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Bilhões na mesa, mas falta assinar: o que separa o Vasco do “Maior Projeto da América do Sul”?

A torcida do Vasco da Gama viveu uma sexta-feira histórica no dia 25 de setembro de 2026. Em uma audiência na 4ª Vara Empresarial do Rio, a Almirante Participações, empresa do bilionário Marcos Lamacchia, venceu o leilão judicial e garantiu o direito de comprar 90% da Vasco SAF (a empresa que hoje administra o futebol do clube). E o caso não interessa só a quem torce pelo Vasco: é um teste real de como as regras do futebol brasileiro lidam com bilhões de reais e conflitos de interesse entre clubes rivais.

O negócio impressiona: o compromisso financeiro total supera a casa dos R$ 4 bilhões, incluindo R$ 500 milhões diretos para o futebol, investimentos pesados na base, no CT e o pagamento das dívidas da Recuperação Judicial.

Mário Junqueira, sócio de Lamacchia, não escondeu a empolgação e prometeu o “maior projeto esportivo da América do Sul”. Mas calma, torcedor: do ponto de vista do Direito, a caneta ainda não tocou o papel em definitivo. Para que a era Lamacchia comece de verdade, o Vasco precisa vencer algumas finais jurídicas de bastidores.

 

O crivo dos sócios

O primeiro desafio é dentro de casa. A proposta de Lamacchia é para comprar 90% da SAF. Acontece que o Estatuto atual do Vasco diz que o clube associativo (a parte social comandada por Pedro Paulo de Oliveira, o “Pedrinho”, ex-jogador e atual presidente do Vasco) precisa manter, no mínimo, 20% das ações.

O que acontece agora? O Vasco precisa reformar seu estatuto para reduzir essa fatia mínima para 10%. O contrato já foi encaminhado para análise: primeiro passa pelo Conselho Deliberativo e, se aprovado, vai para a Assembleia Geral Extraordinária (AGE), a reunião em que os próprios sócios do Vasco votam para dar o “sim” definitivo ao negócio. A diretoria corre contra o tempo e planeja fechar isso até o fim de outubro de 2026.

 

Investigação por conflito de interesses 

Esse é o ponto mais complexo do xadrez jurídico. Marcos Lamacchia é casado com Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Pelas leis brasileiras e pelas regras do futebol, uma mesma família ou grupo econômico não pode controlar dois clubes que disputam a mesma divisão.

A ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, o órgão de Fair Play Financeiro da CBF) abriu uma investigação rigorosa sobre o caso. Medidas preventivas já foram tomadas: o Vasco está temporariamente proibido de pegar empréstimos com a Crefisa (financeira de Leila Pereira e José Roberto Lamacchia) e de negociar jogadores diretamente com o Palmeiras.

A saída jurídica em estudo: Marcos Lamacchia sairia temporariamente do contrato social da Almirante Participações, deixando a empresa apenas no nome do sócio Mário Junqueira até o fim do mandato de Leila Pereira no Palmeiras, sem que Lamacchia assuma qualquer cadeira no conselho da SAF vascaína.

 

O filtro da justiça empresarial

Como o Vasco está em Recuperação Judicial, a venda foi estruturada como uma UPI (Unidade Produtiva Isolada), na prática, o investidor compra o “futebol limpo”, e o valor pago vai para um fundo que paga os credores antigos, sem risco de novos bloqueios nas contas da SAF. Falta agora a juíza homologar oficialmente a venda (o Auto de Arrematação), dentro do prazo em que credores ou o Ministério Público ainda podem contestar. Um acordo sigiloso recente com a antiga dona, a 777 Partners, já ajudou a limpar o terreno.

 

A hora do Pix e das chaves

Chegamos ao closing, o momento em que o negócio deixa de ser promessa e vira realidade registrada. Aprovado pelos sócios, liberado pela CBF e carimbado pela Justiça, os contratos definitivos são assinados, a mudança de donos é registrada na Junta Comercial e os aportes começam a cair oficialmente nos cofres do clube.

No fim das contas, a parte mais difícil desse negócio, achar um comprador bilionário e estruturar uma venda segura pela Justiça, já ficou para trás. O que resta agora não é mais uma questão de dinheiro, e sim de regras: se o Vasco conseguir provar que consegue crescer sem ferir o equilíbrio que sustenta o próprio futebol, o torcedor vascaíno pode fechar 2026 com um clube reconstruído. Se não conseguir, o “maior projeto da América do Sul” corre o risco de nascer bilionário e esbarrar nas próprias regras antes mesmo de sair do papel.

Fabiana Nardini

Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.

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