A Federação Argentina de Futebol (AFA) tornou-se alvo de uma investigação do FBI por suspeita de fraude e lavagem de dinheiro, em um caso que reacende a memória do Fifagate, escândalo que abalou o futebol mundial em 2015. A apuração foi publicada pelo jornal argentino La Nación, com reportagem do jornalista Rodrigo Capelo. No centro das suspeitas está a empresa TourProdEnter, ligada ao produtor teatral Javier Faroni e à empresária Erica Gillette, que administrou propriedades comerciais da AFA fora da Argentina, incluindo contratos com a Adidas e a Warner, e movimentou pelo menos US$ 260 milhões por meio de bancos nos Estados Unidos.
O volume de dinheiro que passou por instituições financeiras americanas como Citibank, Synovus, Bank of America, JP Morgan e PNC Bank é o principal motivo que levou o FBI a se debruçar sobre as operações da entidade comandada por Claudio “Chiqui” Tapia. A investigação é conduzida pelos promotores Patrick Gushue, Christopher Ting e Michael Berger, do Distrito Sul da Flórida, todos especializados em crimes financeiros. Um dos depoimentos mais importantes até agora foi o do empresário Guilherme Tofoni, autor da denúncia que deu origem à apuração.
Conflito com o governo argentino e mudança de postura do FBI
Por trás do caso, está o conflito entre a AFA e o governo do presidente Javier Milei. Em setembro de 2024, o Ministério da Segurança da Argentina enviou um alerta às autoridades americanas, mas o FBI entendeu naquele momento que não havia elementos suficientes para a abertura de um inquérito criminal. A postura da agência mudou no começo de 2026, quando novos documentos bancários foram apresentados. Segundo os investigadores, dos US$ 260 milhões movimentados pela TourProdEnter, apenas uma parte possui despesas operacionais claramente identificadas. Cerca de US$ 57 milhões foram direcionados a empresas diferentes, o que levantou a necessidade de apurar as origens e os destinos do dinheiro.
Paralelamente, Tapia enfrenta dificuldades legais em outras frentes. O presidente da AFA precisou de autorização da Justiça argentina para viajar aos Estados Unidos a fim de acompanhar os jogos da seleção na Copa do Mundo, além de ter pago fiança milionária em outro processo no qual é investigado por retenção indevida de contribuições previdenciárias. A situação expõe a falta de transparência financeira da entidade: entre as grandes federações do futebol mundial, a AFA é uma das poucas que não publica demonstrações contábeis, ao lado de México e China — ao contrário de Brasil, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália e França, que divulgam regularmente seus balanços. Em janeiro, a federação foi obrigada a entregar cópias dos balanços dos últimos sete anos, referentes ao mandato de Tapia, para a Inspección General de Justicia argentina. Ao fazê-lo, publicou uma defesa de seus procedimentos em um texto intitulado “A única verdade é a realidade”, questionando a competência do órgão e afirmando que nunca havia escondido os documentos — que, apesar disso, não podem ser encontrados no site da entidade.
Fonte: As informações são do jornal La Nación, com reportagem de Rodrigo Capelo da Sport Insider.



