A estruturação do futebol brasileiro sob o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) trouxe transformações profundas na forma como as instituições esportivas são geridas, mas também impôs uma nova camada de complexidade administrativa. Bruna Rocha, advogada e diretora jurídica do Cruzeiro há dois anos, apresentou um diagnóstico detalhado sobre os principais obstáculos enfrentados pela agremiação mineira nesse cenário. Ela foi uma das palestrantes do painel “SAF, governança e crises financeiras no futebol: fiscalização e intervenção do Ministério Público”, realizado durante o evento “Futebol em Jogo: Segurança, Direitos e Governança”, promovido pelo MP em Belo Horizonte.
O primeiro grande desafio apontado reside na esfera financeira e operacional. O futebol é classificado como uma atividade altamente inflacionada, o que demanda uma engenharia orçamentária precisa. Para o Cruzeiro, o desafio central é equalizar os investimentos necessários para manter um elenco competitivo com o fluxo de despesas recorrentes do cotidiano. A manutenção de um padrão de disputa elevado é vista como uma engrenagem essencial para a geração de receitas dentro do próprio negócio, criando um ciclo onde o investimento técnico é o motor da sustentabilidade econômica.
Além dos números, a gestão de uma SAF precisa lidar com a instabilidade intrínseca ao ambiente esportivo. O negócio do futebol é sensível a externalidades e à imprevisibilidade do desempenho em campo, onde o resultado de uma partida pode alterar drasticamente o impacto do dia a dia institucional. Essa característica exige que os gestores exerçam uma racionalidade aguçada para conduzir o negócio em meio a um ambiente regido por emoções e pressões externas.
A capacidade de gerir o “caos” que caminha junto com a paixão do torcedor é um diferencial estratégico. Para quem está à frente da administração, a missão é filtrar a passionalidade para garantir que as decisões estratégicas não sejam contaminadas pela volatilidade dos resultados momentâneos. Essa postura é fundamental para assegurar a continuidade do planejamento a longo prazo, independentemente das oscilações que o jogo possa apresentar.
Segurança jurídica e o ambiente regulatório das SAFs
No campo jurídico, o cenário ainda é de adaptação e enfrentamento de instabilidades regulatórias. Um dos pontos de maior atenção para a diretoria jurídica do Cruzeiro é a questão da responsabilização. Sendo uma das instituições pioneiras na adoção do modelo de SAF no Brasil, o clube monitora de perto o ambiente legal para garantir que a separação entre o clube associativo e a empresa seja respeitada, especialmente no que diz respeito às dívidas contraídas antes da transição ocorrida em 2021.
A segurança jurídica é vista como o alicerce para que novos investimentos continuem chegando ao futebol nacional. O caso do Cruzeiro serve como um parâmetro importante para o mercado, demonstrando como a blindagem jurídica adequada pode permitir que o departamento de futebol se reestruture sem ser asfixiado por passivos históricos. O amadurecimento desse ambiente regulatório é considerado essencial para que o modelo de clube-empresa se consolide definitivamente como uma solução viável e segura para o desenvolvimento do esporte no país.
Fonte: O Tempo.



