Um laudo de avaliação econômica da SAF Botafogo, elaborado pela Meden Consultoria e divulgado pelo clube, revela um cenário de desequilíbrio financeiro grave. O relatório aponta um passivo circulante – dívidas a serem quitadas em até 12 meses – de R$ 1,643 bilhão, além de um passivo não circulante de R$ 1,110 bilhão, totalizando R$ 2,753 bilhões em obrigações. O patrimônio líquido negativo de R$ 427,2 milhões sinaliza que, mesmo com a venda de todos os bens, os recursos não cobririam as pendências.

Em 2025, a receita operacional bruta alcançou R$ 655 milhões, proveniente de direitos de transmissão, premiações esportivas, programa de sócio-torcedor, exploração comercial da marca e bilheteria. No entanto, os custos e despesas operacionais somaram R$ 892 milhões, resultando em prejuízo operacional de R$ 287 milhões. Esse resultado se soma a perdas anteriores: R$ 56 milhões em 2023 e R$ 300 milhões em 2024. A análise atribui o rombo à estrutura de custos elevada, ligada ao fortalecimento do elenco e à busca por maior competitividade, sem que o crescimento de receitas compensasse os dispêndios e pagamentos de passivos financeiros, fiscais e trabalhistas.
A receita com transações de direitos de atletas foi crucial, registrando R$ 733,3 milhões em 2025 – salto em relação aos R$ 96 milhões do ano anterior –, tornando-se o principal pilar de sustentação. O laudo destaca obrigações decorrentes de vendas frustradas de Luiz Henrique, Thiago Almada, Igor Jesus e Savarino ao Lyon, cujos contratos geraram a necessidade de repasse de valores ao clube francês após negociações com outros times. Há ainda R$ 607 milhões a receber da Eagle Bidco, subsidiária da Eagle Football sob administração judicial.

Projeções conservadoras para a próxima década indicam afastamento da elite continental: ausência da competição entre 2027 e 2035. No Brasileirão, campanhas entre 7ª e 12ª posições; na Copa do Brasil e Sul-Americana, chegadas recorrentes às quartas de final. Essa performance modesta limita receitas de premiações e bilheteria, com dependência crescente de vendas de atletas para margens operacionais positivas e equilíbrio de custos fixos. Jogadores como os meias Danilo e Álvaro Montoro podem ser negociados já na janela de julho.
O passivo circulante inclui R$ 880,7 milhões com fornecedores, tributos e partes relacionadas. A SAF enfrenta atraso em parcela de R$ 1,4 milhão do Regime Centralizado de Execuções (RCE), para dívidas trabalhistas, sujeita a multa de 20% imediata, 50% em dois meses e expiração do acordo em três meses, com risco de penhora de bens.
Em resposta ao quadro, John Textor convocou Assembleia Geral Extraordinária para 20 de abril, propondo aumento de capital social em R$ 125 milhões via emissão de novas ações, atrelado a aporte próprio de US$ 25 milhões. A convocação foi enviada ao Botafogo de Futebol e Regatas e ao administrador judicial da Eagle Bidco, garantindo participação e voto deste último, apesar de controvérsia jurídica. A SAF descreve a medida como via transparente para superar desafios, priorizando salários, fornecedores e serviços essenciais em meio à crítica financeira.
O Botafogo acumula restrições e a divulgação do laudo, junto à AGE, pressiona por soluções urgentes em um calendário com Sul-Americana e Copa do Brasil, onde a sustentabilidade depende de refinanciamento e vendas estratégicas para evitar continuidade de prejuízos e riscos operacionais.



