A Pluri Consultoria, empresa responsável por intermediar a criação da Sociedade Anônima do Futebol do Botafogo-PB, notificou extrajudicialmente o clube e antigos gestores cobrando dívida de R$ 550 mil referente a parcelas não quitadas do contrato de estruturação da SAF. A notificação foi encaminhada também ao ex-CEO Alexandre Gallo e aos ex-investidores Lucas Franzatto e Celso Colombo Neto. Segundo a consultoria, acordo previa pagamento total de R$ 1,22 milhão dividido em três parcelas: primeira de R$ 420 mil foi paga pela gestão atual; segunda de R$ 400 mil teve apenas R$ 250 mil quitados; terceira de R$ 400 mil, com vencimento em 10 de outubro, permanece não paga. O investidor atual Fillipe Félix respondeu afirmando que o clube não recebeu integralmente o prometido pela consultoria e que já investiu aproximadamente R$ 4 milhões em quitação de dívidas antigas, além de aportes adicionais ao previsto no contrato da SAF.
O conflito de pagamento e as responsabilidades solidárias
A Pluri Consultoria estruturou acordo que previa aporte financeiro de R$ 1,22 milhão para intermediação e estruturação técnica da transformação do Botafogo-PB em SAF. Essa configuração é comum em transações de SAF: consultoria especializada é contratada para realizar levantamentos financeiros, negociação com credores, estruturação legal e análise de viabilidade — serviços que demandam expertise específica e justificam remuneração significativa.
A estrutura de pagamento em três parcelas refletiu dinâmica de implementação da SAF ao longo do tempo. A primeira parcela de R$ 420 mil foi honrada pela atual gestão, sugerindo que parte dos recursos foi realizada após mudança de administração. Porém, segunda parcela de R$ 400 mil teve apenas R$ 250 mil quitados. Terceira parcela de R$ 400 mil, com vencimento em 10 de outubro, não foi paga integralmente. Somados os débitos, totalizam R$ 550 mil em parcelas vencidas não pagas.
Aspecto crítico da notificação é que Pluri mantém como responsáveis solidários pelos pagamentos não apenas o clube e gestão atual, mas também ex-investidores Lucas Franzatto e Celso Colombo Neto. Essa responsabilidade solidária significa que qualquer uma das partes pode ser acionada para integralizar a dívida total, independentemente de quem formalmente contraiu a obrigação. O advogado da Pluri, Ruy Junqueira, afirmou que tentou negociar com a SAF mas não recebeu retorno às comunicações — sugerindo que comunicação entre consultoria e clube deteriorou durante período de inadimplência.
A notificação aponta dois caminhos jurídicos possíveis: cobrança judicial com correções monetárias sobre valores em atraso, ou rescisão do contrato de venda da SAF. A segunda opção é particularmente severa, pois implicaria reversão de estrutura de SAF já constituída — cenário que geraria caos administrativo e deixaria o clube sem gestão profissional formalizada. Essa ameaça de rescisão funciona como pressão para negociação.
A resposta de Fillipe Félix e a controvérsia sobre obrigações contratuais
Fillipe Félix, investidor atual do Botafogo-PB, respondeu à notificação afirmando que o clube foi “lesado” pela Pluri, sugerindo que há reclamação do clube contra a consultoria que contrabalança o débito de R$ 550 mil. Segundo Félix, o clube “não recebeu integralmente o que foi prometido pela consultoria e não aceitará prejuízo”.
Essa resposta inverte a narrativa de simples inadimplência. Félix sugere que a Pluri comprometeu-se a fornecer serviços ou recursos além da intermediação técnica de estruturação de SAF, e que o clube não recebeu valor integral combinado.
Félix revelou que o Botafogo-PB já “quitou quase R$ 4 milhões em dívidas antigas” desde que ele assumiu como investidor. Esse volume expressa dimensão de passivo que o clube enfrentava antes da transformação em SAF. Para contexto, passivo de R$ 4 milhões em clube de Série B é dívida significativa que consome boa parte de capital que o investidor aloca. A menção adicional de que Félix investiu “mais do que o previsto no contrato da SAF” sugere que clube demandou aportes adicionais além do que foi formalmente acordado — dinâmica comum em SAFs de clubes com dificuldades financeiras estruturais.
A posição de Félix de que clube “não vai ser lesado” indica que investidor está disposto a ir a tribunal para defender seus interesses. Isso significa que Botafogo-PB potencialmente acionará Justiça contra a Pluri Consultoria, criando litígio onde a consultoria cobra R$ 550 mil e o clube cobra por serviços não prestados ou recursos não fornecidos. Esse cenário é negativo para o clube: recursos que deveriam ser investidos em operação futebolística serão consumidos em despesas legais e potencialmente em pagamento de indenizações.
O significado para a SAF do Botafogo-PB e o risco institucional
O conflito financeiro e legal entre a Pluri Consultoria e o Botafogo-PB ilustra complexidade que emerge quando a SAF é constituída em contexto de clube com passivo significativo e múltiplas partes interessadas. Consultoria intermediadora frequentemente realiza trabalho substancial — análise financeira, negociação com credores, estruturação legal — antes de transformação ser formalizada. Se o clube não consegue pagar pela intermediação, isso reflete dificuldades financeiras mesmo após transformação em SAF.
Para um investidor como Félix, inadimplência com consultoria é duplo problema: primeiro, compromete reputação de profissionalismo que a SAF deveria oferecer (incapacidade de honrar obrigações contratuais é sinal preocupante); segundo, cria litígio que distrai gestão de focos operacionais de curto prazo. Risco maior é que o litígio prolongado paralise decisões de investimento futuro, pois investidor preferirá resolver questões legais antes de aportar novo capital.
A resposta de Félix sugerindo contracobrança contra a Pluri também tem limite. Mesmo que Botafogo-PB tenha reclamação legítima contra a consultoria, permanece com dívida de R$ 550 mil que se tornou vencida. Limpar essa dívida é pré-requisito para estabilização financeira que a SAF deveria oferecer. A indefinição legal e financeira que surge do conflito compromete exatamente o benefício que a transformação em SAF promete: segurança financeira e gestão profissional.
Fonte: Maurílio Junior.



