A temporada 2025/26 ficará marcada na história recente do FC Porto por um conjunto de conquistas que confirmam a dimensão esportiva do clube e a capacidade de conciliar ambição competitiva com responsabilidade financeira. A comemoração do 31º título de campeão nacional, o pleno de troféus nas categorias de base e a ascensão da equipe feminina à primeira divisão constituem marcos de uma temporada pautada pelo sucesso em campo e pelo cumprimento integral das regras de sustentabilidade financeira da UEFA — a entidade que regula o futebol europeu e exige que os clubes vivam dentro de suas possibilidades. Sob o comando de André Villas-Boas, a gestão se assenta em três fatores fundamentais: ambição esportiva, crescimento das receitas e gestão financeira responsável.
Receitas crescem em todas as fontes
No plano econômico, o exercício financeiro de 2025/26 apresentou indicadores de crescimento significativos. As receitas operacionais aumentaram 13%, o equivalente a 17,8 milhões de euros adicionais, com evolução positiva em todas as principais fontes: prêmios da UEFA (+39%), merchandising (+31%), bilheteria (+33%), hospitalidade corporativa (+9%) e publicidade (+8%). A esses resultados somam-se um novo recorde de lugares anuais vendidos e um crescimento expressivo da média de torcedores no Estádio do Dragão — sinais do envolvimento da arquibancada e da capacidade do clube de ampliar suas receitas operacionais. O aumento dos custos, por sua vez, deve ser lido à luz das opções estratégicas da temporada: o crescimento se deveu, essencialmente, ao forte investimento no elenco profissional e ao maior número de jogos organizados em casa, fatores diretamente associados à atividade esportiva.
Investimento recorde, prejuízo pontual e dívida em queda
A política de reforço do elenco principal ficou especialmente evidente no mercado de verão de 2025/26, quando o FC Porto colocou cerca de 110 milhões de euros em contratações — o maior valor em uma única janela de transferências. Considerando o mercado de inverno, o investimento em aquisições definitivas da temporada se aproximou dos 120 milhões de euros, traduzindo a aposta clara na capacidade competitiva da equipe e a ambição de devolver os títulos que escapavam. Essa opção teve reflexos também nas vendas: o resultado com as negociações de passes ficou em 56 milhões de euros, abaixo da média dos últimos anos — diferença que decorre da decisão de preservar os principais ativos do elenco, privilegiando a continuidade dos atletas fundamentais em vez de maximizar receitas imediatas.
Paralelamente, o exercício se beneficiou de operações relevantes no plano empresarial. A venda da subsidiária Porto Seguro ao grupo MDS gerou um ganho de 9,2 milhões de euros. Soma-se o cumprimento integral, em 2025/26, do earn-out — parcela de pagamento condicionada ao alcance de metas — associado ao resultado operacional da bilheteria, no valor de 15 milhões de euros, no âmbito da venda da Porto StadCo, S.A., à Ithaka, concretizada em 2024. Com esse componente, o valor relativo à alienação de 30% da Porto StadCo atingiu os 80 milhões de euros.
O resultado líquido do exercício foi, contudo, negativo em 21,1 milhões de euros, enquanto o resultado atribuível aos acionistas da empresa-mãe ficou negativo em 26,3 milhões de euros, contra 39,2 milhões de euros positivos no exercício anterior. Para compreender esses números, é preciso considerar a participação na Liga Europa — competição de impacto financeiro substancialmente inferior ao da Liga dos Campeões — e a opção de manter os principais elementos do elenco, em um contexto em que as vendas de jogadores ficaram nos 56 milhões de euros. Ainda assim, a análise não deve se limitar a um único exercício: somadas, as temporadas 2024/25 e 2025/26 registraram resultado líquido acumulado positivo de 12,5 milhões de euros — dado particularmente relevante por se tratar de duas temporadas sem a Liga dos Campeões, o que reforça a importância de avaliar os resultados em perspectiva plurianual.
Outro indicador relevante é a evolução do endividamento. No último exercício, a dívida financeira líquida diminuiu 29 milhões de euros em relação ao valor de 30 de junho de 2025, e passou a estar estruturada em prazos mais longos e com custo médio inferior. A redução do endividamento, acompanhada pela melhoria das condições de financiamento, constitui elemento importante na avaliação da solidez financeira e da capacidade de gestão da SAD — a Sociedade Anônima Desportiva, entidade portuguesa que administra o futebol profissional do clube e que corresponde, no Brasil, ao modelo da SAF. A estratégia de valorização esportiva se manteve no mercado de verão de 2026, com a continuidade dos principais protagonistas da campanha anterior e o reforço da aposta para a temporada 2026/27 — decisão que se refletiu no valor de mercado do elenco principal, que alcançou 471 milhões de euros, contra 392 milhões no exercício anterior: o valor mais elevado do plantel portista e o maior da Liga Portugal.
Na prática, os dados permitem identificar uma orientação em três eixos: ambição esportiva, crescimento das receitas e gestão financeira responsável. A manutenção das principais figuras do elenco, o investimento em contratações, a evolução positiva das receitas e a redução da dívida líquida devem ser considerados em conjunto na avaliação do percurso do clube. Num contexto em que o FC Porto busca afirmar sua competitividade sem comprometer a sustentabilidade financeira, o desafio passa por consolidar os resultados alcançados, continuar a valorizar seus ativos e assegurar que o investimento esportivo se traduza em condições de manter o clube na liderança do futebol português — e a conjugação entre sucesso em campo, capacidade de gerar receitas e disciplina financeira será determinante para sustentar essa ambição.
Fonte: A Bola.



