Os principais credores do Boavista disponibilizaram à massa insolvente mais de 742 mil euros, acrescidos de juros, para regularizar as dívidas fiscais do clube junto à Autoridade Tributária. A medida é mais um passo do processo que busca evitar o encerramento da instituição e criar condições para sua recuperação financeira.
O valor corresponde a responsabilidades fiscais relativas ao Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) e ao Adicional ao Imposto Municipal sobre Imóveis (AIMI), cujo total ultrapassa os 742 mil euros sem contar os juros. Desse montante, 417.425,82 euros se referem a IMI e AIMI de anos até 2023, com vencimento em 2024. A esses valores somam-se 157.885,05 euros do IMI de 2024, vencido em 2025, e 167.216,51 euros do IMI de 2025, com vencimento em 2026 — sobre os dois últimos incidem ainda os respectivos juros.
Na prática, o IMI é o imposto municipal que incide sobre imóveis, e o AIMI é uma taxa adicional aplicada a patrimônios imobiliários de valor elevado. No caso de um clube, essas obrigações recaem sobre estádio, terrenos e instalações — bens que, quando vinculados a dívidas fiscais, podem ser penhorados ou bloquear qualquer solução de continuidade.
O dinheiro vem do sinal da venda do Bessa
A origem dos recursos está identificada: o valor corresponde ao sinal da adjudicação do Estádio do Bessa, dos terrenos adjacentes e do campo de treinos, já depositado na conta da massa insolvente. Segundo informação transmitida à agência Lusa por fonte ligada ao processo, o montante se destina a pagar encargos da massa insolvente, créditos garantidos da Autoridade Tributária relativos ao IMI e os créditos laborais reconhecidos, que totalizam 734.805,85 euros. A informação confirma a entrada do dinheiro, mas não a conclusão de todos esses pagamentos.
Em paralelo, foi anunciada a disponibilização de mais de 720 mil euros para assegurar o pagamento de dívidas a funcionários e ex-funcionários do clube. A mobilização dos credores acompanha uma nova tentativa de evitar o encerramento: o Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia suspendeu por 30 dias o encerramento da atividade, que estava previsto para 31 de outubro, após pedido do Boavista e de credores que representam mais de metade dos créditos reconhecidos.
A autorização, porém, tem condições. O clube deve depositar até 8 de novembro o valor estimado das despesas correntes desse mês e apresentar o comprovativo até o dia 10. O descumprimento — ou a criação de novas dívidas sobre a massa insolvente — determina o fim automático da autorização, permitindo à administradora avançar para o encerramento sem a necessidade de outro despacho judicial.
Um plano novo, depois da recusa do primeiro
Os credores trabalham agora na elaboração de um novo plano de recuperação, que deverá ser apresentado nas próximas semanas. O documento será o elemento central da estratégia para enfrentar as dificuldades financeiras e definir um caminho de sustentabilidade.
O prazo adicional surge depois de os credores terem rejeitado, em 7 de outubro, o plano de recuperação apresentado pela direção de Rui Garrido Pereira. Na ocasião, o Boavista reconheceu a gravidade do resultado e anunciou que continuaria a negociar uma alternativa.
Em comunicado divulgado em 27 de outubro, a direção explicou que o pedido de adiamento resultou de uma reunião realizada no dia 20, no Bessa, com os principais credores hipotecários e seus representantes, autorizada pela administradora da insolvência. A iniciativa recebeu pareceres favoráveis dos principais credores, da Comissão de Trabalhadores, da Ágora e das Águas do Porto. O clube se comprometeu a aproveitar o mês adicional para aprofundar as negociações e buscar um entendimento que viabilize a recuperação.
Para quem acompanha de fora, o quadro tem uma lógica simples: sem dinheiro, um clube em insolvência não paga dívidas e caminha para o encerramento. Ao colocar recursos na massa insolvente, os credores não estão fazendo caridade — estão protegendo o próprio crédito, porque a alternativa, a liquidação total, costuma render menos do que a continuidade da operação.
Fonte: O Jogo; Jornal de Notícias; Diário de Notícias.


