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Dívidas bilionárias e SAFs: O paradoxo financeiro atual do futebol brasileiro

O futebol brasileiro vive uma contradição que já não pode mais ser ignorada. Nunca o setor arrecadou tanto e, ao mesmo tempo, nunca esteve tão endividado.

Os números de 2025 deixam isso evidente. Segundo levantamento da EY, os clubes da Série A somaram R$ 14,9 bilhões em receitas, um crescimento expressivo de 33% em relação ao ano anterior. No entanto, a dívida consolidada acompanhou o movimento e atingiu R$ 14,3 bilhões, alta de 15% no mesmo período. 

O resultado é um cenário paradoxal: crescimento acelerado, mas sem equilíbrio estrutural.

No topo dessa nova economia do futebol estão Flamengo e Palmeiras. O clube carioca tornou-se o primeiro do país a ultrapassar a marca de R$ 2 bilhões em faturamento anual, alcançando cerca de R$ 2,089 bilhões em 2025. Já o Palmeiras seguiu na mesma direção, com receitas próximas de R$ 1,7 bilhão, consolidando-se como a segunda maior força financeira do país. 

São números que colocam o futebol brasileiro em um novo patamar global, mas que, isoladamente, não contam toda a história.

O outro lado da moeda está no endividamento. Corinthians, Atlético-MG, São Paulo e Botafogo acumulam passivos bilionários, liderando o ranking das maiores dívidas do país. 

No caso do Corinthians, o passivo já gira em torno de R$ 2,75 bilhões. O Atlético-MG aparece logo atrás, com cerca de R$ 2,66 bilhões, enquanto o Botafogo supera R$ 2 bilhões, com grande parte das obrigações concentradas no curto prazo. 

Ou seja: mesmo em um momento de receitas recordes, parte relevante dos principais clubes opera sob forte pressão financeira.

Foi nessa realidade que as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) ganharam espaço, apresentadas como uma solução para romper com o histórico de gestão desequilibrada. A promessa era trazer governança, capital e disciplina financeira para o futebol.

De fato, houve avanços. Clubes como Botafogo, Cruzeiro, Vasco, Bahia e Atlético-MG conseguiram ampliar investimentos, profissionalizar estruturas e elevar seu nível de competitividade. Em alguns casos, os resultados esportivos vieram rapidamente.

Mas os balanços mostram que a equação ainda não fechou.

Diversos clubes que adotaram o modelo SAF registraram déficits relevantes em 2025, reflexo direto de uma estratégia baseada em aportes elevados e aceleração do desempenho esportivo. O Botafogo, por exemplo, ampliou significativamente seus investimentos após a entrada de capital e a conquista de protagonismo, mas viu a pressão sobre seu passivo crescer na mesma proporção.

Esse comportamento faz parte de uma lógica típica de mercado: investir antes para colher depois. O problema é que, no futebol, esse “depois” depende de um fator altamente volátil, o resultado dentro de campo.

E é justamente aí que mora o risco.

Enquanto algumas SAFs apostam em crescimento acelerado, outros clubes mostram que o diferencial pode estar menos no modelo jurídico e mais na qualidade da gestão. Flamengo e Palmeiras são os exemplos mais claros disso.

Além de liderarem em receita, apresentam níveis de endividamento muito mais controlados. No caso do Flamengo, a dívida líquida gira em torno de R$ 473 milhões, o que representa apenas 0,4 vez sua receita anual, um índice considerado confortável para padrões de mercado. 

Isso evidencia um ponto central: gerar receita é importante, mas gerir bem continua sendo decisivo.

O futebol brasileiro entrou definitivamente na era do bilhão. Direitos de transmissão, premiações internacionais, patrocínios e transferências de atletas transformaram o setor em uma indústria robusta. Mas esse crescimento veio acompanhado de uma escalada de custos, investimentos e, principalmente, endividamento.

O desafio agora não é mais crescer e sim sustentar esse crescimento.

As SAFs representam, sem dúvida, um avanço relevante ao trazer novas práticas e acesso a capital. Mas os dados mostram que não existe solução estrutural capaz de substituir gestão eficiente, controle de gastos e planejamento de longo prazo.

O futebol brasileiro já provou que sabe gerar dinheiro. Falta provar que sabe administrá-lo.

No fim das contas, o jogo continua sendo decidido nos detalhes. Mas, cada vez mais, esses detalhes estão fora das quatro linhas.

E hoje, no futebol brasileiro, equilíbrio financeiro pode ser tão decisivo quanto um gol aos 45 do segundo tempo.

Adalton França de Oliveira

Administrador, pós-graduado em Gestão de Negócios e Economia, com MBA Executivo em Liderança e Inovação e MBA em Jornalismo. Atua como executivo de Pré-Venda na Tecban, acumulando mais de 10 anos de experiência nos setores financeiro, tecnologia e serviços. Escreve sobre gestão, economia, inovação, educação e tecnologia.

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