Os sócios do Vasco aprovaram na noite desta sexta-feira (23) a venda de 90% da SAF do clube para a Almirante Participações, empresa ligada ao empresário Marcos Lamacchia. A votação foi híbrida, com participação presencial na Sede Náutica e eletrônica, e terminou com 4.675 votos a favor, 437 contra e 48 abstenções — cerca de 90% de aprovação, conforme o resultado oficial da Assembleia Geral Extraordinária. Lamacchia acompanhou o pleito presencialmente. A aprovação dos associados era o último rito interno para autorizar a operação; a partir de agora, o negócio entra na fase de cumprimento das condições contratuais e de regularização junto aos órgãos fiscalizadores, entre eles a Anresf e o Cade.
O presidente do clube, Pedrinho, definiu a noite como um marco na história da instituição e fez questão de enquadrar o resultado como uma correção de rota. “É um dia histórico. O Vasco SAF já tinha sido vendido, o que nós fizemos foi consertar um problema que foi criado. Para isso, a busca incansável por um investidor que, na nossa concepção, é o investidor de maior potencial no Brasil. Um investidor com CNPJ no Brasil, com capacidade financeira que todos já sabem. E um acréscimo de entender o que é o Vasco da Gama”, disse. Em seu discurso, o novo controlador do futebol agradeceu a confiança da torcida e prometeu trabalho: “Queria agradecer pela confiança que vocês depositam na gente, a torcida vascaína. E, como o Pedrinho falou, a gente promete muito trabalho, mesmo. Entramos nessa porque reconhecemos a grandeza do Vasco, e vocês podem ter certeza de que vamos dar o nosso melhor”.
O fim do problema das dívidas e os próximos passos do clube
O ponto mais celebrado por Pedrinho foi o equacionamento das dívidas — o passivo que, na avaliação dele, condicionava toda a operação do futebol. “Sempre prometi trabalho. Óbvio que, com o poder financeiro do investidor, tudo melhora. Estrutura, centro de treinamento. Um dos pontos mais importantes para mim é o pagamento das dívidas. Acabou o problema das dívidas do Vasco”, afirmou. Ele acrescentou que o aporte deve se traduzir em competitividade dentro de campo, com a ressalva de que resultado esportivo não se promete: “Com o poder do investidor, você vai ter times mais competitivos para brigar de forma grande como o Vasco merece. Título não vou prometer, pois o futebol tem várias variáveis”.
Sobre a relação com o novo dono, Pedrinho disse acreditar que o investimento tende a superar o que está formalizado no contrato. “As coisas contratuais estão assinadas e é o que vale. Meu feeling é que o investidor vai fazer algo além do que está no contrato. Isso é sensibilidade por ter contato muito próximo. Há o desejo dele em transformar o Vasco em uma grande potência. Então, obviamente, se precisar de algo a mais no contrato, vai acontecer.”
O dirigente também detalhou o que acontece a partir da aprovação, com etapas que passam por cartório, transição de documentos e aporte até o contrato entrar em vigor. Um dos gargalos apontados é o terreno do centro de treinamento, que precisava de documentos que, segundo ele, estavam irregulares na gestão anterior, para que a obra comece assim que a prefeitura concluir a sua parte. Pedrinho afirmou ainda que a Anresf e o Cade solicitarão toda a documentação que será entregue, como ocorreu ao longo do processo, e se mostrou confiante na validação: “A Anresf vai ficar tranquila, porque vamos apresentar tudo”.
A permanência na presidência e a defesa do acordo com credores
Pedrinho revelou que não pretendia continuar no comando do clube, mas mudou de ideia a pedido do investidor. “Respeitando sempre todos os candidatos. Não sei quantos serão. A gente vive numa democracia, e o sócio tem o direito de escolher o melhor. Não era a minha intenção, estava definido que não queria. Era para seguir meus projetos pessoais. Foi um pedido firme do investidor. Fiquei receoso se uma possível saída minha prejudicaria a negociação. Então, decidi ficar.” Ele também respondeu às críticas sobre contratações feitas em meio à recuperação judicial: “Os clubes para os quais o Vasco devia disseram ‘sim’ na recuperação judicial, eles aprovaram. Foi um acordo que eles aceitaram. Podem falar que o Vasco está levando uma vantagem porque contratou e não pagou esse clube, não. O Vasco paga esse clube dentro do acordo que foi feito”.
O presidente fez ainda uma retrospectiva do período em que assumiu a SAF, quando diz ter se deparado com uma situação financeira que não conhecia. “Quando entrei na SAF, não tinha conhecimento da questão financeira, e ela me assustou completamente porque a gente não tinha o dinheiro para o mês seguinte. Mesmo assim, fizemos todos os mecanismos necessários para honrar todos os compromissos em dia, muitas vezes pagando até adiantado”, contou.
Na prática, a votação encerra um capítulo de incerteza institucional e abre outro, de execução. O clube deixa de depender exclusivamente da associação para sustentar o futebol e passa a ter um controlador privado com 90% da SAF — mantendo 10% em mãos vascaínas. O que se segue é a fase em que as promessas precisam virar documentos: assinaturas em cartório, transferência de aportes, regularização do terreno do CT e aval dos órgãos de fiscalização. Para o torcedor, o efeito mais imediato tende a aparecer no dia a dia do futebol — na capacidade de contratar, de manter salários em dia e de tocar obras de estrutura —, enquanto o efeito mais duradouro depende de como o novo controlador vai administrar o passivo que se acumulou ao longo de anos.
Fonte: ge.Globo; ge.Globo 2; ESPN.



