Edit Template

Entre no canal do WhatsAPP

Você recebe notícias e atualizações diretamente e com total privacidade.

Quem apoia o nosso canal

Guarani e Ponte Preta: quando a rivalidade de Campinas dá lugar a uma crise que ameaça dois gigantes

Por muitos anos, Campinas teve o privilégio de assistir a uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Guarani e Ponte Preta não eram apenas dois clubes importantes do interior paulista. Eram protagonistas nacionais, capazes de enfrentar e vencer os grandes da capital e do país.

Hoje, porém, a realidade é dura. O Dérbi continua sendo paixão, identidade e divisão de famílias. Mas, fora dos 90 minutos, existe uma semelhança cada vez mais incômoda entre Bugre e Macaca: os dois clubes vivem consequências de problemas administrativos e financeiros que ajudam a explicar por que o futebol campineiro se afastou tanto do protagonismo que já teve.

A diferença é que, neste momento, a Ponte Preta parece estar vivendo um cenário ainda mais dramático. E o Guarani, mesmo em uma situação diferente, também está longe de poder comemorar estabilidade.

 

A Ponte no limite

A situação da Ponte Preta em 2026 é talvez uma das mais graves de sua história recente. Jogadores chegaram a paralisar as atividades alegando atrasos que, em alguns casos, alcançaram seis meses. O protesto não ficou restrito aos bastidores: a crise obrigou o clube a recorrer às categorias de base para evitar um W.O. na Série B.

Dentro de campo, o resultado da desorganização apareceu de forma cruel. A Ponte acumulou uma longa sequência sem vitórias, ocupa a última posição da competição e vê o fantasma de mais um rebaixamento cada vez mais próximo. Como se não bastassem os problemas financeiros, houve mudança no comando técnico e restrições que dificultam até mesmo a montagem do elenco.

É impossível analisar o desempenho esportivo sem olhar para o que acontece fora do campo, afinal, futebol não é uma equação simples.

Salário atrasado não significa automaticamente derrota. Mas imaginar que jogadores, funcionários e comissão técnica conseguirão trabalhar normalmente em meio à insegurança financeira é ignorar a realidade.

Um clube que não consegue garantir o básico aos seus trabalhadores dificilmente consegue exigir excelência deles.

E talvez o mais simbólico seja lembrar que essa mesma Ponte Preta conquistou recentemente o primeiro título nacional de sua história, levantando a Série C em 2025. A conquista, porém, já carregava um alerta: mesmo durante aquela campanha, existiam dificuldades financeiras e atrasos salariais.

Ou seja: a taça não resolveu o problema. Apenas adiou uma discussão que o clube precisava enfrentar.

 

A SAF: esperança e também um problema

Na Ponte, a SAF passou a ser tratada por muitos como uma necessidade urgente. Jogadores chegaram a defender publicamente uma solução estrutural para o clube, enquanto o processo enfrentou dificuldades e impasses internos e jurídicos.

Mas aqui existe um ponto fundamental: SAF não é milagre.

Transformar um clube em empresa não apaga dívidas automaticamente. Não garante competência. Não impede más decisões. E, principalmente, não substitui transparência e boa gestão.

Uma SAF mal construída pode apenas trocar os problemas de lugar.

A Ponte precisa, sim, encontrar um caminho para sobreviver financeiramente e voltar a competir. Mas a pressa causada pelo desespero não pode fazer o clube aceitar qualquer solução.

Porque patrimônio, estádio, marca e história não são ativos comuns. São parte de uma instituição construída por gerações.

 

O Guarani também está longe da tranquilidade

Do outro lado da cidade, o cenário também preocupa. O Guarani enfrentou atrasos salariais durante a temporada. Em agosto, jogadores chegaram a suspender um treinamento com bola em protesto pelos pagamentos pendentes. Posteriormente, parte das pendências foi quitada, mas direitos de imagem e outros compromissos continuaram fazendo parte das preocupações dos bastidores.

O problema financeiro também apareceu justamente em um momento decisivo da Série C.

O Bugre entrou na última rodada dependendo das próprias forças para avançar, mas empatou com o Brusque e terminou fora do G-8, na 10ª colocação. Mais uma temporada terminou sem o objetivo que a torcida esperava: o retorno à Série B.

É claro que não se pode colocar toda a responsabilidade da eliminação nos salários atrasados. Futebol tem muitos fatores: planejamento, elenco, escolhas técnicas, desempenho e decisões tomadas ao longo de toda uma temporada.

Mas também seria ingenuidade fingir que o ambiente extracampo não interfere.

Um clube pressionado financeiramente toma decisões pressionadas. Um elenco preocupado com pagamentos não vive uma temporada normal. Uma diretoria que precisa apagar incêndios tem menos tempo para construir um projeto.

E o futebol brasileiro está cheio de exemplos de clubes que descobriram tarde demais que improvisação não é planejamento.

 

No Guarani, a SAF está mais perto — mas ainda não está resolvida

A proposta de SAF apresentada ao Guarani prevê uma operação de grande porte, envolvendo investimentos na operação do futebol, novo estádio, centro de treinamento e recursos destinados ao passivo da recuperação judicial. Pela proposta em discussão, o investidor ficaria com 90% da SAF, enquanto o Guarani manteria 10%.

O problema é que uma negociação desse tamanho não pode ser tratada apenas como uma votação entre “sim” e “não”.

Existem perguntas que precisam ser respondidas.

Quem controla o quê?

Quais são as garantias reais de investimento?

O dinheiro será colocado imediatamente ou condicionado a metas futuras?

O que acontece com o patrimônio?

Quem assume as dívidas?

O que acontece se o projeto não for cumprido?

E, principalmente: quem protege o Guarani daqui a dez, vinte ou cinquenta anos?

A votação, inicialmente prevista para o começo de setembro, foi adiada para o fim do mês devido à necessidade de ajustes jurídicos e legais na proposta.

E, sinceramente, esse adiamento pode ser melhor do que uma aprovação apressada.

Quando se negocia o futuro de um clube com mais de um século de história, alguns dias a mais para analisar documentos podem evitar décadas de arrependimento.

 

O contraste com o passado é doloroso

Talvez seja justamente o passado que torne o presente ainda mais difícil para o torcedor campineiro.

O Guarani não é apenas um clube tradicional. É campeão brasileiro de 1978 e, até hoje, o único clube do interior a conquistar a principal divisão nacional.

A Ponte Preta, por sua vez, chegou à final da Copa Sul-Americana em 2013, protagonizando uma das campanhas internacionais mais marcantes já realizadas por um clube do interior brasileiro.

Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, o futebol de Campinas não pedia licença para participar das grandes discussões nacionais.

Participava.

A Ponte foi vice-campeã paulista em 1977 e construiu equipes históricas. O Guarani revelou talentos, conquistou o Brasil e colocou Campinas definitivamente no mapa do futebol nacional.

Houve um tempo em que enfrentar Ponte ou Guarani significava enfrentar clubes competitivos, organizados e capazes de incomodar qualquer adversário.

Hoje, a discussão é outra.

Como pagar salários?

Como evitar rebaixamentos?

Como quitar dívidas?

Como aprovar uma SAF?

Como proteger o estádio?

Como sobreviver?

Essa é talvez a maior derrota do futebol campineiro.

 

A rivalidade não pode esconder o problema

O torcedor da Ponte pode comemorar os fracassos do Guarani. O torcedor do Guarani pode ironizar a situação da Ponte.

Isso faz parte do futebol.

O Dérbi precisa continuar sendo provocação, paixão e rivalidade.

Mas existe uma verdade que deveria preocupar toda Campinas: uma cidade do tamanho, da importância econômica e da tradição esportiva de Campinas não deveria assistir seus dois maiores clubes vivendo permanentemente em estado de emergência.

A crise de um rival não torna automaticamente o outro maior.

Quando Ponte e Guarani caem, perdem competitividade ou entram em colapso financeiro, quem perde também é o futebol da cidade.

Menos clássicos nacionais.

Menos jogadores importantes.

Menos visibilidade.

Menos receitas.

Menos crianças crescendo com o sonho de jogar no Brinco de Ouro ou no Moisés Lucarelli.

 

O futuro não será resolvido apenas com dinheiro

Talvez essa seja a principal lição.

Ponte Preta e Guarani precisam de dinheiro. Isso é evidente.

Mas dinheiro sem gestão apenas financia novos erros.

A SAF pode ser uma solução. Mas não pode ser uma religião.

O modelo associativo pode preservar tradições. Mas não pode servir de desculpa para administrações ineficientes.

O torcedor tem o direito de desconfiar. O conselheiro tem a obrigação de fiscalizar. O dirigente precisa entender que administrar um clube centenário não é administrar um patrimônio pessoal.

E os jogadores precisam receber.

Esse deveria ser o ponto mais básico de toda a discussão.

 

Dois gigantes procurando o caminho de volta

A história de Ponte Preta e Guarani mostra que os dois clubes já sobreviveram a momentos difíceis.

Mas sobreviver não pode ser o único projeto.

A Ponte não pode aceitar que o título da Série C de 2025 tenha sido apenas um breve intervalo antes de uma nova crise. O Guarani não pode se conformar em transformar a Série C em rotina enquanto carrega no peito a condição histórica de campeão brasileiro.

Os dois precisam voltar a pensar grande.

Não necessariamente em títulos imediatos. Mas em projetos grandes.

Projetos de dez anos.

Com responsabilidade financeira.

Com categorias de base.

Com patrimônio protegido.

Com transparência.

Com profissionais qualificados.

E com dirigentes que entendam que o clube continuará existindo quando seus mandatos terminarem.

Porque o maior patrimônio da Ponte Preta e do Guarani não está apenas nos estádios, nas sedes ou nos contratos.

Está nas pessoas que passaram a vida inteira torcendo.

A geração que viu o Guarani campeão brasileiro.

A geração que viu a Ponte chegar a uma final continental.

E a geração atual, que merece conhecer algo além de salários atrasados, crises políticas, dívidas e discussões intermináveis sobre sobrevivência.

Campinas já foi palco de grandes momentos do futebol brasileiro. Ponte Preta e Guarani têm história demais para aceitar que o futuro seja apenas administrar a própria decadência.

A rivalidade continuará.

E ainda bem.

Mas talvez esteja na hora de os dois clubes perceberem que vencer o rival no Dérbi é importante.

Muito mais importante, porém, é voltar a vencer a própria crise.

Fagner Ramos

Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.

Compartilhe este artigo:

Este ecossistema representa uma oportunidade única de construir a principal referência em business do futebol no Brasil. Buscamos profissionais visionários que queiram fazer parte desta jornada transformadora, compartilhando conhecimento e construindo uma comunidade sólida e engajada.

Interessado em colaborar? Entre em contato para discutirmos como sua expertise pode agregar valor ao nosso ecossistema e como podemos potencializar sua presença digital no mercado do futebol.

Plataforma de conteúdo

Nosso objetivo principal é democratizar o conhecimento sobre gestão, negócios e aspectos corporativos do futebol, com foco especial no modelo SAF, fornecendo conteúdo de qualidade para profissionais, investidores, torcedores e interessados no setor.

Posts recentes

  • All Post
  • Abracinho
  • Artigos
  • Confut Nordeste
  • Confut Sudamericana
  • Copa do Mundo
  • Cursos
  • Entrevistas
  • Feed RSS
  • Fórum SAF
  • IPIE UFPR
  • Notícias
  • Publicações
  • São Paulo Innovation Week
  • Summit CBF Academy

Canal no YouTube

Confut
CALENDÁRIO DE EVENTOS CONFUT

Em 2026, a Confut continua sua jornada global, criando espaços onde futebol, negócios e inovação se encontram em diferentes mercados e culturas.

Dos Estados Unidos ao Brasil, os eventos seguem como uma plataforma para conversas relevantes, networking estratégico e as pessoas que constroem o futuro do futebol.

📍 Confut Sudamericana
🗓 08 a 10 de setembro de 2026 | Rio de Janeiro (Grand Hyatt)
O maior encontro B2B do futebol da América do Sul.

📍 Confut Nordeste
🗓 08 a 10 de dezembro de 2026 | Recife (Recife Expo Center)
O maior encontro B2B do futebol no Nordeste do Brasil.

Novo ano. Novos palcos. Mesmo propósito: construir juntos o futuro do futebol.
Saiba mais:

Edit Template

Canal no WhatsApp

Siga nosso canal e receba nossas melhores notícias direto no seu celular

Sobre

A Sou SAF é uma plataforma especializada em curadoria de conteúdo sobre Sociedades Anônimas do Futebol (SAF) e gestão esportiva, oferecendo análises aprofundadas e informações relevantes sobre o mercado do futebol brasileiro.

Posts recentes

  • All Post
  • Abracinho
  • Artigos
  • Confut Nordeste
  • Confut Sudamericana
  • Copa do Mundo
  • Cursos
  • Entrevistas
  • Feed RSS
  • Fórum SAF
  • IPIE UFPR
  • Notícias
  • Publicações
  • São Paulo Innovation Week
  • Summit CBF Academy

© 2026 Criado por ElevateLaw