Felipe Carregal, ex-vice-presidente do departamento jurídico do Vasco, esclareceu seu posicionamento sobre o processo de venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube. Apesar de se declarar favorável à transação, o advogado apontou dois entraves fundamentais que motivaram suas ressalvas durante as tratativas com os representantes do investidor Marcos Lamacchia.
As ponderações do ex-dirigente surgiram como resposta a manifestações recentes sobre o andamento das negociações. Carregal confirmou que esteve no escritório de Lamacchia em diversas ocasiões, ressaltando que esses encontros foram realizados com o pleno conhecimento do atual presidente do Vasco, Pedrinho.
Impasses na governança e representatividade do clube
Um dos principais pontos de atrito detalhados por Carregal envolveu a composição dos órgãos de gestão da futura empresa. Segundo o advogado, a proposta apresentada pelos representantes do investidor não previa a concessão de cadeiras ao Vasco associativo no Conselho de Administração da SAF, nem no Conselho Fiscal.
Na avaliação do ex-vice-presidente, a ausência de representatividade nesses órgãos seria prejudicial à instituição. A falta de assentos impediria que o clube tivesse voz ativa ou capacidade direta de fiscalização sobre as decisões e a saúde financeira da nova estrutura societária, mesmo após a conclusão da venda.
Questionamentos sobre a valorização dos aportes financeiros
A segunda objeção central diz respeito à estrutura financeira do contrato. O plano de investimento previa um total de R$ 500 milhões, divididos em parcelas anuais de R$ 100 milhões ao longo de cinco anos. Carregal manifestou-se contra a ausência de uma cláusula de correção monetária para esses aportes.
O argumento do advogado é que, sem a previsão de reajuste, o valor real recebido pelo Vasco seria progressivamente corroído pela inflação ao longo do período de cinco anos. Na prática, isso resultaria em um aporte financeiro efetivo menor do que o montante nominal prometido inicialmente, o que comprometeria o valor final da negociação para o clube.
Veja a resposta de Carregal ao ge:
“Sim, estive no escritório do Seu José em algumas oportunidades, sempre com a ciência de membros da diretoria. Em um primeiro momento, quando o investidor voltou à mesa de negociação no ano passado, atuei para aparar as arestas existentes entre as partes, em razão da negociação anterior, que acabou não sendo concluída.
Quanto à venda em si, sempre fui favorável, em ambas as negociações realizadas. O próprio presidente é testemunha ocular disso.
Na segunda negociação, na qualidade de Vice-Presidente Jurídico, ressaltei a necessidade de o clube ter um representante no Conselho de Administração e no Conselho Fiscal da nova SAF. O investidor não queria. Fiz essa ponderação porque entendo que o acionista minoritário – no caso, o clube – deveria ter uma mínima representatividade nesses órgãos de governança. Evidentemente, o investidor teria a maioria absoluta das indicações para ambos os conselhos, mas o clube, na condição de acionista minoritário, deveria estar representado institucionalmente para exercer, de alguma forma, os poucos direitos que lhe caberiam dentro desses conselhos.
Também defendi que a cadeira destinada ao clube no Conselho de Administração da nova SAF fosse ocupada pelo presidente do CRVG. Inclusive, manifestei esse entendimento diretamente ao investidor em determinada oportunidade.
Vale lembrar que no acordo de acionistas firmado com a 777, o clube possuía duas cadeiras. E os americanos, cinco cadeiras. O Conselho Fiscal, por sua vez, era composto por dois membros indicados pela 777 e um pelo clube.
Outro ponto por mim alertado foi a ausência de previsão de correção monetária dos aportes. Na minha avaliação, os valores previstos deveriam ser atualizados monetariamente ao longo do tempo (seriam feitos em 5 anos), como em qualquer contrato com pagamentos diferidos no tempo. Era assim no contrato com a 777.
Além da questão jurídica, esses pontos também me preocupavam porque poderiam gerar resistência ao negócio no âmbito das instâncias deliberativas do clube. Minha preocupação era justamente evitar obstáculos que pudessem retardar ou comprometer a conclusão da negociação. Tenho registro dessas manifestações.
De toda forma, minha atribuição era opinar e orientar sob a perspectiva jurídica. A decisão final, naturalmente, sempre competiu ao presidente do clube. E ele poderia decidir no sentido da minha orientação ou não.
Diante dessas minhas ponderações jurídicas, comecei a ser pressionado a mudar de opinião, sob a justificativa de que a discussão jurídica, compartilhada por outros advogados envolvidos nas negociações, estaria “atrapalhando a venda”. Não mudei meu entendimento e fui afastado das negociações há alguns meses. Não sei dizer a razão pelo qual o MoU não foi assinado até hoje. Ou se já foi assinado.”
Fonte: ge.Globo.



