A tecnologia de reconhecimento facial não é nova, mas seu emprego em sistemas de acesso em grande escala, como estádios de futebol, só se tornou viável e popular no Brasil a partir de 2021 graças à evolução da precisão e do desempenho dos algoritmos.
O NIST mostrou que, entre 2014 e 2018, os sistemas de reconhecimento facial melhoraram cerca de 20 vezes na capacidade de procurar uma pessoa em grandes bases. A taxa de falha em determinado teste 1:N caiu de cerca de 4% em 2014 para 0,2% em 2018. O próprio NIST atribuiu grande parte desse avanço à adoção de redes neurais convolucionais.
Até então, as ticketeiras consagraram o QR Code como método de acesso dominante, construindo seus sistemas baseados nessa tecnologia.
O novo cenário, com o uso da tecnologia facial, impulsionado não apenas pela inovação, mas também pela regulação, gerou uma necessidade de adequação por parte dessas ticketeiras. Agora seria não só necessário rever o “código” dos seus enormes sistemas, mas também resolver a questão dos leitores faciais, do cadastro facial dos torcedores e da carga de processamento que o facial gera, que é muito maior que o QR Code.
Chamo esse primeiro momento de “Primeira Onda do Reconhecimento Facial”.
Primeira Onda do Reconhecimento Facial
Nessa fase, os clubes optaram pelo caminho mais fácil, em vez de exigir de cada ticketeira que se adaptasse, aceitaram a figura de uma nova empresa que seria responsável pelo ecossistema facial (que vai do cadastro facial até a leitura facial na entrada do estádio)
Isso repassou aos clubes todo o custo do processo, além de um aumento significativo de despesas, já que agora teriam que pagar a ticketeira e o sistema facial.
Também gerou uma coisa impensável em 2026: o torcedor tem que se cadastrar em dois lugares para um mesmo processo de compra.
Mas o maior pecado dos clubes nesse primeiro momento, na minha opinião, foi o de não ser dono da sua base de dados. O torcedor se cadastra na facial e na ticketeira e seus dados pertencem a estes. Caso o clube queira trocar de fornecedor ou fazer seu próprio sistema, teria que refazer novamente todos os cadastros, pois estes não lhe pertencem.
Uma conversa que me fez entender melhor esse modelo
Há algum tempo, fiz uma pergunta muito simples a um executivo de uma grande empresa de ticketing.
Perguntei:
“Por que vocês mesmos não incorporam o reconhecimento facial à plataforma? Vocês já possuem o ingresso, o cliente e a operação. Por que deixar outra empresa capturar essa receita?”
A resposta foi igualmente simples:
“Porque somos sócios da empresa de facial.”
Naquele momento, aquele arranjo específico passou a fazer sentido empresarialmente pelo lado da ticketeira, mas confesso que ainda não vi o sentido disso pelo lado do clube.
A ficha começou a cair
Agora as dificuldades e limitações desse sistema começam a aparecer.
A primeira delas é a elevação do custo. A segunda é a evolução (acrescentar mais funcionalidades), a terceira é a estabilidade (não cair) e a quarta é a operacionalidade (o esforço para configurar cada evento)
Eu ouvi de uma fonte na CBF que em determinados estádios, o leitor era do estádio; o facial terceirizado tinha que se comunicar com esse leitor e a ticketeira tinha que se integrar com a empresa do facial.
É um casamento que tem tudo para dar divórcio. De quem é a culpa quando as coisas não funcionam bem?
O facial pode ir muito além do QR Code
Os clubes incorporaram esse custo imposto pelo facial, mas deixaram de se beneficiar de tudo o que essa nova tecnologia pode proporcionar.
Não vejo câmeras de IA integradas ao controle de acesso, compras de produtos pelo aplicativo no estádio com retirada facial, máquinas automatizadas de entrega de bebidas pela face, promoções individualizadas para cada torcedor, entre tantas outras possibilidades.
Simplesmente, na primeira onda, o QR Code foi trocado pela face.
Não foram implantadas funcionalidades que poderiam aumentar em muito a receita dos clubes, como a venda de produtos em upsell, por exemplo, talvez porque demandariam desenvolvimento por parte das ticketeiras.
A segunda onda
Na segunda onda, vejo o desaparecimento do nome “ticketeira”.
Esse nome já não define tudo o que pode ser feito a partir da tecnologia facial. Ticketeira vende tickets e estes servem apenas para acesso. A face permite ir além do acesso.
Temos que criar algo como uma “Jornadeira” em seu lugar.
Da compra do ingresso, passando pela jornada de sócios, pelo upsell de produtos, sistemas de engajamento, máquinas automatizadas de entrega de bebidas e sistemas de pontuação, câmeras de monitoramento, gerenciamento do staff, acesso aos estacionamentos por placas, tudo deveria estar integrado em uma única plataforma.
A segunda onda precisa começar, mas não vejo isso acontecendo dentro do modelo atual: caro, difícil de manter e fragmentado entre diversos fornecedores. Até pode ser feito, mas a um custo e esforço enormes.
Eu vejo a jornada do torcedor verticalizada em uma única plataforma, com uso intensivo de Inteligência Artificial.
Mas isso esbarra no poder e na influência que as ticketeiras exercem nos clubes e no receio de realizar uma mudança em um ponto tão sensível da operação.
Acredito que, no mundo capitalista, o modelo mais viável sempre tende a prevalecer.
E o primeiro clube a dar esse passo, desenvolvendo uma plataforma verticalizada que englobe todos os pontos da jornada do torcedor, poderá demonstrar que esse é o caminho.
Marcos Pereira
Administrador e empreendedor, apaixonado por tecnologia, inovação e inteligência artificial aplicada a negócios e experiências. Atua desde 2019 no desenvolvimento de projetos voltados a controle de acesso, biometria e reconhecimento facial. É formado em Economia e Administração, com pós-graduação em Gestão de Marketing pela FGV. Fundador da Facepass Soluções de Acesso, também atua como empresário nos setores de hotelaria, saúde, serviços e agronegócio, com participação em diversas empresas.


