A crise institucional da Ponte Preta ganhou um novo capítulo na esfera nacional. Membros da oposição e ídolos do clube protocolaram no Comitê de Ética da Confederação Brasileira de Futebol uma denúncia contra os atuais dirigentes e um pedido de intervenção da entidade máxima do futebol brasileiro. O documento foi registrado no último sábado (24) e reúne quase 50 assinaturas, entre ex-jogadores que fizeram história na Macaca, conselheiros e torcedores.
Entre os signatários estão nomes como Dicá, Oscar, Juninho Fonseca, Nelsinho Baptista, André Cruz e Renato Cajá. A peça relata supostas irregularidades e infrações éticas atribuídas aos atuais dirigentes, que, segundo os autores, indicam graves indícios de gestão temerária. A responsabilidade técnica pela denúncia é do advogado André Megale, ex-diretor da CBF.
A ofensiva política é conduzida pelos líderes dos movimentos Mãos Pontepretanas, Ricardo José Silva, e Ponte Pede Mais, Eduardo Lacerda Fernandes. Os dois defendem a renúncia de toda a diretoria, com atenção especial ao presidente Luiz Torrano e ao vice-presidente Marco Antônio Eberlin. “A oposição está unida e comprometida com a defesa da Ponte Preta e de sua apaixonada nação de torcedores. Nosso clube centenário está acima de interesses pessoais ou divergências políticas. Estamos somando forças para proteger sua história e construir um futuro com responsabilidade, transparência e planejamento. Defendemos a renúncia de toda a atual diretoria para viabilizar uma transição responsável, buscar soluções imediatas para os atrasos salariais, desenvolver um plano estratégico e atrair investidores sérios, comprometidos com o futuro do nosso futebol e com os anseios da nossa torcida”, afirma o documento. Procurado, o clube não quis se manifestar.
Uma crise que começou na Série C e atravessou o Paulista
O problema financeiro da Ponte Preta não é recente. Começou na metade do ano passado, durante a Série C — e, ainda assim, o clube conquistou o acesso e o seu primeiro título nacional. A situação se agravou em 2026. No Campeonato Paulista, a Macaca passou as primeiras rodadas impedida de registrar jogadores e foi rebaixada para a Série A2 com apenas um ponto.
O reflexo chegou ao elenco. Mais de 15 jogadores deixaram o clube ao longo da temporada por causa das pendências salariais, que em alguns casos superam os seis meses. Já rebaixada para a Série C, a Ponte precisou recorrer a jogadores das categorias de base para não perder por W.O., em meio a saídas e greves dos atletas do profissional.
Para o leitor que não acompanha os bastidores, o encadeamento importa: um clube impedido de registrar reforços perde competitividade, cai de divisão, vê a receita diminuir e, com o caixa menor, amplia o atraso de salários. É esse ciclo que a denúncia tenta interromper por meio de uma medida externa, já que a via interna — a renúncia da diretoria — depende da própria diretoria.
O precedente que sustenta o pedido
A possibilidade de a CBF intervir em um clube é o ponto mais sensível da denúncia, e o advogado responsável pela peça sustenta que há histórico para isso. “É possível (intervenção da CBF). Já houve casos de intervenção no passado, como no caso da Federação Paraibana de Futebol”, afirmou André Megale. Em 2018, o então presidente da Federação Paraibana, Amadeu Rodrigues, foi afastado. Questionado sobre o assunto, o advogado disse que o texto reúne elementos que justificam a apuração das condutas e o pedido de intervenção por parte da entidade nacional.
O desfecho agora depende do Comitê de Ética, que precisa analisar a peça e decidir se abre apuração. Enquanto isso, a Ponte Preta segue sem se pronunciar oficialmente sobre a denúncia e convive com dois problemas simultâneos: a queda para a Série C, já consumada, e um passivo trabalhista que afastou mais de 15 atletas do elenco ao longo do ano.



