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Eles prometeram R$1,3 bilhão em 10 anos, a Selic subiu e foi preciso um novo investidor para jogar o jogo. Coritiba: a SAF do Justus!

Se existe uma pessoa que ficou famosa por demitir pessoas no mundo corporativo, essa pessoa foi Roberto Justus, sócio e conselheiro da Treecorp Investimentos, uma gestora de private equity fundada em 2012 com cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos sob gestão. A empresa foca em capital de crescimento e tem Justus como figura ativa, incluindo sua participação na compra de 90% da SAF do Coritiba e no portfólio que inclui a Ademicon.

O Coritiba divulgou recentemente o balanço financeiro de 2025, com déficit de R$ 113,9 milhões. Este é o segundo ano consecutivo de prejuízo sob a gestão da SAF (controlada majoritariamente pela Treecorp desde 2023), após um rombo ainda maior em 2024 (R$ 139,4 milhões). Apesar do título da Série B e do forte crescimento de receitas, as contas não fecharam no azul.

E esse movimento todo acabou culminando na chegada de um novo investidor: o Grupo Del Valle do Equador. A chegada do grupo equatoriano visa corrigir falhas de gestão esportiva da fase anterior da Treecorp, focando na formação de jogadores e na estruturação do futebol, prevê a construção de um novo CT com 6 a 8 campos e hotel, além da modernização do Couto Pereira.

E é nesse contexto que vamos aos números de 2025, cenário macroeconômico e à análise de pontos positivos, negativos e perspectivas.

 

Receitas: Salto expressivo, mas dependente de não recorrentes

  • Receita total: R$ 138,9 milhões (contra R$ 91,7 milhões em 2024).
  • Receita operacional líquida: Saltou de cerca de R$ 87 milhões para R$ 132,8 milhões (aumento superior a 50%), o maior patamar desde a criação da SAF.

 

Principais fontes:

  • Venda de jogadores (Piás do Couto em destaque): R$ 41,4 milhões (mais que o dobro de 2024).
  • Mensalidades de sócios: R$ 26,2 milhões.
  • Patrocínios: R$ 19,1 milhões.
  • Direitos de transmissão: R$ 13,5 milhões (ainda limitado pela Série B).
  • Venda de mercadorias (internalização de bares e lojas): R$ 12,5 milhões.

 

Ponto positivo: Crescimento orgânico relevante em sócios e patrocínios, além da monetização comercial. A venda de atletas mostra boa formação de base. A última parcela da Liga Forte União (R$ 39,8 milhões) ajudou no caixa.

 

Despesas: O vetor de custo que não foi contido

  • Despesas totais: cerca de R$ 252,8 milhões.
  • Departamento de futebol (profissional mais base): R$ 107,2 milhões (R$ 89,8 milhões no profissional e R$ 17,4 milhões na base).
  • Despesas administrativas: Subiram de R$ 65,7 milhões para R$ 81,3 milhões (alta de 24%).

 

O futebol consumiu praticamente toda a receita operacional líquida. Os investimentos em tecnologia, estrutura do CT e contratações administrativas explicam parte do aumento, mas revelam ineficiência operacional em um ano de Série B (receitas de TV menores).

Caixa final: Melhorou para R$ 21,3 milhões (contra R$ 3,6 milhões em 2024), graças a aportes dos acionistas (cerca de R$ 68 milhões) e recursos não recorrentes. Não é caixa operacional sustentável.

Aqui temos um grande redflag, a conta já não fecha na operação básica do clube, hoje para qualquer dinheiro que se buscar no mercado o juros é tão alto que vai consumir sua operação como se fosse um novo sócio com salário de “dono”.

 

Dívidas, Selic alta e inflação: O impacto macroeconômico

A Selic encerrou 2025 em patamar elevado (cerca de 15% ao ano, com manutenção após ciclo de alta), e a inflação (IPCA) fechou em cerca de 4,26%. Esses fatores pressionam diretamente as finanças dos clubes:

  • Juros sobre dívidas: Dívidas existentes (incluindo obrigações da recuperação judicial da associação, pagas via SAF) tiveram custo financeiro mais alto. Mesmo com aportes da Treecorp (previstos em R$ 1,1 bilhão ao longo de 10 anos para dívidas, reforma do Couto e novo CT), o serviço da dívida consome recursos que poderiam ir para o futebol ou investimentos.
  • Inflação: Aumenta custos operacionais (salários, aluguéis, insumos, passagens etc.) em cerca de 4 a 5% ao ano. Em um clube com folha elevada, isso erode margens rapidamente.
  • Efeito combinado: Alto custo de capital mais inflação pressionam o resultado financeiro (não operacional). Clubes alavancados sentem mais. O prejuízo operacional foi agravado por esses fatores macro, mesmo com aportes de investidores.

 

A SAF herdou e vem negociando dívidas antigas da associação (recuperação judicial), mas o balanço consolidado ainda reflete o peso. A conta gráfica e obrigações contratuais com a SAF também são destacadas nas notas técnicas do balanço associativo.

 

Pontos positivos (processo em andamento)

  • Redução do prejuízo versus 2024 (melhora de cerca de R$ 25 milhões).
  • Crescimento robusto de receitas (superior a 50% operacional).
  • Bom desempenho em formação e vendas de atletas.
  • Aportes de novos sócios (OutField, Independiente del Valle como minoritário).
  • Retorno à Série A em 2026: TV, bilheteria, patrocínios e cotas devem subir significativamente.
  • Investimentos visíveis em estrutura (Couto, CT) com visão de longo prazo.

 

Pontos negativos e riscos

  • Prejuízo recorrente: Segundo ano no vermelho. Modelo ainda não se provou sustentável sem aportes constantes.
  • Alto custo do futebol relativo à divisão (Série B).
  • Dependência de vendas de jogadores e aportes: não é modelo escalável de longo prazo.
  • Despesas administrativas crescendo mais que a inflação (24% versus cerca de 4,26%).
  • Caixa inflado por itens não recorrentes.

 

Nota de Felipe Araujo: Isso me lembra a Ponte Preta quando ganhou seu primeiro título nacional na história. Qual é o custo real do titulo da série B? O Coritiba é de longe o clube que mais investiu dos 4 que subiram. Não é melhor ter uma operação menor porém sustentável e fazer uma subida saudável?

 

Perspectivas para 2026 e recomendações

Com a Série A, o Coritiba deve ver receitas totais crescerem entre 40% e 70% (TV, marketing etc.), dependendo da performance esportiva. O desafio é controlar custos do elenco e administração para converter isso em lucro ou, no mínimo, déficit controlado.

Como diretor esportivo e colunista, minha visão:

  1. Foco implacável em eficiência: Reduzir custo por ponto ou por vitória. Usar dados para folha salarial versus performance.
  2. Diversificação de receita: Ampliar sócio torcedor, e-commerce, experiências no estádio e parcerias internacionais (ex.: IDV).
  3. Gestão de dívida ativa: Acelerar amortização com alta Selic (evitar rolagem cara).
  4. Transparência como ativo: Continuar publicando balanços claros, o que constrói credibilidade com torcida e mercado.
  5. Plano de 3 a 5 anos: Mirar o break even em 2027, com investimentos em CT gerando retorno (academia de talentos).

 

O processo da Treecorp/OutField ainda está na fase de investimento pesado. O balanço 2025 mostra evolução, mas alerta que futebol não perdoa desequilíbrio financeiro. Em Série A, o Coxa tem a chance de virar a página, desde que alinhe campo e planilha.

 

O que eu faria se fosse diretor aqui?

Primeiro ponto é tracionar o sócio-torcedor como um hub nacional dentro do sul do Brasil, vender experiências e utilizar o próprio nome da cidade para favorecer o engajamento de pessoas de fora. A Capital do Paraná tem cerca de 2 milhões de habitantes, o Coxa tem penetração pequena de 35 mil sócios ativos, precisa saber melhorar esse número e criar um sistema de loyalty eficaz que sustente o crescimento.

Quanto realmente essa base gera de receita? Não temos de maneira clara esse dado, então começaria um trabalho com Scouting barato que fosse capaz de buscar talentos dentro do próprio estado e fazer uma base que seja capaz de revelar um jogador para primeira divisão a cada ano. Em 3 anos, provavelmente, faria a primeira grande venda para a Europa. Exemplo do Keirrison que foi para o Palmeiras e depois Barcelona. Venderia o jogador a clubes do eixo com um bom % amarrado para o caso de revenda para a Europa.

 

ACESSE AQUI o Informativo Financeiro completo da SAF do Coritiba.

Felipe Araujo

Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.

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