O futebol tem uma peculiaridade que raramente aparece nos balanços financeiros: quando um clube deixa de pagar seus jogadores ou outros clubes, suas obrigações não desaparecem. O custo é transferido para quem continua precisando viver, trabalhar e cumprir seus próprios compromissos sem receber.
O aluguel vence. Os filhos precisam ser sustentados. Os fornecedores têm funcionários para pagar. Enquanto isso, o atleta segue treinando, viajando e competindo, muitas vezes sem saber quando receberá pelo trabalho já realizado.
Na prática, o jogador e sua família podem acabar financiando involuntariamente a continuidade da operação esportiva. E esse é apenas o primeiro elo de uma cadeia que pode comprometer todo o ecossistema do futebol.
O problema não é apenas a dívida de um clube. É a propagação do prejuízo para quem não participou da decisão que originou a inadimplência.
O custo humano de uma dívida
A dimensão internacional do problema é expressiva. Pesquisa global da FIFPRO, realizada em 2016 com aproximadamente 14 mil jogadores de 54 países e 87 ligas, identificou que 41% haviam recebido salários com atraso nas duas temporadas anteriores. O levantamento também revelou condições econômicas distantes da imagem de prosperidade associada ao futebol de elite. Embora histórico, o estudo demonstra que a insegurança financeira não é uma realidade restrita a um único país ou divisão. Fonte: [FIFPRO — Global Employment Report](https://www.fifpro.org/en/articles/2019/11/mens-football-global-report-2016).
As consequências ultrapassam a conta bancária. A incerteza sobre o próximo pagamento pode comprometer o sono, a concentração e a estabilidade emocional, além de dificultar o cumprimento de compromissos com aluguel, alimentação, educação dos filhos e despesas familiares. Não significa que todo atraso provoque adoecimento clínico, mas que a insegurança financeira prolongada pode agravar o sofrimento psicológico e a vulnerabilidade familiar.
O caso do camaronês Marc Orland Etougou ilustra essa realidade. O jogador deixou de receber valores devidos pelo clube indonésio Persiwa Wamena em 2013. Em 2015, a Câmara de Resolução de Disputas da FIFA decidiu a seu favor. Segundo relato publicado pela FIFPRO em 2023, apesar das medidas adotadas, ele ainda aguardava o pagamento. Já aposentado, trabalhava com a esposa para sustentar a família e os dois filhos. Fonte: [FIFPRO — The player waiting 10 years for unpaid salary](https://www.fifpro.org/en/articles/2023/03/the-player-waiting-10-years-for-unpaid-salary).
O caso expõe uma fragilidade fundamental: reconhecer um direito não significa garantir que ele será satisfeito em tempo hábil. Para quem depende da remuneração para sobreviver, uma decisão favorável anos depois pode chegar quando o prejuízo já comprometeu a vida profissional e familiar.
O efeito dominó: quando a dívida se multiplica
O problema torna-se ainda mais complexo quando envolve obrigações entre clubes.
Um clube não paga uma parcela de transferência. O credor deixa de receber uma receita prevista e perde capacidade de honrar seus compromissos. Para preservar a operação, pode postergar salários, fornecedores e prestadores de serviços. Esses novos credores, por sua vez, passam a enfrentar dificuldades para cumprir suas próprias obrigações.
A cadeia pode alcançar jogadores das categorias de base, funcionários, empresas locais e famílias que dependem daquela renda. Um atleta que não recebe pode deixar de pagar aluguel ou pensão alimentícia. Um fornecedor sem pagamento pode atrasar a remuneração de seus empregados. O clube menor, privado de uma receita essencial, pode comprometer despesas que representam a própria continuidade de sua atividade.
A inadimplência, portanto, não elimina o custo da dívida: ela o transfere e pode multiplicá-lo.
A vulnerabilidade é desigual. Uma parcela relativamente pequena para um clube de grande arrecadação pode representar recursos essenciais para outro, utilizados no pagamento da folha salarial, viagens, alimentação, alojamento e formação de atletas. O mesmo valor financeiro pode ter impactos radicalmente diferentes conforme a capacidade de absorção de cada credor.
Essa dinâmica merece atenção especial no futebol brasileiro. O Hercílio Luz, por exemplo, foi apontado em reportagem do *ge*, em abril de 2026, como credor da SAF do Botafogo em uma negociação envolvendo um atleta da base. O acordo previa R$ 100 mil, dos quais R$ 25 mil haviam sido pagos, segundo a publicação. Para um clube de menor orçamento, valores dessa natureza podem fazer diferença concreta no planejamento financeiro. Fonte: [ge — reportagem sobre os débitos da SAF do Botafogo](https://ge.globo.com/).
O caso do Cuiabá também evidencia a interdependência financeira entre instituições. Em outubro de 2026, o Santos foi condenado pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF a pagar R$ 18,6 milhões ao clube mato-grossense em disputa relacionada à negociação do zagueiro Joaquim, decisão contestada pelo Santos mediante recurso, conforme noticiado pela imprensa esportiva. A situação ilustra como valores relevantes podem permanecer sujeitos a litígio justamente quando os clubes precisam administrar suas próprias obrigações.
Esses exemplos não permitem afirmar que cada inadimplência tenha causado diretamente outra. Demonstram, contudo, por que a falta de recebimentos pode representar um risco de liquidez para clubes credores e por que esse risco merece ser tratado como questão de sustentabilidade sistêmica.
O que a proteção jurídica ainda precisa enfrentar
A FIFA dispõe de mecanismos para reconhecer créditos, determinar pagamentos e impor consequências esportivas pelo descumprimento de decisões. O artigo 14bis do Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores prevê condições específicas para a rescisão contratual por justa causa em razão de salários vencidos. O artigo 24, por sua vez, prevê consequências para o descumprimento de determinadas decisões, incluindo restrições ao registro de novos jogadores, conforme os requisitos regulamentares.
Na jurisprudência internacional, o caso *Club Samsunspor v. Aminu Umar*, CAS 2015/A/4220, é relevante para a discussão sobre rescisão por inadimplência salarial e suas consequências contratuais.
Esses instrumentos são importantes, mas há uma questão que não pode ser ignorada: a efetividade da proteção. Uma decisão favorável que demora anos para produzir resultado pode não impedir que o atleta acumule dívidas, que um clube credor enfrente uma crise de caixa ou que fornecedores sejam arrastados para uma sequência de inadimplências.
A resposta não deve se limitar à cobrança posterior. Precisa incluir prevenção: controle de obrigações vencidas, planejamento de liquidez, transparência financeira, monitoramento dos compromissos salariais e mecanismos que reduzam a possibilidade de uma instituição manter suas atividades acumulando dívidas com quem sustenta sua operação.
A sustentabilidade financeira precisa considerar tanto os salários dos atletas quanto as obrigações entre clubes. Modelos regulatórios como o da UEFA tratam separadamente dos pagamentos vencidos a outros clubes e das obrigações perante empregados, reconhecendo que essas dimensões integram a disciplina financeira do futebol. Fonte: [UEFA — Regulamento de Licenciamento e Sustentabilidade Financeira](https://www.uefa.com/).
Sustentabilidade não é apenas continuar competindo
O futebol não pode confundir continuidade operacional com sustentabilidade. Um clube pode disputar campeonatos, contratar atletas e buscar novos investimentos enquanto acumula compromissos vencidos. Mas a manutenção da atividade não elimina o custo imposto aos credores.
Quando um atleta precisa comprometer o próprio sustento para que o clube continue funcionando, a crise já ultrapassou o balanço financeiro. Quando um clube menor deixa de receber e passa a atrasar a própria folha, a crise se propaga. Quando fornecedores e famílias são atingidos, o prejuízo ultrapassa definitivamente as fronteiras do campo.
A responsabilidade financeira não se resume a registrar dívidas, renegociá-las ou aguardar decisões judiciais. Exige capacidade de honrar compromissos e mecanismos capazes de impedir que a dificuldade de uma instituição seja transferida indefinidamente aos elos mais vulneráveis da cadeia.
A sustentabilidade de um clube não se mede apenas por sua capacidade de continuar competindo, mas também por sua capacidade de pagar quem torna a competição possível.



