Sem dinheiro, com penhoras e sustentado por uma recuperação judicial — o mecanismo legal que permite a uma empresa em crise renegociar suas dívidas sob controle da Justiça —, o Rio Branco, de Americana, reúne credores que reclamam de atrasos e apontam suspeitas de fraudes, enquanto avalia fazer uma parceria com a empresa que gere o futebol do Sertãozinho, da região de Ribeirão Preto. Pelo acordo, ainda em negociação, o clube inicialmente cederia seus símbolos, como uniforme e distintivo, para que a empresa “se vestisse” de Rio Branco e jogasse a segunda divisão paulista no lugar do Sertãozinho — enquanto o Rio Branco “original” pediria licença da Federação Paulista de Futebol. O clube alega que é a opção que resta: a outra é abandonar o futebol. O contraste com a história é doloroso para a torcida — o Tigre da Paulista foi celeiro de talentos nos anos 1990, com atletas que chegaram a defender seleções nacionais, como Marcos Senna, pela Espanha, um feito e tanto para um clube do interior de São Paulo que, naquele momento, vivia o seu período mais glorioso.
A última joia, o dinheiro que não chega e a empresa do presidente
O caso que acendeu o alerta envolve a última grande joia formada pelo clube. O Rio Branco tinha 30% dos direitos do lateral-direito Vanderson — hoje jogador da Seleção Brasileira — quando o Grêmio vendeu o atleta ao Mônaco, da França, em janeiro de 2022, por 11 milhões de euros, cerca de R$ 70 milhões na época. Uma parte do valor foi paga — e acabou dando início a suspeitas que ainda não foram esclarecidas e que fizeram o Ministério Público acionar a polícia. O Rio Branco, que prometia à Justiça usar esse dinheiro para pagar os credores trabalhistas, ficou sem saber, novamente, quando será pago pelo Grêmio: o plano aprovado pela CNRD, instância da CBF que analisa os planos de pagamento das dívidas dos clubes, é de parcelamentos por até 60 meses. E, quando o dinheiro chegar, o clube paulista não receberá o valor total — Hiroshi, ex-jogador do clube, acionou a Justiça em setembro com um pedido para que apenas 30% do valor, o correspondente à cota do Rio Branco, seja transferido à conta da recuperação judicial, e que os 70% restantes sejam pagos diretamente à empresa do ex-jogador. A liminar foi concedida, mas ainda é passível de recurso.

As suspeitas, porém, vão além. Extratos bancários anexados ao processo mostraram movimentações entre as contas do Rio Branco e as de uma empresa chamada Manager — que, agora se sabe, tem como sócio o presidente do clube, Cláudio Bonaldo. Valores que caíam na conta do clube quase que instantaneamente eram transferidos para a da Manager: em 16 de dezembro de 2024, o Grêmio depositou R$ 1,2 milhão e, na sequência, foram feitas três transferências para a empresa que somam exatamente R$ 1,2 milhão; em 20 de janeiro do ano seguinte, a mesma coisa — R$ 533 mil pagos pelo Grêmio, R$ 533 mil a caminho da Manager. Quando esses extratos foram anexados ao processo, em maio, chamaram a atenção da advogada de um ex-jogador do clube que tem cerca de R$ 60 mil a receber — foi ela quem levantou a mão e iniciou os questionamentos. As movimentações também entraram na mira do Ministério Público: em setembro, o promotor Fábio José Moreira dos Santos informou ter requisitado à polícia civil a “instauração de investigação preliminar, objetivando apurar a eventual prática de atos fraudulentos no curso da presente recuperação judicial”. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, ainda não houve a instauração de inquérito. A suspeita é de que o Rio Branco usasse a Manager — instalada numa residência onde apenas o filho de Bonaldo foi encontrado quando um oficial de Justiça foi ao local para intimar o sócio da empresa — como caixa paralelo, longe dos olhos dos credores.
À Justiça, o clube negou irregularidades e afirmou que, em razão das dificuldades, passou a não ter condições de administrar a operação e decidiu centralizar numa empresa todas as receitas e despesas do clube. “A Manager Serviços Administrativos Ltda. foi escolhida pelo Conselho Deliberativo por possuir o menor custo de administração”, completa a resposta dos advogados. O negócio, que para os credores carece de provas documentais, levou o juiz a determinar a apresentação dos contratos — o clube diz ter feito isso ao administrador judicial, que ainda está no prazo para concluir o relatório. “Os contratos apresentados registram, entre outros elementos, a identificação das partes envolvidas, os valores mutuados, a forma de entrega por transferência eletrônica, a conta gestora indicada para recebimento, os prazos de devolução, remuneração pactuada e garantias previstas nos instrumentos”, justifica o Rio Branco. Recentemente, o clube também informou que está negociando a venda de um terreno avaliado em valor superior a R$ 600 mil, montante que seria suficiente para quitar as dívidas trabalhistas — a proposta, porém, ainda não foi levada aos autos, como pediu o juiz.
O Sertãozinho de Americana e o efeito cascata nas divisões estaduais
Notícias sobre a possível fusão e o temor de que o negócio pudesse comprometer o patrimônio do clube fizeram os credores acionarem, novamente, a Justiça, que ordenou esclarecimentos — e a intenção, negada dias antes, foi confirmada nos autos no início do mês. A justificativa é de que o Rio Branco, sozinho, não suportaria os custos de disputar a Série A-3 mais uma vez: a conta prevê receitas otimistas de até R$ 480 mil e despesas que chegariam a R$ 1,8 milhão — um enorme buraco financeiro para o clube. Segundo documento anexado ao processo, a empresa com quem o Rio Branco negocia é a mesma que gere o futebol do Sertãozinho — e que é a “dona” da vaga do clube na Série A2 do Paulistão. A Federação Paulista de Futebol analisa a possibilidade e ainda não se manifestou. Quem assina o documento é o advogado Régis Villas Bôas Villela, que assumiu a defesa do clube de Americana no mês passado, quando as negociações já estavam em andamento — e que também é o principal gestor da empresa responsável pelo Sertãozinho.
A negociação criaria uma situação inusitada: os torcedores do Rio Branco veriam um time vestido com o uniforme e os símbolos da equipe, mas aquele seria, juridicamente, um outro clube. A petição não explica o que será feito do Rio Branco, que atualmente disputa a A3 — o estatuto da Federação permite que o clube se licencie por dois anos de competições, sem ser desfiliado, mas, ao voltar, precisa disputar a última divisão. Se o negócio se concretizar, outras equipes tendem a se movimentar entre as divisões de São Paulo fora de campo: o São Caetano — campeão paulista e vice da Libertadores, hoje na quarta divisão estadual — deve se beneficiar, deixando a A4 e ocupando a vaga do Rio Branco na terceira divisão, pois foi o melhor time a não conquistar o acesso na quarta divisão deste ano. Isso vale também para o Itaquaquecetuba, terceiro colocado da Segunda Divisão, equivalente à quinta e última divisão, que herdaria o lugar do São Caetano na A4.
A Justiça autorizou o Rio Branco e o Sertãozinho a manterem as negociações em andamento, mas ressaltou que não há “autorização antecipada para alienação ou oneração de bens e direitos sujeitos ao controle judicial” — ou seja, é possível que um acordo só possa ser assinado se passar pelo crivo do juiz da recuperação judicial. Na última quinta-feira, o administrador judicial — o profissional nomeado pela Justiça para acompanhar o processo — analisou a proposta e opinou ser favorável à parceria entre Sertãozinho e Rio Branco, com ressalvas: disse se basear, por enquanto, nas informações iniciais que o clube ofereceu, com a promessa de que o acordo não irá alienar patrimônio do Rio Branco, e cobrou que as partes apresentem o contrato para que ele seja avaliado pela Justiça. Em entrevista concedida na manhã da mesma quinta-feira no Estádio Décio Vitta, o presidente Cláudio Bonaldo detalhou o andamento das tratativas: o grupo investidor assume o compromisso de quitar a totalidade da parcela trabalhista da recuperação judicial junto ao Poder Judiciário e, em contrapartida, o terreno oferecido pelo clube passará aos investidores após o depósito de valor nunca inferior ao saldo devedor total dos ex-funcionários. O processo segue agora para análise do juiz encarregado do caso, a quem cabe a decisão final — e o clube informa que se posicionará oficialmente assim que houver uma definição exata e o parecer final do Judiciário.
Na prática, o Rio Branco vive o dilema que define o limite entre sobreviver e desaparecer: emprestar a própria identidade para um investidor manter o nome vivo nas divisões de acesso, sob o risco — apontado pelos credores — de comprometer o pouco patrimônio que resta, tudo sob a fiscalização de uma recuperação judicial que já produziu suspeitas de fraude, investigação preliminar do Ministério Público e disputas judiciais até sobre o dinheiro de uma venda feita quatro anos atrás.
Fonte: ge.Globo; ge.Globo 2; Instagram do Rio Branco Mil Grau.


