade fiscal e regras claras de pagamento de passivos.
Estabelece mecanismos de destinação de receitas para dívidas e cria ambiente mais seguro para investimento. Isso é avanço institucional.
Eu já escrevi sobre isso ao analisar a estrutura da lei e seus instrumentos de preservação da identidade dos clubes (Lei nº 14.193/2021; LOPES, Gustavo. Entendendo a Lei da SAF: uma nova era para o futebol brasileiro, 2024).
O modelo não ignora a história. Ele cria instrumentos para protegê-la enquanto profissionaliza a gestão.
O problema é que parte da discussão pública foi sequestrada por narrativas simplistas:
- “Venderam o clube.”
- “Acabou a tradição.”
- “Agora é só dinheiro.”
Não. Agora é governança.
A diferença é brutal.
Associação civil é modelo vocacionado à representação social. Empresa é modelo vocacionado à eficiência econômica.
Futebol profissional movimenta bilhões. Direitos de transmissão, patrocínios, naming rights, plataformas digitais, apostas regulamentadas, fundos de investimento.
Continuar administrando isso como se fosse clube recreativo é irresponsabilidade.
E aqui vai um ponto que incomoda: Transparência assusta quem sempre operou na sombra.
A SAF obriga prestação de contas, demonstrações financeiras, conselho fiscal atuante, responsabilização de gestores. Não é confortável para quem se beneficiava da opacidade.
Mas também não podemos cair no erro inverso. Transformar-se em SAF não imuniza contra incompetência.
Existem projetos estruturados e existem aventuras societárias. Existe investidor estratégico e existe oportunismo financeiro.
SAF exige:
- Governança real.
- Planejamento esportivo.
- Controle orçamentário.
- Gestão de pessoas qualificada.
- E, principalmente, cultura institucional.
No livro Gerindo Campeões, defendemos que não se constrói equipe vencedora sem método, liderança e organização (LOPES, Gustavo. Gerindo Campeões, 2023).
A lógica é a mesma fora de campo. Clube campeão não nasce do acaso. Nasce de estrutura.
O torcedor precisa entender algo fundamental: paixão sem gestão gera frustração. Gestão sem identidade gera rejeição. O desafio é equilibrar os dois.
A SAF não elimina a alma do clube. Ela exige maturidade do clube.
Estamos diante de uma encruzilhada histórica. Ou profissionalizamos definitivamente o futebol brasileiro, ou continuaremos exportando talentos e importando crises.
Esta coluna nasce com um compromisso claro: Debater futebol com seriedade jurídica, econômica e institucional.
Sem populismo. Sem discurso fácil. Sem romantização irresponsável.
Porque futebol é paixão. Mas também é contrato, estatuto, governança e responsabilidade.
E quem não entender isso continuará confundindo arquibancada com assembleia.
Gustavo Lopes Pires de Souza
Palestrante, professor e consultor especializado em Direito Desportivo, governança e estruturação de SAFs. Doutor honoris causa em Gestão e Mestre em Direito Desportivo, atua na assessoria estratégica de clubes, investidores e entidades esportivas. Desenvolve projetos de reorganização societária, compliance e blindagem patrimonial, com foco em sustentabilidade e segurança jurídica no futebol. Na Sou SAF, assina colunas sobre governança, responsabilidade jurídica nas SAFs, riscos regulatórios e os impactos institucionais da transformação do futebol brasileiro.



