Começamos mais uma temporada do futebol brasileiro e entre especulações sobre quais serão os times que despontarão como favoritos, surgem também as transferências milionárias de jogadores e as brigas dos clubes para montagem dos elencos.
Para os torcedores sobram os sonhos e desejos de verem seus times fortes e disputando títulos. Nunca foi tão intensa a participação do torcedor na vida econômica, política e financeira dos clubes de futebol. A internet se tornou um programa de debates esportivo onde todo mundo opina sobre futebol, não mais sobre o resultado do campo, como também no resultado da gestão dos dirigentes dos clubes.
Mesmo clubes SAF como Botafogo, Vasco, Atlético Mineiro e Cruzeiro veem seus torcedores criticar ou elogiar as posturas dos CEO’s e responsáveis pela gestão do futebol. Atletas não ficam de fora. O caso do Gabigol é mais um exemplo de que a falta de comprometimento com o clube agora traz consequências. Ao bater o penalty de forma displicente na semifinal da Copa do Brasil contra o Corinthians, o jogador viu sua permanência no clube mineiro ficar insustentável e vai buscar novos ares no Santos.
O torcedor com certeza vai ser parte dos clubes cada vez mais, independente se será um clube empresa ou não. É importante que quem comande o futebol fique atento aos interesses da marca que defende ao ponto de prever nos contratos com jogadores e comissões técnicas métricas de resultado esportivo que visem o comprometimento do profissional com as estratégias do clube.
Em qualquer empresa séria, os profissionais precisam trazer resultados e demonstrar comprometimento com a visão, os valores e a missão das instituições e isso também tem que ser aplicado ao futebol. Os profissionais do futebol não podem se sentar nos contratos milionários enquanto o time sofre com a falta de comprometimento dos atletas e demais profissionais. Isso também serve para os dirigentes e gestores.
No ano passado vimos o Corinthians ganhar duas taças às custas da falência do clube que até a edição deste artigo não pagou o transferban e não pode iniciar seu planejamento esportivo. Temos agora o escândalo envolvendo o São Paulo que com certeza vai impactar no seu calendário esportivo.
O caso do Botafogo que também possui um transferban ativo é um pouco diferente já que lá o dono da SAF terá de responder pelas dívidas com seu patrimônio, sem contar o seu torcedor que já começa a se preocupar e perder a paciência com seu gestor.
O importante é que estas discussões estão vindo à tona e são muito produtivas para o mercado como um todo. Os dirigentes e gestores dos clubes estão vendo não só a mídia especializada, como também o ministério publico e os torcedores se insurgirem contra desvios de condutas e prejuízos ilícitos o que deve aos poucos moralizar o mercado.
Os casos do Corinthians, que tem ex-presidentes investigados pela justiça e do Vasco que conseguiu recuperar a SAF são exemplos de que o mercado passa por uma transformação. Em que pese os contratos com jogadores e comissão técnica ainda serem vultuosos, no futuro a tendência é a de que estes contratos sejam elaborados visando o equilíbrio financeiro do clube e seus interesses.
A abertura do mercado de futebol brasileiro foi o primeiro passo para esta revolução e agora compete a todos que dele ou nele dependem ou atuam a conscientização de que o modelo de gestão antigo está chegando ao fim.
Dr. João Roberto Ferreira Franco
Advogado, sócio-diretor do escritório Lodovico Advogados, Mestre em Direito Empresarial pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Doutor em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, autor do livro “Sociedade Anônima do Futebol: natureza jurídica, fair play financeiro e o problema do multi club ownership” pela Editora Dialética.



