Danielle Ferreira, vice-presidente do Conselho de Administração do Confiança, apresentou em entrevista ao ZYB Podcast Esporte Clube os detalhes da transformação do clube sergipano em Sociedade Anônima do Futebol. A advogada de 36 anos, que participa diretamente do processo, classificou a oportunidade como uma “porta de salvação” para um clube que enfrenta dificuldades financeiras estruturais. A proposta será votada pelos sócios em Assembleia Geral no próximo dia 1º de novembro, no Estádio Sabino Ribeiro, com orçamento garantido de R$ 51,2 milhões — sendo R$ 24 milhões em aportes diretos dos investidores ao longo de três anos e o restante proveniente de receitas operacionais.
A necessidade da SAF: equilíbrio entre tradição e realidade competitiva
Danielle Ferreira reconhece que o modelo associativo é historicamente fundamental para o futebol brasileiro e possui méritos que não devem ser desconsiderados. Porém, ela aponta uma realidade pragmática: fazer futebol profissional em Sergipe, competindo com outras realidades estaduais e nacionais, trouxe a necessidade de uma reforma estatutária que autorizasse a transformação em SAF. Embora tenha mantido “ressalvas com o novo modelo de gestão”, a vice-presidente defende que a questão deve ser encarada “com equilíbrio”.
O argumento central é que “vai chegar um momento em que clubes com o nosso passivo terão dificuldade em manter uma estrutura profissional”. Essa percepção reflete uma tendência observada em diversos clubes brasileiros de menor expressão econômica: o modelo associativo, ainda que legítimo historicamente, enfrenta limitações para competir em um ambiente de profissionalização crescente e demandas financeiras elevadas. Para Ferreira, a SAF emerge como resposta a essa pressão estrutural, daí a caracterização como “porta de salvação”.
A estrutura de investimento e a realidade dos aportes
O Confiança SAF será constituído com prazo de duração indeterminado e em caráter definitivo. A estrutura acionária divide-se entre o AD Confiança Fundo de Investimento em Participações (FIP), que deterá 78% das ações, e a Associação Desportiva Confiança, que manterá 22%. Essa distribuição preserva participação significativa da associação, diferente de modelos em que investidores externos assumem controle majoritário absoluto.
O orçamento garantido é de R$ 51,2 milhões. Desse total, R$ 24 milhões virão de aportes diretos dos investidores, distribuídos em etapas ao longo de três anos. O restante — aproximadamente R$ 27,2 milhões — será proveniente das receitas operacionais do próprio Confiança. Ferreira enfatiza que não há “perspectiva de um investimento de R$ 500 milhões”, mas sim de “faturar isso até o décimo ano do calendário de operação”.
Essa clarificação é importante porque reflete uma realidade frequentemente mal compreendida: SAFs não funcionam apenas com aportes iniciais de investidores. Ferreira aponta que “nenhum processo de SAF se concretiza sem o mecanismo de reinvestimento, que é usar a receita da própria associação”. Não há “repasse do fundo de forma integral e imediata”, e toda SAF depende das receitas do departamento de futebol da associação para sua operação contínua. Essa dinâmica é crítica para entender a sustentabilidade do modelo.
O processo de votação e a soberania dos sócios
A Assembleia Geral de Sócios está marcada para 1º de novembro, às 14h, no Estádio Sabino Ribeiro. Segundo Ferreira, a primeira convocação exige presença de 1/3 dos sócios, e na segunda votação, a aprovação pode ocorrer por maioria simples dos presentes. O Confiança tem uma média de 600 sócios aptos a votar.
Ferreira ressalta que a Assembleia Geral é “o órgão máximo e soberano do Confiança”. Na votação, além dos sócios contribuintes, participarão membros da Diretoria Executiva, do Conselho de Administração e do Conselho Fiscal. A vice-presidente enfatiza a importância de que “as pessoas tenham a compreensão do que vão votar”, sugerindo que há preocupação com a qualidade da deliberação, não apenas com a formalidade do processo.
A crítica ao processo acelerado
Apesar de defender a SAF como necessária, Ferreira é crítica em relação à velocidade do processo. Ela o classifica como “extremamente acelerado” e reconhece que “não podemos mentir para o torcedor”. A reforma do estatuto durou entre dois e dois anos e meio, período durante o qual houve mudanças na legislação com a Lei Geral do Esporte. Processos de SAF no país se constituíram de forma “gradativa”, mas a partir do momento em que a proposta foi recebida, em 10 de julho, o Confiança teve “muito tempo de dedicação para analisar a proposta em tempo recorde”.
Ferreira deixa claro que essa responsabilidade agora “não cabe mais a mim ou a qualquer outro conselheiro, mas sim ao sócio”. Essa fala sugere uma transferência de responsabilidade pela decisão final para a base associativa, reconhecendo que a análise técnica foi feita em prazo comprimido, mas que a legitimidade da decisão depende da votação dos sócios.
O futebol feminino e a necessidade de ajustes
Danielle Ferreira, que liderou o projeto de criação do futebol feminino do Confiança em 2023 e foi ativa na cobrança por investimentos na modalidade, apontou que a proposta inicial não incluía menção ao futebol feminino. Após cobrança da comissão, o grupo investidor propôs obter a Certidão Negativa de Débitos (CND) para conseguir verbas públicas e emendas impositivas, direcionando esses recursos para o futebol feminino.
Ferreira reconhece que essa é “uma realidade que temos hoje, e é insuficiente”. Porém, ela sinaliza que essa limitação “não impede que a coisa avance e a gente consiga ajustar”. Essa posição reflete um pragmatismo: aceitar a SAF como necessária, mas com a ressalva de que ajustes serão necessários para garantir investimentos adequados no futebol feminino.
O significado para clubes de menor expressão econômica
O caso do Confiança ilustra como a SAF é percebida por clubes fora do eixo Rio-São Paulo tradicional. Para instituições com passivos elevados e receitas limitadas, a transformação em SAF emerge como mecanismo de sobrevivência competitiva, não apenas como oportunidade de crescimento. A “porta de salvação” mencionada por Ferreira reflete essa realidade: sem capital externo e profissionalização estruturada, clubes como o Confiança enfrentariam dificuldades crescentes para manter estrutura profissional.
Simultaneamente, o processo acelerado e a necessidade de ajustes — como a inclusão do futebol feminino — sugerem que a transformação em SAF não é panaceia, mas um instrumento que demanda refinamento contínuo e vigilância sobre sua implementação.
Fonte: ge.globo.



