Por Danilo Superbi da Silva
Vamos falar sobre a gestão profissional no futebol. Você sabe qual é o real impacto da gestão na sociedade anônima do futebol para os clubes brasileiros? Com a evolução do cenário esportivo, esse modelo tem ganhado destaque, mas não como a única solução viável. A verdade é que o sucesso de um clube depende menos do modelo jurídico adotado — associação ou SAF — e muito mais da qualidade da gestão profissional implementada. Enquanto algumas associações consolidadas como Flamengo e Palmeiras continuam demonstrando excelência administrativa ao longo dos anos, emergem também SAFs que ainda buscam equilibrar sustentabilidade financeira com resultados imediatos. O diferencial competitivo não está na sigla, mas na capacidade de cada instituição em estruturar-se de forma transparente, eficiente e orientada para o longo prazo.
Em resumo: A gestão profissional e responsável é o verdadeiro fator de diferenciação entre clubes de sucesso, independentemente de serem associações ou SAFs. A escolha do modelo deve ser estratégica, refletindo as necessidades específicas de cada instituição.
Contexto histórico e estrutura das associações no futebol
As associações que administram a maioria dos clubes brasileiros surgiram nas primeiras décadas do século XX, quando o futebol era amador e restrito às elites. Ao consolidarem-se, estabeleceram estruturas baseadas em estatutos detalhados e na participação direta de sócios nas decisões. Esse modelo criou um senso de propriedade coletiva que moldou a identidade dos clubes, particularmente sua ligação com comunidades e torcidas.
Historicamente, essa forma de organização produziu institucionalidades fortes e duradouras. Clubes como Flamengo e Palmeiras, ambos ainda associações, demonstram que gestão profissional e estruturada não é exclusividade das SAFs. O Palmeiras, em particular, consolidou-se como referência através de decisões administrativas sólidas e planejamento estratégico de longo prazo — características que transcendem o modelo jurídico. Outro exemplo que podemos citar seria o Mirassol, clube de menor expressão econômica que compete na Série A, e que também exemplifica como uma associação bem gerenciada consegue manter estrutura competitiva.
Porém, as associações tradicionais enfrentam desafios específicos: ciclos eleitorais cada três anos criam descontinuidades administrativas; grupos políticos internos muitas vezes priorizam interesses próprios sobre objetivos institucionais; e a pressão imediata da torcida por resultados pode comprometer planejamentos estratégicos em favor de decisões reativas. Esses fatores não são inerentes ao modelo, mas consequências de uma gestão menos profissionalizada.
A transição para a sociedade anônima do futebol: oportunidades e realidades
A Lei nº 14.193/2021 abriu caminho legal para que clubes se transformem em SAFs, criando estruturas empresariais voltadas exclusivamente ao futebol profissional. Essa possibilidade surge como resposta a dificuldades financeiras crescentes e à necessidade de profissionalizar gestões que, historicamente, funcionavam com base em voluntarismo e decisões políticas.
A vantagem competitiva central da SAF não reside em alguma superioridade inerente ao modelo, mas em dois mecanismos específicos: primeiro, a redução de ciclos políticos — um CEO nomeado por investidores não precisa se reeleger a cada três anos, permitindo planejamento estratégico de médio e longo prazo sem interferências de campanhas internas; segundo, a desvinculação parcial da pressão imediatista — gestores de SAFs respondem fundamentalmente a investidores focados em retorno sustentável, não a torcedores demandando vitórias agora, ainda que a cobrança da torcida permaneça relevante.
Isso não significa que associações sejam inferiores, mas reconhece que estruturas políticas tradicionais podem limitar a continuidade de estratégias que demandam paciência. Um investidor em SAF está disposto a aceitar frustrações esportivas curtas em favor de construção estruturada; um sócio associado, frequentemente, não.
Comparação das pressões externas: associações versus SAFs
Nas associações bem gerenciadas, a pressão política interna e da torcida é mediada por gestores profissionais capacitados que conseguem equilibrar demandas imediatas com planejamento estratégico. Flamengo, Palmeiras e Mirassol exemplificam esse equilíbrio: seus dirigentes conquistaram espaço político para tomar decisões técnicas sem interferências diretas, ainda que respondendo formalmente a conselhos e assembleias.
Nas SAFs, a dinâmica é diferente mas não necessariamente superior. A pressão da torcida persiste — Botafogo, Cruzeiro e Atlético-MG, por exemplo, continuam enfrentando cobrança intensa por resultados. O diferencial é que essa pressão, embora constante, não determina mudanças administrativas com a frequência observada em associações, pois o poder de decisão reside em investidores, não em votações periódicas.
| Aspecto | Associações bem gerenciadas | SAFs |
|---|---|---|
| Pressão política interna | Mediada por gestores profissionais; decisões técnicas preservadas | Reduzida; investidores controlam direcionamento estratégico |
| Pressão da torcida | Direta, mas filtrada por gestão profissional | Constante, canalizada via comunicação corporativa |
| Continuidade estratégica | Vulnerável a ciclos eleitorais, mas resistente em gestões fortes | Mais previsível, alinhada aos objetivos dos investidores |
| Tomada de decisão | Influenciada por múltiplos stakeholders, mas fundamentada em análise técnica | Baseada em planejamento e métricas de desempenho |
| Responsabilidade administrativa | Compartilhada, com foco crescente em transparência | Formalizada, com contratos e obrigações legais rígidas |
A questão fundamental é que ambos os modelos dependem de gestão profissional e responsável. Associações falham quando dirigentes negligenciam profissionalismo; SAFs fracassam quando investidores priorizam retornos imediatos sobre construção estruturada.
Desafios e oportunidades
Ambos os modelos enfrentam desafios reais. Associações bem gerenciadas precisam inovar continuamente para competir com SAFs que acessam capitais maiores. SAFs precisam demonstrar que profissionalismo administrativo não neutraliza paixão pelo futebol — um ativo intangível fundamental.
Financiamento sustentável é crítico em ambos os casos. Enquanto SAFs atraem investidores, associações dependem de receitas operacionais e sócios-torcedores. Ambas as fontes exigem gestão profissional rigorosa. Transparência também é imperativo em ambas.
Uma tendência promissora é a hibridização: modelos como o SAFiel do Corinthians e reformas estatutárias em outros grandes clubes buscam combinar participação de torcedores acionistas com profissionalismo executivo. Isso sugere que a dicotomia “associação versus SAF” está cedendo espaço a estruturas mais sofisticadas.
O modelo importa menos que a gestão
A gestão profissional e responsável é o verdadeiro diferencial entre clubes de sucesso. Flamengo, Palmeiras e Mirassol exemplificam que associações bem administradas funcionam tão eficientemente quanto SAFs. Botafogo, Cruzeiro e Atlético-MG, por sua vez, demonstram que transformação em SAF oferece ferramentas valiosas — mas não garante sucesso se a gestão for negligente.
A escolha entre associação e SAF deve ser estratégica, refletindo necessidades específicas: associações com gestões consolidadas devem preservar esse modelo enquanto aperfeiçoam profissionalismo interno; clubes com gestões frágeis e passivos elevados podem beneficiar-se de uma transição que atraia capital e expertise externa.
O futebol brasileiro evoluiu. Já não se trata de debater se associações ou SAFs são “melhores”, mas reconhecer que ambas podem funcionar quando guiadas por lideranças comprometidas com transparência, planejamento estratégico e sustentabilidade. A verdadeira revolução não está na sigla jurídica, mas na profissionalização contínua de práticas administrativas, independentemente do modelo adotado.
Clubes que abraçarem essa mentalidade — tratando gestão como prioridade máxima — terão o que é necessário para prosperar nas próximas décadas, estabelecendo padrões que elevam o futebol brasileiro.
Danilo Superbi da Silva
Sócio-diretor da DASS Consultoria e da ElevateLaw Marketing Jurídico, Mestre em Negócios Internacionais pela MUST University, MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela Fundação Getúlio Vargas, Administrador pela Universidade Federal de Viçosa e especialista em gestão empresarial.



