Quando a identidade deixa de ser discurso e passa a orientar decisões
No artigo anterior escrevi sobre a importância de um clube construir uma identidade que seja maior do que qualquer treinador.
Aqui quero ir um passo à frente, mas de forma muito mais prática.
Porque definir identidade não chega.
É preciso conseguir traduzi-la em comportamentos, criar critérios para observá-los, medir, avaliar e, a partir daí, decidir melhor.
Definir → medir → avaliar → ajustar.
E existe uma consequência que considero particularmente importante: quanto mais este processo pertence ao clube, menos conhecimento desaparece sempre que uma pessoa sai.
Nos últimos anos, através do meu trabalho na MyGamePlan, tive oportunidade de conhecer de perto diferentes clubes, treinadores, analistas e metodologias. Os exemplos abaixo interessam-me precisamente porque mostram aplicações diferentes desta lógica.
Não existe um modelo único.
Existe, sim, uma pergunta comum: aquilo que o clube define como identidade consegue realmente chegar ao campo, ao jogador, à análise e à decisão e continuar dentro da organização?
O ponto comum é este: definir a identidade, traduzi-la em critérios observáveis, medir, avaliar e fazer com que esse conhecimento passe a pertencer ao clube.

NEC Nijmegen: medir aquilo que representa a identidade da equipe
O NEC mostra bem que medir uma identidade não significa simplesmente acompanhar as métricas que todos acompanham.
Na temporada 2025/26, em que o clube terminou em terceiro na Eredivisie e alcançou a qualificação para a Champions League, algumas das métricas utilizadas internamente estavam diretamente relacionadas com a forma como a equipe pretendia jogar.
Segundas bolas ganhas depois de tiros de meta longos.
Número de jogadores dentro da área nos cruzamentos.
Eficiência das transições.
Capacidade de impedir que a construção adversária chegasse ao último terço.
Robin Huntjens, Performance & Video Analyst do NEC, explica que a ligação entre performance data e vídeo permite concentrar rapidamente as conversas com a equipe técnica naquilo que realmente interessa.
Mas o mais relevante não é Robin, nem a tecnologia utilizada.
É o processo que o clube constrói.
Primeiro define aquilo que considera importante na sua identidade futebolística. Depois identifica os comportamentos que representam essa ideia. Só então escolhe o que deve medir e avaliar.
A pergunta deixa de ser “que dados temos?”
E passa a ser: “o que queremos ser e como sabemos se isso está realmente a acontecer?”
Para quem gere ou investe num clube, esta diferença é relevante. Só é possível avaliar de forma consistente uma direção esportiva quando existem referências relativamente estáveis sobre aquilo que o clube está tentando construir.

QPR e Castellón: a identidade chega ao desenvolvimento individual
No Queens Park Rangers, essa lógica chega diretamente ao jogador.
Kevin Betsy, Individual Development Coach, Saul Hemingway, da equipe de análise, e os próprios atletas trabalham com planos individuais ligados aos perfis posicionais e aos objetivos específicos de cada jogador.
E existe um detalhe particularmente interessante.
Os jogadores consultam os clips e acompanham a evolução do próprio IDP antes das sessões de coaching.
Deixam de receber apenas uma conclusão do treinador.
Passam a participar na avaliação.
“Precisas defender melhor” é uma instrução vaga.
Definir o comportamento esperado naquela função, mostrar onde aconteceu ou não aconteceu e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo transforma a comunicação.
Mas, novamente, o ponto mais importante é institucional.
O objetivo individual não existe apenas na cabeça do treinador.
Existe um perfil.
Existem critérios.
Existe um histórico.
O clube consegue saber o que está desenvolvendo e acompanhar essa evolução mesmo quando as pessoas que trabalham diretamente com o atleta mudam.

No CD Castellón encontramos uma lógica semelhante de individualização.
O clube ligou a sua forma de jogar aos objetivos individuais, utilizando vídeo e indicadores para acompanhar aquilo que se esperava de cada jogador.
E Bob Voulgaris, proprietário do Castellón, acrescenta uma dimensão particularmente relevante para quem olha um clube também como investimento.
Nas palavras dele, “é importante gerar retorno sobre o investimento feito nos jogadores.”
A utilização de planos individualizados procura precisamente maximizar o potencial de cada jogador e, com isso, aumentar tanto a sua performance como o seu valor de mercado.
É uma ligação que considero fundamental.
Desenvolvimento individual não é apenas coaching.
É também desenvolvimento de ativo.
Quando a identidade está definida, o clube consegue estabelecer aquilo que espera de determinada função, transformar isso em objetivos individuais, medir evolução e avaliar se o investimento realizado no jogador está realmente produzindo retorno esportivo e econômico.
Identidade → função → objetivo individual → medição → desenvolvimento → performance → valor.

Al-Taawoun: a identidade também orienta aquilo que procuramos no adversário
Nem toda aplicação da identidade está relacionada com aquilo que fazemos com a nossa própria equipe.
Também influencia a maneira como analisamos o adversário.
O Al-Taawoun compete na Arábia Saudita contra clubes com recursos financeiros muito superiores.
A diferença de orçamento não desaparece.
Mas a diferença de preparação pode ser reduzida.
Luiz Fernando Silva, Data & Performance Analyst, começa a análise pela própria observação do jogo e introduz os dados numa segunda fase, evitando que os números condicionem antecipadamente aquilo que procura.
Depois, a informação é organizada em função das perguntas que interessam à equipe técnica e à forma como o Al-Taawoun pretende competir.
Num jogo contra o Al-Hilal, por exemplo, a análise identificou uma vulnerabilidade específica na organização defensiva das bolas paradas.
Péricles Chamusca e a sua equipe utilizaram essa informação na preparação, e o próprio treinador explicou posteriormente que o padrão identificado ajudou a explorar aquela fragilidade e conquistar um empate.
O exemplo é interessante porque mostra que medir não significa produzir dashboards.
Significa transformar informação em conhecimento útil para uma decisão.
E quando os recursos financeiros são diferentes, a capacidade de institucionalizar esse conhecimento e preparar melhor pode tornar-se uma vantagem competitiva.

FC Volendam: quando o método deixa de pertencer apenas ao analista
Este talvez seja o exemplo que melhor responde à pergunta que abre este artigo.
Um analista pode passar anos desenvolvendo uma excelente metodologia.
Sabe como prepara adversários.
Tem critérios próprios.
Tags.
Linguagem.
Sequências de trabalho.
Depois sai.
O que fica?
No FC Volendam, Jim Smit já possuía uma estrutura própria de análise. O objetivo não foi substituí-la.
Foi transformar parte desse conhecimento num processo mais repetível e menos dependente de horas de trabalho manual.
Os critérios continuam vindo do futebol.
A experiência do analista continua indispensável.
Mas a metodologia começa a ficar registrada e reproduzível dentro do clube.
É precisamente esta diferença que me interessa.
Institucionalizar não significa retirar conhecimento às pessoas. Significa fazer com que o conhecimento que elas produzem também passe a pertencer à organização.
O analista pode mudar.
O processo pode evoluir.
Mas o clube não precisa voltar sempre à primeira página.

Independiente del Valle: a identidade decide as perguntas, os dados ajudam nas respostas
No Independiente del Valle, Juan Giuffra, Chief Analyst, utiliza uma lógica que considero particularmente interessante.
Primeiro observa.
Depois mede.
Giuffra começa o estudo do adversário com a própria leitura do jogo, precisamente para evitar que os dados determinem previamente aquilo que deve procurar.
Só depois utiliza trackers construídos em torno das fases do jogo, dos princípios posicionais e do próprio modelo da equipe.
Esta ordem importa.
Porque medir uma identidade não significa deixar os números dizerem ao clube como deve jogar.
É exatamente o contrário.
A identidade ajuda a definir as perguntas.
A observação, o vídeo e os dados ajudam a encontrar respostas.
O processo passa então a ser reutilizável: existem referências comuns sobre aquilo que se procura, a forma como se organiza a informação e como essa informação chega à equipe técnica e aos jogadores.
O conhecimento deixa de ser apenas a leitura individual de um analista e começa a integrar a forma como o clube trabalha.
No scouting, a identidade precisa virar perfil
No recrutamento, a mesma lógica deveria existir.
Antes de procurar nomes, precisamos saber aquilo que procuramos.
Não apenas “um lateral” ou “um centroavante”.
Mas que função esse jogador precisa desempenhar dentro da identidade e do modelo do clube.
A partir daí podemos definir os comportamentos relevantes, escolher métricas que ajudem a identificá-los e aplicar filtros relacionados com idade, competição, minutos, situação contratual, custo e margem de desenvolvimento.
Depois entra aquilo que continua sendo indispensável: vídeo, observação ao vivo, contexto, histórico físico, personalidade, adaptação e referências.
No trabalho que tenho desenvolvido utilizo uma sequência simples:
Perfil alvo → Métricas → Filtros → Análise → Comparação → Observação
Os perfis posicionais são precisamente a ponte entre identidade, modelo, scouting, formação e desenvolvimento.
Quando sabemos aquilo que cada função deve entregar, o scouting deixa de procurar simplesmente jogadores interessantes disponíveis no mercado.
Passa a procurar jogadores adequados às necessidades do clube.
E também aqui existe uma consequência clara para quem investe.
Um dos maiores riscos é contratar um bom jogador que deixa de fazer sentido poucos meses depois porque mudou o treinador e, com ele, mudou completamente aquilo que se pretende daquela posição.
Uma identidade clara não elimina esse risco.
Mas permite que o critério de recrutamento pertença mais ao clube e menos à preferência circunstancial de uma pessoa.
O padrão comum
NEC, QPR, Castellón, Al-Taawoun, Volendam e Independiente del Valle trabalham em países, continentes e realidades completamente diferentes.
É precisamente por isso que estes casos são interessantes.
No NEC, a identidade transforma-se em comportamentos e métricas próprias.
No QPR, chega à comunicação e ao desenvolvimento individual, deixando no clube um histórico sobre aquilo que cada jogador está desenvolvendo.
No Castellón, liga desenvolvimento a performance e valorização do ativo.
No Al-Taawoun, orienta a análise para informação que pode melhorar decisões competitivas.
No Volendam, permite transformar conhecimento individual num processo que a organização consegue preservar e continuar a utilizar.
No Independiente del Valle, define aquilo que a estrutura procura observar, deixando vídeo e dados a serviço dessas perguntas.
E no scouting, transforma-se em perfis e critérios que ajudam o clube a decidir onde investir.
As aplicações são diferentes.
A lógica é a mesma: definir a identidade, traduzi-la em critérios, medir, avaliar e aprender.
As pessoas continuam sendo fundamentais.
São elas que observam, interpretam, treinam, analisam e decidem.
Mas uma organização forte consegue fazer com que parte desse conhecimento não desapareça quando essas pessoas saem.
A identidade pertence ao clube.
E os processos construídos a partir dela também deveriam pertencer.
É aí que a identidade deixa de ser apenas aquilo que um clube diz que é.
Passa a ser uma forma de trabalhar e, sobretudo, algo que permanece quando as pessoas mudam.
Pedro Batista
Executivo de futebol luso-brasileiro com experiência na Europa, África e América do Sul. Com base profissional
construída no Sporting CP, liderou projetos na Nigéria e no Egito, desenvolvendo uma ampla rede no futebol africano. Na MyGamePlan, trabalhou com clubes das principais divisões da Europa, Ásia e Américas nas áreas de estratégia, scouting, recrutamento e desenvolvimento. É também cofundador e CEO da MindStats e defende uma gestão que combine resultados, inovação, sustentabilidade e responsabilidade social.


