A Série D do Campeonato Brasileiro, divisão de entrada do futebol nacional, encerrou a temporada de 2026 com um retrato importante sobre o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF): 21 clubes constituídos sob esse formato disputaram a competição, mas apenas o Uberlândia conseguiu o acesso. O desempenho das SAFs na divisão, diferentemente do que ocorreu na Série C — onde cinco SAFs lideraram a primeira fase —, não foi tão positivo. O número da Série C inclui a Inter de Limeira que teve a constituição e venda da sua SAF aprovada há menos de uma semana.
O modelo de SAF foi criado pela Lei nº 14.193, promulgada em 5 de agosto de 2021, e evoluiu rapidamente no país, chegando a mais de 140 clubes atualmente, de acordo com dados da pesquisa Mapa da Expansão das SAFs no futebol brasileiro (junho 2026), do Observatório Social do Futebol. Vale ressaltar, porém, que, das mais de 140 SAFs existentes até o momento, uma grande maioria é constituída de clubes que não estão sequer na primeira divisão estadual — e, portanto, não alcançarão a Série D em breve —, e muitas outras não estão inscritas em competições profissionais, sendo clubes de formação.
Participação recorde, desempenho discreto
Das 21 SAFs que disputaram a Série D em 2026, apenas oito alcançaram a terceira fase (32 avos). O dado ganha ainda mais relevância porque, a partir desta temporada, alcançar essa etapa passou a ser o critério que garante a participação na temporada seguinte — uma novidade implementada pela CBF. Em outras palavras, mais da metade das SAFs presentes na divisão não assegurou sequer a permanência automática na competição com base no desempenho em campo.
O acesso veio para poucos. Seis clubes foram promovidos da Série D ao todo: ASA de Arapiraca, ABC FC, SE Gama e Uberlândia EC garantiram a vaga direta ao alcançarem as semifinais, enquanto Goiatuba e Nacional-AM conquistaram as últimas vagas nos playoffs, disputados entre os derrotados nas quartas de final. Dos seis promovidos, apenas o Uberlândia é uma SAF — um contraste direto com a Série C do mesmo ano, que teve cinco SAFs entre os oito classificados para a segunda fase, justamente nas cinco primeiras posições.
Um caso curioso ilustra a complexidade do cenário: o Gama, clube mais tradicional do Distrito Federal, é um dos oito casos registrados de SAFs que chegaram a ser constituídas, mas foram extintas por razões diversas. O clube hoje tem a sua gestão concedida para um grupo privado, mas ainda não restabeleceu uma SAF — mesmo assim, conseguiu o acesso à Série C.
O que esperar da base da pirâmide
A leitura dos números sugere um caminho que passa menos pelo desempenho em campo e mais pela própria expansão do modelo. É possível que tenhamos cada vez mais SAFs na Série C, mas não necessariamente isso acontecerá a partir do desempenho dos clubes da Série D. Talvez o aumento aconteça somente pela transformação ou surgimento de novos clubes do modelo, visto que o desempenho dos clubes da divisão de acesso não foi tão positivo neste ano.
O cenário da Série D de 2026 reforça, portanto, um retrato em construção: o modelo de SAF cresceu em quantidade e presença em todas as divisões, mas o desempenho na base da pirâmide ainda é desigual — com protagonismo pontual, como o acesso do Uberlândia, e uma maioria que segue buscando consistência dentro e fora de campo.
Fonte: ge.Globo.



