A CBF mudou o tratamento do futebol brasileiro em relação às redes multiclubes e passou a impor limites objetivos para evitar que um mesmo dono tenha controle ou influência relevante sobre mais de um clube em situações que possam afetar a integridade esportiva. A novidade está no novo Manual de Competições — documento que, a partir de 2026, substitui o antigo Regulamento Geral de Competições (RGC) e passa a orientar a administração das competições organizadas pela entidade.
As diretrizes aparecem no artigo 2.2.1, sob o título “Da Vedação à Multipropriedade de Clubes”, e têm um objetivo claro: coibir a influência de um mesmo proprietário em dois ou mais clubes dentro do mesmo ecossistema competitivo, seja na mesma competição, seja em divisões conectadas por acesso e rebaixamento.
O que passa a ser vedado em 2026
A partir desta temporada, as regras serão aplicadas aos clubes das Séries A, B e C. Como regra geral, fica proibido que qualquer pessoa — física ou jurídica — detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube, se ambos, na mesma temporada:
- Disputarem ou forem elegíveis para disputar a mesma edição de qualquer competição profissional organizada pela CBF; ou
- Estiverem em divisões do Campeonato Brasileiro que tenham relação direta de acesso e rebaixamento entre si.
O ponto central é o conceito de “influência significativa”, definido de forma ampla: envolve quem tem capacidade de dirigir políticas financeiras ou operacionais do clube. E há um detalhe importante: influência por cônjuges e familiares também entra no radar para apuração.
Na prática, isso evita que dois clubes dentro do mesmo campeonato — ou dentro de uma mesma “cadeia” de divisões conectadas — tenham o mesmo comando, ainda que por estruturas societárias diferentes.
Fiscalização com ANRESF e possibilidade de punições
A CBF não pretende deixar a regra no papel. O Manual prevê atuação conjunta da entidade com a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para identificar eventuais infrações.
Caso seja identificada irregularidade, o texto prevê que podem existir sanções administrativas e esportivas. Ou seja, não é apenas um alerta: existe previsão de consequências práticas para quem descumprir os limites definidos.
“Efeito John Textor” como referência de risco
O Manual busca evitar no Brasil um problema que já apareceu fora do país: dois clubes ligados à mesma rede multiclubes competindo (ou tentando competir) no mesmo torneio. Um caso citado como exemplo é o cenário que envolveu o Crystal Palace. O clube inglês foi julgado no Tribunal Arbitral do Esporte, e foi impedido de jogar a Liga Europa pelo envolvimento de John Textor com a equipe e com o Lyon; Nottingham Forest ficou com a vaga. Naquele contexto, a equipe inglesa foi “rebaixada” para a Conference League.
A lógica por trás da medida é impedir que o futebol brasileiro precise lidar com decisões desse tipo por conflito de propriedade/influência entre clubes.
Nesse pano de fundo, John Textor — que foi afastado do comando da Eagle nesta quarta-feira, mas ainda mantém o controle da SAF do Botafogo — aparece como um personagem que ajuda a entender o que o regulamento tenta prevenir: um mesmo grupo com poder de decisão sobre mais de uma equipe em ambiente de competição direta.
Se houver conflito, quem decide quem joga?
O Manual também antecipa o que acontece se a regra for violada: se dois ou mais clubes estiverem sob o controle de uma mesma holding (ou sob influência direta do mesmo dono) e caírem em situação de conflito, apenas um poderá ser admitido na competição.
Nesse cenário, caberá à Diretoria de Competições da CBF (DCO) definir, com base em critérios técnicos, qual equipe será admitida.
Redes multiclubes continuam possíveis — com limites
A mudança não elimina a possibilidade de redes multiclubes no país. Clubes podem seguir pertencendo a grupos, e novas operações podem surgir. O que a CBF faz é delimitar quando essa multipropriedade vira problema esportivo.
Um exemplo de rede citada é a Squadra Sports, fundada em 2024, com cinco ativos no portfólio:
- Londrina (via SAF), vice-campeão da Série C;
- Linense (via Sociedade Anônima comum, S.A.);
- O time de base VF4-PB;
- Administração das categorias inferiores de Ypiranga-BA e Conquista-BA.
A rede foi fundada por Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia e responsável por selar o acordo que colocou o clube no guarda-chuva do City Football Group no passado. Hoje, não há conflito direto porque Londrina e Linense não disputam as mesmas competições nacionais. Ainda assim, a própria expansão de vagas da Copa do Brasil é apontada como um fator que pode gerar desafios no futuro, caso o regulamento seja mantido como está.
Fonte: Trivela.



