A chegada das SAFs ao futebol brasileiro trouxe uma mudança que vai muito além da estrutura financeira. Ela alterou a lógica de poder dentro dos clubes.
Hoje, em muitos casos, a grande pergunta deixou de ser apenas “quem investe?” e passou a ser: quem realmente decide os rumos do futebol?
O caso recente da SAF do Botafogo expos justamente esse conflito entre gestão empresarial, interesses societários e a identidade histórica dos clubes.
A SAF mudou o futebol, mas não apagou a cultura de clube
A Lei da SAF (Lei nº 14.193/2021) criou um novo modelo para o futebol brasileiro: transformar departamentos de futebol em empresas, com regras societárias, investidores, governança corporativa e lógica de mercado. Na teoria, o modelo busca profissionalizar a gestão, atrair capital e reduzir o amadorismo histórico do futebol brasileiro.
Mas existe um ponto essencial: clubes de futebol não são empresas comuns. Eles carregam história, identidade, pressão popular, influência política e vínculo emocional com milhões de torcedores. E é justamente aí que nasce o conflito. Porque enquanto investidores pensam em eficiência, sustentabilidade e retorno, o ambiente do futebol continua sendo movido também por paixão, tradição e disputa de poder.
O caso Botafogo expôs um problema maior
Nos últimos meses, a SAF do Botafogo viveu uma crise que ultrapassou o aspecto financeiro e revelou uma disputa sobre controle, governança e legitimidade das decisões.
O clube entrou em recuperação judicial com uma dívida bilionária, enquanto disputas envolvendo John Textor, Eagle Football, arbitragem e representação societária passaram a levantar questionamentos importantes: afinal, quem tem o poder de decisão dentro de uma SAF?
A situação se tornou ainda mais complexa após decisões arbitrais afastarem temporariamente John Textor do comando da SAF, ao mesmo tempo em que discussões sobre assembleias, controle acionário e representação institucional passaram a ocupar o centro do debate.
Na prática, o caso mostrou algo importante: no futebol, possuir participação societária nem sempre elimina disputas sobre legitimidade, comando e influência política.
O futebol virou empresa, mas continua sendo futebol
A SAF introduziu conceitos empresariais fundamentais: governança, conselho de administração, compliance, responsabilidade financeira e proteção patrimonial.
O problema é que, muitas vezes, esses mecanismos chegam a um ambiente historicamente marcado por decisões emocionais, disputas políticas internas e relações pouco profissionalizadas.
Enquanto a lógica empresarial exige previsibilidade e hierarquia decisória, a cultura tradicional do clube frequentemente funciona baseada em pressão externa, influência política e cobrança imediata por resultados.
E quando esses dois mundos não conseguem coexistir de forma equilibrada, surgem crises institucionais como as que o Botafogo enfrenta hoje.
Quem manda: o investidor, o clube ou a estrutura?
O caso Botafogo também trouxe uma discussão jurídica importante sobre governança nas SAFs. Afinal, quem pode convocar assembleias? Quem possui legitimidade para determinadas decisões? Até onde vai o poder do investidor? Qual o papel do clube associativo após a venda da SAF? Quem responde em momentos de crise financeira ou recuperação judicial?
Essas perguntas mostram que a SAF não elimina conflitos, ela apenas muda a forma como eles acontecem. E é justamente por isso que contratos bem estruturados, regras claras de governança e definição precisa de competências se tornam tão importantes.
Sem isso, a disputa deixa de ser apenas esportiva e passa a comprometer a estabilidade institucional do clube.
Recuperação judicial, disputas societárias e o impacto dentro de campo
O caso Botafogo também mostrou como mecanismos típicos do ambiente empresarial passaram a fazer parte da realidade do futebol brasileiro. Recuperação judicial, arbitragem societária, controle acionário, proteção patrimonial e conflitos entre holdings deixaram de ser temas restritos ao mundo corporativo e passaram a integrar o cotidiano dos clubes-empresa.
Isso evidencia que o futebol brasileiro entrou, definitivamente, em uma nova era. Mas também revela um desafio importante: muitos clubes ainda estão aprendendo a lidar com estruturas empresariais complexas enquanto tentam preservar sua identidade esportiva e institucional.
E os efeitos dessas disputas não ficam apenas nos bastidores. Quando existe instabilidade institucional, o impacto ultrapassa reuniões de conselho e processos judiciais. Ele chega ao elenco, à comissão técnica, ao ambiente interno e, inevitavelmente, ao desempenho esportivo.
Incertezas sobre comando, crises financeiras, disputas societárias e mudanças constantes de direção geram insegurança, desgaste emocional e perda de estabilidade. E no futebol de alto rendimento, estabilidade também é performance.
A grande lição das SAFs
O debate sobre SAF nunca foi apenas sobre dinheiro. É sobre governança, estrutura, segurança jurídica e alinhamento entre projeto esportivo e gestão empresarial.
O caso do Botafogo mostrou que investimento sem organização pode gerar crescimento rápido, mas também ampliar conflitos na mesma velocidade. Porque no futebol, como em qualquer negócio, não basta profissionalizar no papel.
É preciso construir uma estrutura capaz de sustentar decisões, proteger o projeto e equilibrar interesses que, muitas vezes, caminham em direções diferentes.
E talvez esse seja o maior desafio das SAFs no Brasil: transformar clubes em empresas sem perder a essência que fez deles clubes.
Fabiana Nardini
Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.



