O folclore popular e o imaginário se unem na camisa alvinegra do XV de Piracicaba. Se há um clube que melhor representa o interior paulista, esse clube é o Nhô Quim. Seu hino popular, com versos marcantes como “caixará de forfre”, “cuspere de grilo” e o irreverente “Já que tá que fique. XV, crá, crá, crá!”, há décadas une torcida, história e identidade caipira.
A Origem da SAF
A Sociedade Anônima do Futebol do XV de Piracicaba foi constituída em 15 de agosto de 2022, inscrita no CNPJ sob o nº 48.845.115/0001-03, conforme a Lei nº 14.193/21. Durante quase três anos, 100% das ações permaneceram com o clube associativo — o modelo existia apenas no papel.
Em abril de 2025, os sócios aprovaram por unanimidade, em Assembleia Geral, a abertura para investidores externos. Pouco depois, o XV conquistou a Copa Paulista 2025, vencendo o Primavera por 2 a 0 no Barão da Serra Negra, e garantiu vaga na Série D do Brasileiro de 2026.
Primeira tentativa frustrada
Em dezembro de 2025, o Conselho chegou a aprovar a cessão de 90% das ações para os grupos CFAW Brasil e Dry Telecom, com investimento previsto de R$ 175 milhões em dez anos. No entanto, o acordo não foi para frente e acabou não se concretizando.
A reviravolta definitiva
A virada aconteceu no final de maio de 2026. Em reunião do Conselho Deliberativo, os conselheiros aprovaram por unanimidade a cessão de 90% das ações da SAF para o grupo formado pelo Grupo Carraro, VX Consult and Services Ltda e CSA Participações e Investimentos em Negócios Ltda.
A associação civil do XV manterá 10% das ações, preservando participação simbólica e estratégica. O acordo inclui cláusulas de salvaguarda que garantem a manutenção da história, identidade visual, cores tradicionais e símbolos do clube.
Os números do acordo
O novo investimento previsto é de R$ 227 milhões ao longo de dez anos, o que representa média de R$ 22,7 milhões por temporada. O orçamento anual do clube, que historicamente girava entre R$ 8 e R$ 9 milhões, deve subir consideravelmente.
Quanto vale o XV de Piracicaba? Um raio-X do valuation real do Nhô Quim
O problema central do XV sempre foi o patrimônio intangível. Como o próprio presidente Matheus Bonassi declarou durante as negociações: “O XV não tem bem material. Nós não temos centro de treinamento, uma sede social. O nosso patrimônio é intangível.”
Análise dos principais componentes:
- Estádio Barão da Serra Negra: Pertence à Prefeitura de Piracicaba. O terreno de 48.767,52 m² em área central teria valor estimado entre R$ 80 e R$ 120 milhões, mas não integra o balanço do clube.
- Centro de Treinamento: Não existe estrutura própria. Parte dos recursos da SAF deve ser destinada à construção de um novo CT.
- Elenco: Valor de mercado agregado modesto, estimado entre R$ 5 e R$ 8 milhões (fonte: Transfermarkt).
- Dívidas: Estimadas em R$ 12,5 milhões, em processo de recuperação judicial.
- Receita Operacional: Antes da SAF, entre R$ 8 e R$ 9 milhões anuais.
Considerando todos esses fatores, o valuation implícito do clube, após a aprovação da SAF, fica na faixa de R$ 20 a 35 milhões.
Efeitos de ser SAF nesse cenário
A transformação em SAF representa muito mais que uma simples injeção de capital: é uma mudança estrutural de governança. Com R$ 227 milhões comprometidos em dez anos, o XV sai de um patamar amador para um modelo empresarial profissional.
Projeções realistas:
- Folha salarial: deve subir de R$ 400-500 mil/mês para R$ 900 mil a R$ 1,3 milhão mensais, permitindo brigar por acesso à Série C.
- Estrutura: Previsão de construção de CT (estimativa de R$ 15-30 milhões) e retrofit do Barão da Serra Negra em parceria com o poder público.
- Receitas próprias: Podem crescer para R$ 15-18 milhões anuais até 2028, caso o desempenho esportivo seja positivo.
Diferente de grandes clubes que vendem ativos físicos, os investidores estão apostando principalmente no intangível: 113 anos de tradição, seis títulos da A2 Paulista, o título da Série C de 1995, base de torcedores em uma cidade de mais de 400 mil habitantes e forte apelo regional.
Sem a SAF, seria praticamente impossível ao XV construir CT e modernizar o estádio com recursos próprios. O modelo empresarial traz previsibilidade financeira, governança profissional e capacidade de atrair novos talentos — algo raro no interior paulista.
A novela iniciada em 2022 parece ter encontrado finalmente um rumo. Resta agora acompanhar se os R$ 227 milhões prometidos serão de fato executados e se transformarão em resultados dentro e fora de campo a partir de 2027.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



