O Conselho Deliberativo do Vasco aprovou nesta terça-feira (6) a venda de 90% das ações da SAF para a Almirante Participações, empresa ligada ao empresário Marcos Lamacchia. A decisão foi tomada em dois atos. No primeiro, os conselheiros aprovaram a mudança do estatuto do clube — que previa a manutenção mínima de 20% das ações do clube-empresa com a ala associativa e agora será dona de 10%. Em seguida, foi aprovada a proposta apresentada por Lamacchia, numa operação que gira em torno de R$ 4 bilhões.
O placar refletiu a larga vantagem do projeto: a mudança estatutária passou com 172 votos favoráveis, 34 desfavoráveis e cinco abstenções; a proposta do novo investidor foi aprovada por 175 votos a favor, 26 contrários e três abstenções. Os conselheiros haviam recebido o texto da oferta com sete dias de antecedência, e a votação não foi livre de turbulência: antes dos votos, o Conselho de Beneméritos apontou fragilidades no contrato, e um grupo chegou a enumerar riscos na operação, sugerindo mudanças. Durante a sessão, houve ainda um bate-boca entre o presidente Pedrinho e um sócio, segundo relatado após a reunião.
O que está na proposta de Lamacchia
A oferta prevê um aporte mínimo de R$ 500 milhões e o pagamento da dívida do clube, acima de R$ 1 bilhão, por meio da recuperação judicial, além de R$ 15 milhões anuais para o clube social. Pela divisão acionária desenhada, a Almirante Participações ficará com 90% das ações da Nova SAF, enquanto o Vasco associativo permanecerá com 10%, mantendo os direitos especiais previstos na operação. A proposta é avalizada pelo pai do investidor, José Roberto Lamacchia, dono da Crefisa, que desde 2023 tenta entrar no cruz-maltino. O empresário, de 81 anos, é marido de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, que observa a situação e mantém diálogo com a direção vascaína, mas sem participação efetiva no negócio neste momento.
Próximos passos: Assembleia, Anresf e a conclusão do negócio
Com o aval do Conselho Deliberativo, o processo avança para a Assembleia Geral Extraordinária (AGE) — a reunião dos sócios estatutários, que terão a palavra final sobre a operação. Diferentemente do que ocorreu no Conselho, a AGE terá apenas uma votação, cujo resultado será definitivo dentro do processo interno do clube; ainda não há prazo definido para que ela aconteça. Se aprovada pelos sócios, a Almirante Participações passará oficialmente a controlar 90% da SAF do Vasco.
Antes da conclusão, porém, existe outra etapa no caminho: a Anresf — a agência que regula e fiscaliza a sustentabilidade financeira do futebol brasileiro — ainda investiga um possível conflito de interesse na negociação, uma vez que Marcos Lamacchia é enteado de Leila Pereira. A agência precisa avaliar toda e qualquer mudança societária nas SAFs do país. Somente após esses aceites, a operação seria concluída, passando ainda por procedimentos judiciais relacionados à arrematação e aos ativos a serem transferidos da antiga para a nova SAF.
Na prática, o clube deu nesta terça-feira um passo decisivo — mas não definitivo — rumo à troca de controle. A aprovação do Conselho transferiu o jogo para duas frentes: a política, com a Assembleia Geral que pode selar o acordo junto aos sócios, e a regulatória, com a Anresf avaliando o negócio. Se ambas forem superadas, o Vasco encerra o processo de transição iniciado com a chegada da SAF e entrega a gestão do futebol a um grupo que promete injetar meio bilhão de reais de partida, quitar a dívida bilionária via recuperação judicial e sustentar o clube social com repasses anuais.



