A transformação do Confiança em Sociedade Anônima do Futebol foi oficializada em Assembleia Geral realizada no sábado (1º) no Estádio Sabino Ribeiro, com aprovação unânime de 481 sócios-torcedores presentes. A proposta apresentada pela empresa LG2, capitaneada pelo ex-presidente do Flamengo Rodolfo Landim e pelos empresários Gustavo Oliveira e Gabriel Araújo, representou a última etapa necessária para concretização do projeto. A estrutura aprovada estabelece parceria entre AD Confiança Fundo de Investimento em Participações (FIP) com 78% das ações e Associação Desportiva Confiança com 22%, com orçamento garantido de R$ 51,2 milhões — incluindo R$ 24 milhões em aportes diretos dos investidores distribuídos entre 2025 e 2027. O novo presidente Petrúcio Souza caracterizou o momento como “histórico”, marcando a transição de modelo “muito arcaico e antigo” para gestão profissionalizada e sustentável.
O processo de aprovação e a trajetória até a assembleia
A Assembleia Geral transcorreu com apresentações estruturadas dos proponentes e análise formal da proposta. Rodolfo Landim contextualizou os motivos que geraram a proposta da SAF, seguido de Gabriel Araújo com detalhes técnicos e planejamento futuro. A vice-presidente do Conselho de Administração do Confiança, Danielle Ferreira, apresentou parecer de análise confirmando que a proposta cumpria requisitos legais e estatutários necessários para votação. A unanimidade na votação — todos os sócios presentes votaram a favor — reflete o consenso institucional sobre a necessidade de transformação.
Essa aprovação é significativa. Referendos sobre mudanças estruturais de clubes frequentemente enfrentam resistência de setores que temem perda de autonomia ou mudança de identidade institucional. No caso do Confiança, a ausência de votos contrários sugere que os sócios reconhecem urgência de profissionalização. Petrúcio Souza explicitou essa percepção: “Futebol é uma situação muito complicada para trabalhar sem dinheiro. Eu vinha defendendo a SAF há mais de três anos. O Confiança no modelo associativo ficou um modelo muito arcaico e antigo”.
A relação entre Landim e Confiança consolidou-se ao longo de dez meses, conforme indicado por Landim em seu discurso. O envolvimento iniciou-se em janeiro quando Landim visitou instalações do clube acompanhado pelo governador de Sergipe Fábio Mitidieri, amigo pessoal do empresário. Em abril, Landim assistiu à vitória do Confiança sobre Caxias pela Série C, consolidando presença pública e compromisso com o projeto. Essa abordagem gradual — visitas, observação de operações, participação em eventos — ofereceu a Landim uma compreensão prática de necessidades institucionais do clube e permitiu ao Confiança avaliar a seriedade do interesse de investimento.

A estrutura financeira e os compromissos de investimento
A SAF aprovada estabelece estrutura acionária em que Associação Desportiva Confiança manterá 22% das ações, preservando uma participação significativa da instituição associativa original. O AD Confiança FIP (Fundo de Investimento em Participações), composto por empresários sergipanos, deterá 78%, refletindo preponderância de capital novo. Essa distribuição busca equilíbrio entre profissionalização (liderada por investidores) e preservação de identidade institucional (mantida pela associação).
O orçamento garantido de R$ 51,2 milhões representa volume substancial para um clube regional que historicamente operava com receitas muito mais limitadas. Esse orçamento é composto de três fontes: faturamento de base do clube, novas receitas desenvolvidas pela SAF, e aportes do Fundo de Investimentos. Dos R$ 24 milhões em aportes diretos dos investidores, a distribuição temporal é progressiva com recuo: 40% em 2025 (R$ 9,6 milhões), 35% em 2026 (R$ 8,4 milhões), 25% em 2027 (R$ 6 milhões). Essa estrutura reconhece que o investimento inicial é crítico e diminui conforme a SAF desenvolva receitas operacionais próprias.
O comprometimento de quitação integral das dívidas atuais do clube — estimadas em R$ 12 milhões — é elemento crítico. Rodolfo Landim ofereceu ao Confiança uma limpeza de passivo que o clube associativo não conseguia resolver, removendo obstáculo fundamental para o crescimento futuro. Sem essa quitação, receitas novas seriam consumidas por pagamento de obrigações históricas, impossibilitando o investimento em modernização.
Os objetivos de investimento e a visão de futuro
As prioridades de alocação de recursos foram claramente estabelecidas: quitação de dívidas, construção de novo Centro de Treinamentos, modernização do Estádio Sabino Ribeiro, e fortalecimento de elenco, base e desempenho esportivo. Essa sequência reflete compreensão de que sustentabilidade exige, primeiramente, eliminação de passivos; posteriormente, investimento em infraestrutura que permite operação profissional; e finalmente, alocação em competitividade esportiva.
Landim explicitou em entrevistas anteriores interesse em investimento na base, novo centro de treinamento e busca por acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. Essa ambição de longo prazo oferece direcionamento estratégico ao Confiança, clube que historicamente operava com metas de menor magnitude. A transformação em SAF oferece ao clube não apenas capital, mas também acesso a expertise de Landim em gestão de instituições de grande porte (sua experiência no Flamengo) e networks de investidores e profissionais necessários para operação em nível mais elevado de competição.
Segundo Rodolfo Landim, a aprovação é fruto de um trabalho muito sério, com participação direta de várias pessoas do clube, que se dedicaram à análise e negociação da proposta. Essa ênfase em colaboração entre investidores e dirigentes históricos do Confiança sugere modelo em que profissionalismo não elimina participação de conhecedores da instituição. Petrúcio Souza, novo presidente eleito, ofereceu perspectiva compatível: a transformação marca “um novo capítulo na história do Confiança, que agora inicia um modelo de gestão voltado à profissionalização e sustentabilidade financeira”.
Os próximos passos e a fase de transição
Com a aprovação em Assembleia, o Confiança entra em fase crítica de transição. Nos próximos 30 dias aproximadamente, a LG2 conduzirá “due diligence” detalhada — levantamento completo de dados financeiros, estruturais e operacionais do clube. Esse trabalho é “fundamental para calcular com qual percentual a associação ficará dessa SAF”, conforme Landim. Simultaneamente, a documentação definitiva será trabalhada, incluindo a estrutura de governança corporativa e o estatuto formal da SAF.
O estatuto da associação que permitiu a adoção da SAF será registrado em cartório e divulgado amplamente a sócios e público. Essa formalização legal consolida uma decisão tomada em Assembleia e oferece segurança jurídica para todas as partes envolvidas. A transparência nessa divulgação é importante: credores, funcionários, atletas e torcedores precisam compreender como a transformação afeta suas relações com a instituição.
Landim agradeceu o apoio dos torcedores e reconheceu a responsabilidade gerada pela aprovação: “Isso nos deixa muito feliz, mas sem dúvida traz uma responsabilidade muito grande, porque gera expectativa positiva das pessoas”. Essa postura reconhece que a aprovação unânime em Assembleia cria expectativas elevadas de resultados. Para a SAF ter sucesso, não basta estrutura financeira; demanda execução rigorosa de planos, transparência contínua com stakeholders e resultados que justifiquem a confiança depositada.
Fonte: ge.globo; Futebol Sergipano.



