O rebaixamento para a Série C colocou fim à agonia da Ponte Preta dentro da Série B, mas abriu uma corrida muito mais difícil fora de campo. Com seis jogos ainda pela frente na competição, a Macaca já precisa planejar 2027 sem saber quando poderá registrar reforços, quais jogadores permanecerão no elenco e de onde virão os recursos para sustentar a próxima temporada. A reconstrução começa por um problema elementar: o clube está submetido a transfer bans — punições que impedem a inscrição de novos atletas enquanto as pendências que motivaram os bloqueios não forem regularizadas.
Isso não significa que a diretoria esteja proibida de conversar com jogadores ou assinar contratos. Na prática, porém, qualquer reforço contratado não poderá ser inscrito nas competições até que o clube pague as dívidas, renegocie os valores ou consiga suspender as sanções. O histórico recente mostra o tamanho do risco: no início de 2026, o clube demorou para conseguir registrar reforços e precisou disputar as primeiras rodadas do Campeonato Paulista com um elenco reduzido, completado por jogadores das categorias de base. A improvisação terminou com o rebaixamento estadual.
Três bloqueios simultâneos e uma dívida que pode passar de R$ 380 milhões
A Ponte acumula diferentes bloqueios. Um dos impedimentos foi determinado pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) depois que o clube deixou de pagar parcelas de um acordo coletivo firmado para quitar aproximadamente R$ 18 milhões devidos a jogadores, treinadores, clubes e intermediários. O clube também recebeu punições da Fifa: uma envolve valores relativos ao mecanismo de solidariedade do Iguazú Nippon, do Paraguai — o sistema que distribui parte das transferências entre os clubes formadores —, e outra está relacionada a uma dívida decorrente da passagem do zagueiro boliviano Luis Haquin pelo Moisés Lucarelli. A Macaca chegou a acumular três bloqueios simultâneos e, como não houve anúncio oficial sobre a retirada completa das punições, continua dependendo da regularização desses processos para voltar ao mercado de maneira efetiva.
As proibições, porém, são apenas uma parte de uma crise financeira mais ampla. A dívida total da Ponte é estimada em pelo menos R$ 380 milhões e pode ser ainda maior, dependendo da atualização de processos, encargos e obrigações que continuam em discussão. Durante a Série B, jogadores e funcionários conviveram com atrasos que chegaram a seis meses. O elenco profissional entrou em greve e, diante do risco de uma derrota por W.O. — a perda do jogo por não comparecimento —, o clube recorreu aos jovens da base para enfrentar o América-MG. A falta de pagamentos também provocou uma debandada: atletas procuraram a Justiça, obtiveram rescisões e deixaram Campinas justamente quando o time mais precisava de alternativas para tentar evitar a queda. Em menos de um ano, a equipe que havia conquistado o primeiro título nacional da história da Ponte foi desfigurada. O resultado apareceu na tabela: lanterna isolada, duas quedas na mesma temporada e uma das piores campanhas já registradas na Série B.
Queda de receitas, fim das bets e a aposta na base
A Série C oferecerá à Ponte uma exposição nacional menor, menos jogos com grande audiência e uma capacidade mais limitada de atrair patrocinadores. O clube também perderá força nas negociações comerciais e deverá reduzir novamente a folha salarial. O impacto pode ser ampliado pelo fim dos contratos com empresas de apostas: a Macaca está entre os clubes que recorreram ao Supremo Tribunal Federal contra a proibição das bets, sob o argumento de que a ruptura dos acordos ameaça o pagamento de salários e a manutenção das atividades esportivas. O desafio será cortar despesas sem montar um elenco incapaz de lutar pelo acesso — uma armadilha que o clube conhece bem: depois de conseguir subir em 2025, não preservou a estrutura do time campeão e regressou à terceira divisão na temporada seguinte.
Mesmo que um investidor seja aprovado, o projeto de SAF ainda não oferece resposta imediata. Será necessário definir quais dívidas entrarão na operação, quanto será destinado imediatamente ao futebol, quem assumirá os passivos e quais garantias serão oferecidas ao clube associativo. A SAF, portanto, pode fazer parte da reconstrução, mas não elimina a urgência: a Ponte precisa resolver os transfer bans, negociar com credores, normalizar os salários e começar a montagem do elenco antes do Campeonato Paulista. Nesse cenário, as categorias de base deverão ocupar um espaço importante — os jovens já foram utilizados em situação emergencial durante a greve e podem oferecer alternativas mais baratas para o elenco de 2027.
A queda foi confirmada com antecedência suficiente para a Ponte iniciar imediatamente o trabalho. O problema é que, antes de contratar, o clube terá de recuperar o direito de registrar; antes de prometer o acesso, precisará voltar a pagar; e, antes de pensar em reconstrução, terá de evitar que 2027 comece com os mesmos improvisos que destruíram 2026. Na prática, o ano que vem será definido fora de campo: pela capacidade de destravar os bloqueios, renegociar as dívidas, normalizar os salários e montar um elenco competitivo para o Paulista e para a Série C — com a base como peça central e a SAF como promessa ainda distante de virar solução concreta.
Fonte: Futebol Interior.



