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Entrevista com Sérgio Santos Rodrigues

Em uma entrevista exclusiva para a Sou SAF, o advogado e ex-presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, compartilha os bastidores da transformação do clube, os maiores desafios do processo e sua visão sobre o futuro das SAFs no Brasil.

Além disso, Sérgio fala sobre o curso que ministra, “Sociedades Anônimas de Futebol no Brasil: teoria e prática”, no Instituto Iter, onde aprofunda os aspectos jurídicos e práticos do modelo SAF e compartilha aprendizados de quem viveu essa experiência de perto.

Leia a entrevista completa:

 

Sérgio, você esteve à frente da transição do Cruzeiro para o modelo SAF. Quais foram os maiores desafios práticos que você enfrentou durante esse processo?

Um dos maiores desafios práticos que a gente enfrentou na transição para a SAF, primeiramente, foi por ser o primeiro, o receio, né? Tivemos que passar por algumas aprovações em conselho deliberativo, que a gente sentiu uma certa resistência ao novo. E, depois, claro, a parte prática do que fazer, vamos ou não seguir com o RCE, o Regime Centralizado de Execução, como havíamos feito primeiro? Ou vamos partir para a recuperação judicial para reestruturar? No final, percebemos que a RJ seria o melhor caminho.

Então, acho que o novo, naquele começo, foi o maior desafio: passar por essa barreira do que acabou de surgir. E, obviamente, as resistências políticas que tinham para que se concretizasse. Mas, como a gente também se preparou bem, trouxe grandes empresas, como a Alvarez & Marsal e a XP, para poder nos auxiliar, eu acho que isso ajudou muito a fazer uma transição mais tranquila depois.

 

O Cruzeiro foi pioneiro ao implementar a SAF no Brasil. O que você destacaria como o principal aprendizado desse processo? Há algo que você teria feito de forma diferente?

Eu acho que o primeiro aprendizado do processo tem um pouco a ver com o que eu falei antes, foi trazer gente boa para todo o redor. Então trouxemos boas empresas, consolidadas no mercado, cuja assinatura já fala por si só. Então isso dá confiança para o investidor depois.

Um segundo ponto, que gerou bastante crítica, foi o sigilo. Para que tudo desse certo, foi fundamental a gente não ter deixado vazar a negociação, que, infelizmente, é uma coisa que acaba acontecendo. E, pela magnitude do que foi, ainda mais envolvendo o Ronaldo comprando o clube, acho que se isso tivesse sido especulado na imprensa, poderia ter gerado um certo receio, até um freio da parte dele. Então, acho que esses são os dois principais pontos: se cercar de boas pessoas, de gente que tem credibilidade no mercado, e sigilo ao máximo possível.

E quanto a fazer diferente, eu sinceramente creio que não. Claro que hoje se discute muito, principalmente por conta do sigilo, às vezes pelo valor, etc., mas cada clube tem sua particularidade. A nossa era uma situação de muito aperto financeiro, grandes compromissos de curto prazo vencendo e falta de receita. Então, a gente fez. Claro que, obviamente, crítica sempre tem. Embora hoje acho que a gente vê o clube em uma situação muito boa. Quando a gente fez, teve um acesso no primeiro ano. No segundo ano disputando uma final de competição internacional. Então, eu acho que se fosse preciso, faríamos tudo de novo.

 

Você acredita que o modelo SAF ainda está enfrentando resistência no Brasil? O que poderia ser feito para melhorar a adesão e confiança no sistema?

Eu, sinceramente, não acho que o modelo está apresentando resistência. Até porque com quatro anos de vigência da lei, já são mais de uma centena de SAFs no Brasil. Pelo contrário, estamos vendo as pessoas querendo aderir ao modelo e entendendo que o futebol é um grande negócio. 

A resistência que existe basicamente hoje é política. Então, grandes clubes como o Corinthians, que tem uma dívida bilionária, quando toca-se nesse assunto, o receio do torcedor é: “Ah, isso vai para um dono, vai perder a identidade”. Enfim, coisas que são naturais, sobretudo em times de torcida muito grande. Mas eu acho que isso tende a acabar depois. É uma tendência mundial: as SAFs, o clube como empresa, o futebol como negócio. E não acho realmente que isso faça com que perca a identidade. Pelo contrário, até porque o investidor depende de movimentar essa máquina, a paixão, a torcida, para ele ganhar dinheiro. 

Acho que é uma questão de tempo mesmo para que haja essa migração. Havia também uma insegurança jurídica muito grande, sobretudo no começo, relacionada à Justiça do Trabalho, mas acho que já está sendo quebrada com as decisões constitucionais superiores que têm sido dadas. Então, creio que é um caminho natural que a gente tenha cada vez mais conversão dos clubes em SAF, sobretudo os grandes clubes nos quais havia essa resistência política que eu falei.

 

Sérgio, você ministra o curso “Sociedades Anônimas de Futebol no Brasil: teoria e prática” no Instituto Iter. O que motivou você a compartilhar seu conhecimento neste formato?

A gente resolveu fazer o curso porque eu sinto que, primeiro, o direito desportivo, de uma forma geral, não é algo que está nas cadeiras rotineiramente das faculdades de Direito. Então, tem que buscar esse conhecimento em pós-graduação ou em cursos complementares. Mas quando a gente fala de SAF, eu acho que vai bem além do Direito. Tanto que eu escrevi um livro que tem economia, tem administração, um aspecto multidisciplinar. 

E no nosso curso quisemos fazer isso: direcionar a pessoas que trabalham efetivamente, que fizeram isso na prática, para difundir esse conhecimento. Então, a gente vai ter pessoas da área da reestruturação financeira que abordam o que eles acham essencial para fazer. Tem um dono de multiclubes no Brasil, o Guilherme Bellintani. Eu estava falando antes do Fred Luz, da Alvarez & Marsal. Temos um dono da primeira empresa multi clube do Brasil. O Bellittani já possui quatro para cinco clubes, e conta os desafios disso, de implementação, de gestão. Entre vários outros que, na prática, estiveram à frente da constituição de SAF e de gestão de SAF.

Então, eu vejo esse diferencial muito grande. Às vezes a gente participa de curso, seminário com pessoas que não viveram isso na prática. Então, o nosso grande diferencial, na minha opinião, foi isso: fazer um curso multidisciplinar com pessoas que, além de ampla formação teórica, muitos com mestrado, doutorado, têm, sobretudo, essa vivência na prática dessa nova experiência no Brasil.

 

Para quem está começando agora a estudar sobre SAF, quais dicas ou conselhos você daria?

Eu acho que quem está começando agora, como quase tudo na vida e como o nosso curso fala, é tentar aliar teoria e prática. Tentar participar desses cursos, que possuem uma qualidade de networking muito boa. Eu fiz um curso de gestão na CBF em 2015, de onde eu saí com vários amigos que foram fundamentais na caminhada no futebol. Correr atrás de conhecimento, de buscar, trabalhar, ficar na prática do dia a dia, entender essas particularidades que a gente falou que a SAF sempre vai ter. Então, com certeza, é sempre correr atrás do conhecimento e do diálogo para poder construir uma carreira sólida.

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